domingo, 9 de março de 2008

ENSINA-ME A VIVER

“Que flor você gostaria de ser?.”


Quando “Ensina-me a Viver” estreou nos cinemas em 1971, essa incomum história de amor - entre um rapaz de vinte anos e uma octagenária - foi inicialmente um fracasso. Somente depois é que tornou-se sucesso. Fazendo-se um retrospecto, é um fato que não surpreende: uma comédia levemente anárquica, na qual as instituições como a polícia, o exército e a igreja são objeto de chacota e em que a riqueza material não aparece como um objetivo desejável – e sim como a causa de um vazio espiritual total -, não poderia alinhar-se com uma sociedade que acabara de eleger o conservador e republicano Nixon. Ao contrário, o filme agradou às pessoas – a juventude em primeiro lugar – que se sentiam presas às convenções tradicionais. A música de Cat Stevens, que se repete diversas vezes ao longo do filme, reforça o tema: “If you wanna be free, be free”

De fato, “Ensina-me a Viver” é muito mais que uma história de amor. Ofilme é também uma crítica social, de humor negro. O diretor, Hal Ashby, permeia habilidosamente entre o particular e o político, entre a comédia e o sentimento, entre o grotesco e a banalidade.

O filme começa de u m modo macabro. Harold Chansen (Bud Cort), jovem de família rica, põe um disco, acende velas, sobe em uma cadeira e enforca-se. Sua mãe (vivan Pickles), que chega em casa logo depois, não parece abalar-se; cancela o horário marcado na cabeleireira e sai de casa não antes de dizer a Harold que o jantar é às oito horas.

Os “suicídios” encenados por Harold (haverá outros ao longo do filme) são rituais e constituem uma série de diversas tentativas - surpreendentes sempre, mas frustradas – de comunicar-se com sua mãe. Todas as cenas entre Harold e a Sra. Chasen desenvolvem-se da mesma forma: ela não deixa de dizer bobagens e ele não fala absolutamente nada. E, quando finalmente Harold tem algo a dizer, ela não o escuta.

Os Chasen vivem em uma casa de campo impressionante – daquelas que o diretor mostra planos gerais externos para destacar mais sua proporção -; o interior, ao contrário, é escuro, opressivo e, segundo parece, sobrecarregam tanto Harold, como suas roupas. Conseqüentemente, Harold se movimenta com rigidez e torpeza e os traços de seu rosto dão a impressão de um morto-vivo.

Harold é a antítese de Maude (Ruth Gordon), a quem conhece praticando seu hobby comum: assistir ao enterro de gente desconhecida. Com cerca de oitenta anos, Maude vive cheia de energia e de dinamismo, sempre movimentando-se, ainda que usando os carros que rouba e com os quais dá voltas pelo bairro, de forma alucinante, mas cheia de “gás”.

Na realidade, Maude parece tão jovem – é ela que se atreve em casar com Harold na igreja – que o suposto matrimônio desequilibrado em nada resulta escandaloso; a vergonha fica com aqueles que se opunham à relação dos dois.

Harold começa a voltar a viver, já que Maude literalmente o transforma; anima-o a cantar e dançar, presenteia-lhe com um banjo e o incita a a dar piruetas sempre que tiver vontade. Para Maude, cada dia há que se inventar algo novo.

De acordo comoutro lema seu, nunca se deve a pegar-se a nada; tampouco ela se apegará à vida, pois vai dar fim a si mesma no dia de seu aniversário. Mas Harold está apegado. Na última cena, na qual se vê Harold correndo com seu Jaguar – convertido em carro fúnebre - a toda velocidade em direção a uma encosta onde joga o carro, Hal Ashby retoma o tema do suicídio. Entretanto, um movimento ascendente da câmera mostra Harold vivo, à beira do precipício, e tocando o banjo que ganhara de presente. Filme necessário, principalmente pela atuação da lendária Ruth Gordon, em momento de graça.




Ensina-me a Viver (Harold and Maude)
1971 – EUA - 91 min. – Colorido – Comédia
Direção: HAL ASHBY. Roteiro: COLIN HIGGINS, baseado em sua novella homônima. Fotografia: JOHN A. ALONZO. Montagem: WILLIAM A. SAWYER e EDWARD WARSCHILKA. Música: CAT STEVENS . Produção: CHARLES MULVEHILL, COLLIN HIGGINS e MILDRED LEWIS, para a PARAMOUNT PICTURES.

Elenco: BUD CORT (Harold Chasen) RUTH GORDON (Maude, VIVIAN PICKLES (Sra. Chasen), CYRIL CUSACK (Glaucus), CHARLES TYNER (Tio Victor), ELLEN GEER (Sunshine Doré), ERIC CHRISTMAS (Padre), G. WOOD (Psiquiatra), JUDY ENGLES (Candy Gulf) e SHARI SUMMERS (Edith Phern)

Trailer Original:



Assista também:




Muito Além do Jardim

quinta-feira, 6 de março de 2008

TAXI DRIVER

“Fala comigo?”


Os nervosos e metálicos compassos do tema musical da seqüência inicial indicam claramente que o filme vai terminar calmo. Na rua, uma densa nuvem de vapor brota do chão e deixa a tela em branco. Do nada, surge um táxi amarelo atravessando a inquietante cortina de vapor em câmera lenta. A música em off perde-se aos poucos em harmonias graves, o táxi fantasmagórico desaparede e e a nuvem volta a encher a tela. Dois olhos negros aparecem em primeiro plano, acompanhados por um tema de jazz. Olham de cima a baixo a luz vacilante dos faróis, como observando ao redor. São os olhos de Travis Bickle (Robert De Niro), um taxista novaiorquino que terminará convertendo-se em um anjo vingador.

“Táxi Driver” tem dividido a crítica desde sua estréia em 1976. Para uns, o protagonista sofre de desorientação moral, presume ser o salvador de uma jovem prostituta (Jodie Foster) e, ao final, em uma sangrenta loucura, executa três figuras suspeitas – fato que faz a imprensa trata-lo como um herói. Fazendo uma análise mais atenta, outros críticos viram nas imagens melancólicas uma linguagem cinematográrica magistralmente estilizada e descobriram na figura do louco homicida Travis Brickle um tipo urbano sócio-patológico que aparecem por toda a parte. “Em cada rua, em cada cidade tem um senhor nada que sonha ser alguém”, dizia um dos textos dos cartazes.

Travis não pode dormir à noite. Se há taxista para ganhar “uma grana, levo as pessoas quando e aonde queiram”, diz mais ou menos na entrevista para emprego; inclusive aos bairros que seus colegas evitam há tempos. São regiões nas quais as luzes são excessivas ou bem escassas, nas quais as bandas de rua tocam com toda liberdade e em que as prostitutas adolescentes esperam clientes sob uma gritante publicidade luminosa. Travis consegue trabalho. Ele e seu táxi são um só – a catástrofe se inicia...

Como Travis, o espectador observa a noite andando de táxi. Poucas vezes Nova Iorque foi filmada em seqüências tão impressionantes. O estilo fotográfico alterna entre o enfoque semi-documental e o subjetivo. A sugestiva música de Bernard Herrmann, que não se limita a acompanhar o filme, dá lugar a uma união absolutamente peculiar de imagem e som. Viajar no táxi passa a ser nada menos que uma metáfora do cinema.

Travis falha na sua tentativa de desenvolver uma relação amorosa com Betsy (Cybill Shepherd), que colabora em uma campanha eleitoral. Incapaz de fazer-se compreender e de expressar seus sentimentos, acaba recorrendo às armas. Anda pela cidade sozinho, sem rumo fixo. A história de Travis é semelhante a do táxi amarelo que surge da neblina na seqüência inicial do filme. Também, ele surge do nada, deixa-se ver brevemente na luz noturna da grande cidade e volta a desaparecer no nada.

Travis não é um herói, mesmo que aqueles que viram o filme pela primeira vez celebraram sua implacável loucura homicida. Naturalmente, a violência é um temaimportante no filme, mas neste caso não se trata da violência física, mas sim social. Travis personifica o homem que se perdeu na cidade grande. Robert De Niro dotou-o de feições próprias e um corpo inconfundíveis.

Scorsese destaca-se por realizar seus filmes no papel. Disseca-as previamente, em storyboard. Suas imagens são uma verdadeira linguagem. Paul Schrader roteirizou “Taxi Driver”. Foi a colaboração entre esses dois fanáticos do cinema. Inesquecíveis as cenas em que Travis se observa diante do espelho sem camisa e com o revólver à mão, duelando consigo mesmo. “Está falando comigo?” É uma cena que foi exaustivamente repetida no cinema, mas jamais superada. Um clássico moderno.



Taxi Driver (Taxi Driver)
1975 – EUA - 113 min. – Colorido – DRAMA
Direção: MARTIN SCORSESE. Roteiro: PAUL SCHRADER. Fotografia: MICHAEL CHAPMAN. Montagem: TOM ROLF, MELVIN SHAPIRO e MARCIA LUCAS. Música: BERNARD HERRMANN . Produção: JULIA PHILLIPS e MICHAEL PHILLIPS, para BILL/PHILLIPS e COLUMBIA PICTURES CORPORATION.

Elenco: ROBERT DE NIRO (Travis Bickle), CYBILL SHEPHERD (Betsy) (Jeanne), JODIE FOSTER (Iris), HARVEY KEITEL (Esportista), ALBERT BROOKS (Tom), PETER BOYLE (Wizard), MARTIN SCORSESE (Viajante), STEVEN PRINCE (Andy, traficante de armas), DIAHNNE ABBOTT (Confeiteira), e VICTOR ARGO (Melio).

Prêmios: Palma de Ouro de Melhor Filme (Martin Scorsese)/1975.


Trailer Original:

quarta-feira, 5 de março de 2008

BARRY LYNDON

“ Os personagens viveram e lutaram durante o reinado de Jorge III. Foram bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres. Agora, são todos iguais.”

Se Redmont Barry (Ryan O´Neal) não tivesse se apaixonado por sua prima (Gay Hamilton), sua vida teria sido muito diferente. Mas, mesmo assim, o jovem quis duelar com o oficial para quem a moça estava prometida. E, se Barry não tivesse matado o militar, não teria que abandonar sua cidade na Irlanda. Mas, mesmo assim, foi condenado a vagar pela Europa – primeiro, como soldado do exército britânico e, depois, do prussiano. Esta é a vida de Barry, comandada por outras pessoas que, em troca, o ajudam em sua escalada social.

Sua estratégia é estar no lugar certo, no momento certo. Durante a guerra, salva a vida de um superior que, por gratidão, lhe arruma um posto na polícia alemã. Em outra empreitada, Barry confessa sua identidade a um aristocrata irlandês a quem devia espionar; este, em agradecimento, torna-se seu tutor. E assim segue Barry - aprende a arte dos jogos de azar e se converte em assíduo freqüentador das cortes européias. Quando consegue quase tudo, exceto um bom nome e uma mulher, conhece Lady Lyndon (Marisa Berenson), que lhe proporcionará fortuna e posses – que ele perderá rapidamente. Ao final, Barry termina por onde começou, na mesa de jogo – depois de ter perdido uma perna, o filho, a mulher e seu patrimônio.

O filme trata da ascensão e queda de um oportunista. “Barry Lyndon”, é um filme cheio de imagens arrebatadoras; talvez seja o filme visualmente mais bonito do cinema – uma obra de arte pictórica. Ao assisti-la, temos a sensação de estar em visita a um museu, rodeado de telas de Gainsborough ou Reynolds. Creio que dificilmente outro diretor tenha concebido um trabalho de maneira tão minuciosa a partir de quadros, de cores tão intensas. Também, provavelmente, a segunda metade do século XVIII nunca tenha sido apresentada diante do espectador com tantos detalhes.

“Barry Lyndon” é o filme histórico por excelência. A diferença em relação a outros filmes de época é que não estabelece nenhum vínculo com o presente; nos demais, os personagens vestem-se como antigamente, mas comportam-se segundo a moral atual. “Barry Lyndon é uma entidade autônoma, que pertence ao passado, mas que, por outro lado, vive graças ao seu humor sutil, sobretudo na primeira parte do filme.

O fato de Kubrick ter concebido seu filme como uma sucessão de quadros, é conseqüência direta do tema: a superficialidade e a importância do elemento visual em uma sociedade burguesa. O formalismo com que ele leva a cabo seus inúmeros zooms, faz-nos lembrar de alguém se aproximando de um quadro para apreciar seus detalhes e, lentamente, afastando-se para observar o todo. A câmera desloca-se no espaço em diversas ocasiões, concretamente quando não aparecem gestos e cerimonias, mesmo nas cenas de nudez, quando, por exemplo, Barry luta com o soldado mais forte do exército ou durante a marcha sob fogo das armas francesas.

A última cena nos situa o ano de 1789. Antes disso, o individualismo ainda não havia se desenvolvido como ideal. As vestimentas somente serviam como indicativo da posição social e não como expressão da própria personalidade. Como um pavão, o oficial da armada, vestido em seu uniforme, conquista a prima de Barry graças ao seu visual e dinheiro. A partir deste momento, ele somente perseguirá dois objetivos – a riqueza e as aparências. Mais adiante, quando já casado com a bela Lady Lyndon, a voz em off do narrador nos mostra que ela não desempenha, na vida com o esposo, um papel mais importante do que os adornos e quadros que decoram seu dia a dia.

Se o primeiro duelo havia lançado Barry à aventura, o segundo o expulsa da alta sociedade. No final, Barry enfrenta seu enteado na cocheira. Kubrick dedica seis minutos a este duelo, que parece mais um ritual, com uma frieza quase total. De repente, o jovem se sente enjoado por um pânico e vomita. Uma demonstração de emoção que Barry jamais se permitiria em público. Percebe-se que sua hora havia passado; pessoas como ele deviam desaparecer. O narrador nos conta que Barry voltaria a Irlanda mas que, posteriormente, seria visto novamente em outros lugares - tentaria novamente, mas sem êxito, ganhar a vida como jogador.



Barry Lyndon (Barry Lyndon)
1975 – INGLATERRA - 184 min. – Colorido – DRAMA
Direção:. STANLEY KUBRICK. Roteiro: STANLEY KUBRICK, baseado na obra homônima de WILLIAM M. TACKERAY. Fotografia: JOHN ALCOTT. Montagem: TONY LAWSON. Música: LEONARD ROSENMAN, BACH, MOZART, SCHUBERT, HÄNDEL e VIVALDI . Produção: STANLEY KUBRICK, para a HAWK FILMS e PEREGRINE.

Elenco: RYAN O´NEAL (Barry Lyndon), MARISA BERENSON (Lady Lyndon), HARDY KRÜGER (Capitão Potzdorf), PATRICK MAGEE (Chevalier de Balibari), STEVEN BERKOFF (Lorde Ludd), GAY HAMILTON (Nora Brady), MARIE KEAN (Mãe de Barry), DIANA KÖRNER (Lieschen), MURRAY MELVIN (Reverendo Runt) e FRANK MIDDLEMASS (Sir Charles Reginald Lyndon).

Prêmios:
Oscars de Melhor Fotografia (John Alcott); Melhor Trilha Musical Adaptada (Leonard Rosenman); Melhor Direção de Arte (Ken Adam, Roy Walker e Vernon Dixon) e Melhor Vestuário (Milena Canonero) /1975.

Trailer Original:

POSSESSÃO

“Você não vê que eu te odeio?”.

Embora seja considerado do gênero horror, ou rotulado como um filme de terror intelectualizado, esse desafiador e incomum drama tem Isabelle Adjani como uma jovem que abandona o marido (Sam Neill) e seu amante (Heinz Bennent) por uma bizarra criatura cheia de tentáculos que ela mantém em um precário apartamento em Berlim. No início, seu marido nada sabe sobre a existência do monstro e acredita que sua esposa está louca. Ele contrata detetives para segui-la, os quais ela mata e usa como alimento para a criatura. Ainda inconsciente do que acontece, o marido resiste à sedutora presença da reservada professora-sósia de sua mulher (também interpretada por Isabelle Adjani), que freqüentemente aparece para cuidar do filho do casal enquanto sua esposa desaparece. Mesmo seduzido pela presença e beleza da professora, ele ainda é apaixonado pela esposa e, mesmo depois que descobre sobre os assassinatos, permanece a seu lado e a ajuda a acobertar os crimes.

O filme é tão deliberadamente esotérico, que perde o sentido. Seus simbolismos e sua exagerada direção, somados ao tour de force de Isabelle Adjani, tornam filme, além de confuso e sanguinário, muito estranho.

Uma co-produção franco-germânica, filmada em inglês, o filme foi escrito e dirigido pelo polonês (nascido russo) Andrzej Zulawski. Foi premiado em Cannes 1981, pela performance de Isabelle Adjani. O filme tem mais de duas horas. Entretanto, é possível que parecesse absolutamente ilógico, qualquer que fosse sua duração. Como Anna, Isabelle Adjani é obrigada a atuar numa sucessão crescente de cenas tolas. Além disso, por alguma razão qualquer, ela também aparece como a bonita e “normal” professora de escola Helen.

"Possessão" é um verdadeiro carnaval de narizes sangrando. Por causa dos três personagens principais – Anna, seu marido Marc (Sam Neill) e seu amante, Heinrich (Heinz Bennent) – todos se degladiam violentamente ao longo do filme, atuando na maioria das cenas em estado de sangramento. Algumas vezes, o filme colorido “Possessão” faz-me lembrar do preto e branco “Repulsa ao Sexo”, de Roman Polanski, embora somente por causa de Adjani que recorta tantos homens quanto Catherine Deneuve anteriormente, em um filme muito superior.

Não sei se Isabelle Adjani mereceu seu prêmio em Cannes pela atuação como Anna, mas ela o mereceu por algo, talvez por tanto malabarismo. Em certo ponto, ao tentar cortar sua própria garganta com uma faca elétrica, ela grita coisas do tipo “Porque você continua me incomodando?” e “Você não vê que eu te odeio?”. O diálogo do filme sempre perde alguma intensidade nas imagens.

Os vários sotaques também são um problema. O ator Heinz Bennent, como muitos alemães que falam inglês não-nativo têm problemas ao pronunciarem os r´s. O sotaque francês de Isabelle Adjani e o inglês australiano de Sam Neill acabam por completar o pacote confuso. O filme foi rodado em Berlim, à época da queda do muro, que parece ser um lugar receptivo a atores de outra nacionalidade.



Possessão (Posesión)
1981 – FRANÇA/ALEMANHA - 123 min. – Colorido – TERROR
Direção:. ANDRZEJ ZULAWSKI. Roteiro: ANDRZEJ ZULAWSKI; adaptação e diálogos de ANDRZEJ ZULAWSKI e FREDERIC TUTEN. Fotografia: BRUNO NUYTTEN. Montagem: MARIE-SOPHIE DUBUS e SUZANNE LANG-WILLAR. Música: ANDRZEJ KORZYNSKI . Produção: JEAN-JOSE RICHER, distribuído pela LIMELIGHT INTERNATIONAL FILMS, INC.

Elenco: ISABELLE ADJANI (Anna/Helen), SAM NEILL (Marc), HEINZ BENNENT (Heinrich), MARGIT CARSTENSEN (Margie), MICHAEL HOGBEN (Bob), SHAUN LAWTON (Zimmermann), JOHANNA HOFER (Mãe de Henirich) e CARL DUERING (Detetive).


Trailer Original:

terça-feira, 4 de março de 2008

DUBLÊ DE CORPO

" Ação, Jake.”

O ator Jake Scully (Craig Wasson) é atingido por todos os lados. De repente, sofre uma crise de “medo da câmera”, que atribui a uma experiência claustrofóbica na infância. É demitido e, ao chegar em casa, encontra nada menos que sua noiva na cama com outro. Mas parece que sua sorte muda, quando conhece um colega de profissão, Sam (Gregg Henry), que lhe oferece a possibilidade de cuidar da casa de uns amigos que estão fora da cidade. O apartamento luxuoso, localizado numa montanha, não somente tem vista de toda Los Angeles, , assim como dispõe de uma luneta perfeitamente situada para observar o quarto de Glória Revelle (Deborah Shelton), uma morena explosiva que oferece todas as noites uma espécie de striptease em seu apartamento.

Jake fica fissurado pela misteriosa mulher e observá-la torna-se rapidamente em uma obsessão. Porém, numa noite descobre que ele não é o único que tem o hábito de voyeurismo. Um estranho e inquietante homem, de origem índio-americana, rastreia todos os seus movimentos. Jake pretende advertir Gloria, mas chega tarde demais e nada pode fazer, senão observar a janela com o homem cometendo um brutal assassinato. Agora somente restou-lhe ajudar a polícia a descobrir o assassino. Ao voltar ao apartamento, Jake se refugia no álcool e na pornografia – lhe parecem familiares os movimentos lascivos de uma estrela pornô ruiva (Melanie Griffith). Pouco a pouco se dá conta de que havia sido somente a peça de uma engrenagem de um crime planejado.

O toque hitchicockiano dos filmes de Brian De Palma começou a chamar atenção com “Sisters” (1973). Alguns críticos chegam a tê-lo como o legítimo herdeiro do diretor britânico – o que, apesar da qualidade técnica de Brian de Palma, a comparação chega a ser um exagero. Em “Obsessão” (1976), a versão de De Palma para “Vertigo” (1976), ao contrário de “Dublê de Corpo”, baseou-se numa leitura livre da obra de seu ídolo. Na realidade, Jake Scully é a reencarnação dos personagens interpretados por James Stewart em “A Janela Indiscreta” (1954) e “Vertigo” (1958).

Jake adota o maneirismo obsessivo de estar sendo perseguido, como no primeiro filme, e é vítima dos encantos sedutores da mulher que faz de isca, como acontece ao policial aposentado, no segundo filme. A veneração de De Palma pelas obras do Hitchcock vai além de meras semelhanças. De Palma reproduz cenas-chave os filmes do mestre, como a seqüência circular do beijo e o famoso efeito de vertigem que Hitchcock inventou em “Vertigo”. As versões destas cenas trazem certo exagero, o que permite aos fãs dos originais reconhecerem a homenagem.

A hipérbole de De Palma leva o filme para o terreno da farsa, mas também existe uma dimensão de auto análise, pois são empregadas técnicas que mostram o conhecimento da mudança de política em Hollywood. Submetido à censura, Hitchcock valia-se da sutileza e da ironia para expressar o voyeurismo, com grande perspicácia e características compensadoras. De Palma, ao contrário, decide tratar a questão de forma direta e o exagerado artificialismo do filme, bem como o seu radical simbolismo sexual, apresentam-se como fantasias masculinas agressivas e grotescas.

O público se depara com a imagem dos desejos (sem barreiras) de um protagonista impotente e frustrado. Ao contrário de James Stewart, aqui o herói é patético: protegido de uma realidade no seio materno, um solitário apartamento que parece um o.v.n.i., entrega-se aos sonhos úmidos mais mórbidos, de cima da “acrópole” do cinema californiano.

“Dublê de Corpo” é uma homenagem a um mestre e uma crítica irônica aos filmes de Hollywood dos anos oitenta, durante a Era Reagan. Em plena recuperação das fantasias viris, os filmes reproduziam heróis com excesso de músculos e dispostos a enfrentar o mundo. Até Jake entra em ação na cena final, ao interpretar um vampiro em um filme pornô light e derramar sangue falso nos seios nus de uma especialista. Ao seu modo, é um final feliz.



Dublê de Corpo (Body Double)
1984 – EUA - 114 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: BRIAN DE PALMA. Roteiro: ROBERT J. AVRECH e BRIAN DE PALMA. Fotografia: STEPHEN H. BURUM. Montagem: JERRY GREENBERG e BILL PANKOW. Música: PINO DONAGGIO. Produção: BRIAN DE PALMA , para a COLUMBIA PICTURES CORPORATION e DELPHI 2.

Elenco: CRAIG WASSON (Jake Scully), GREGG HENRY (Sam Bouchard), MELANIE GRIFFITH (Holly Body), DEBORAH SHELTON (Gloria Revelle), GUY BOYD (Jim McLean), DENNIS FRANZ (Rubin), DAVID HASKELL (Professor de Teatro), REBECCA STANLEY (Kimberly Hess), AL ISRAEL (Corso) e DOUGLAS WARHIT (Vendedor de Vídeos).



Trailer Original:

segunda-feira, 3 de março de 2008

NUM LAGO DOURADO

" Quanto você cobra uma obturação?.”

Trata-se da sempre feliz lição de “como aprender a amar” sobre um verão nas vidas de Norman Thayer Jr. (Henry Fonda) - um excêntrico professor universitário aposentado –, Ethel Thayer (Katherine Hepburn)- sua corajosa esposa durante 50 anos – e a única filha, Chelsea (Jane Fonda), a quem Norman nunca perdoou por não ter nascido homem. Não precisamos fazer nenhum esforço para descobrir o que acontece à suave misantropia de Norman, especialmente seus sentimentos em relação à Chelsea, depois que ele e Ethel passam um mês cuidando de Billy Ray (Doug McKeon), filho do noivo de Chelsea - um adolescente desbocado, solitário e incompreendido. A vida pode ser bela – se cheia de lágrimas.

O filme é um típico “queijo”, mas Henry Fonda, Katharine Hepburn, Jane Fonda e Dabney Coleman, o noivo de Chelsea (Bill Ray), adicionam mais do que cores a esse produto pasteurizado, fazendo ''Num Lago Dourado'' ter o gosto de um velho e saboroso cheddar. O motivo pelo qual menciono esse filme no meu blog é outro – chama-se Henry Fonda.

Como Norman Thayer Jr., celebrando seu octagésimo aniversário, relutante, furiosamente consciente de seu estado mental e físico (com tanto medo da morte, quanto com raiva dela), Henry Fonda nos premia com uma de suas mais belas interpretações ao longo de sua distinta carreira. É um filme para brindar uma atuação brilhante, daquelas que não descobrimos de um dia para o outro em um laboratório, mas como resultado do aprimoramento de inúmeras performances.

Ao vê-lo em “Num Lago Dourado”, você assiste à inteligência, força e graça de um talento amadurecido na tela durante sua vida de ator, desde “Vive-se Só Uma Vez” (1937), “Jessé James” (1939), “As Vinhas da Ira” (1940), “As Três Noites de Eva” (1941) e “Paixão dos Fortes” (1946), passando por “O Homem Errado” (1956), “Doze Homens e Uma Sentença” (1957) e todos os outros menos antigos nos quais ele deu status, simplesmente por sua presença na tela.

Em “Num Lago Dourado”, Henry Fonda está muito engraçado, indiferente e durão, de forma que deixa à parte o sentimentalismo exagerado do material e da direção de Mark Rydell, que, quando em dúvida, mostrava as tomadas poéticas das águas douradas que inspiram o título do filme, os pássaros voando em harmonia e os lírios resplandescendo com o orvalho – mais uma gota de orvalho e o filme afundaria.

Katherine Hepburn também está em estado de graça. Uma das maiores qualidades como atriz é a forma generosa com que ela atua quando co-estrela um filme. Quando protagoniza sózinha, parece ficar menos à vontade se as coisas não são feitas a seu modo, caindo em maneirismos. Ela necessita de alguém para apóia-la, desafiá-la. Conhecemos o temperamento de Katherine Hepburn. Sou seu fã incondicional; entretanto, ouso dizer que Henry Fonda é a melhor coisa que aconteceu a ela desde Spencer Tracy e Humphrey Bogart.

Jane Fonda, uma atriz de altos e baixos, consegue manter-se competente em um papel secundário, mesmo na medonha e típica cena de reconciliação que acontece com muito mais freqüência nos dramas familiares de segunda categoria do que na vida real .

Uma grata surpresa é ver Dabney Coleman como o decente dentista – num papel que vai além das caricaturas que estava acostumado a fazer. Uma das melhores cenas do filme é o encontro inicial que tem com o pai de sua noiva, no qual o dentista sugere que ele e Chelsea gostariam de dormir no mesmo quarto, enquanto estivessem no Lago Dourado. Tentando conquistar o velho, o dentista diz: “Nós temos um relacionamento muito... dinâmico”. Norman responde: “Quando você cobra uma obturação?”.

Quanto menos falar sobre Billy, o filho do dentista e quase enteado de Chelsea - que aprende a pescar, mergulhar e ser civilizado com os idosos durante o verão no Lago Dourado -, melhor. Em troca, ele transforma o velho Norman em um amável pai para sua filha quarentona, que nunca foi capaz de chamá-lo de “Pai”. Billy não é um personagem, mas uma peça mecânica, bem à maneira com que Doug McKeon foi dirigido para atuar pelo diretor Rydell. “Num Lago Dourado” é um filme morno, mas oferece uma performance de rara qualidade e outras três que são muito boas. Não é de todo ruim.



Num Lago Dourado (On Golden Pond)
1981 – EUA - 110 min. – Colorido – DRAMA
Direção: MARK RYDELL. Roteiro: ERNEST THOMPSON, baseada na sua peça homônima. Fotografia: BILLY WILLIAMS. Montagem: ROBERT L. WOLFE. Música: DAVE GRUISIN. Produção: BRUCE GILBERT, distribuído pela UNIVERSAL PICTURES.

Elenco: KATHERINE HEPBURN (Ethel Thayer), HENRY FONDA (Norman Thayer Jr.), JANE FONDA (Chelsea Thayer Wayne), DOUG MCKEON (Billy Ray), DABNEY COLEMAN (Bill Ray), CHARLIE MARTIN (William Lanteau) e SUMNER TODD (Chris Rydell).


Trailer Original:

domingo, 2 de março de 2008

RATATOUILLE

" Nem todo mundo pode ser um grande artista. Mas, um grande artista pode vir de qualquer lugar."

O herói é Remy (Patton Oswalt), um jovem rato que mora em algum lugar do interior da França e possui uma paixão por culinária sofisticada. Criado por “comedores de lixo”, Remy é atraído por uma sensibilidade palatar e pelo exemplo de Auguste Gusteau (Brad Garret), um famoso “chef du cuisine” que insiste a todo tempo “que todo mundo pode cozinhar”. O famoso mestre cuca já morreu e conversa com Remy nos momentos mais difíceis, tirando dúvidas e funcionando como um alter-ego do protagonista, fazendo-nos lembrar Bonaparte e Julien Sorel, em “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal.

O que Remy descobre é que todos, incluindo seu irmão aculturado, pode aprender a apreciar sabores intensos e incomuns – traduzir as reações do olfato e paladar por meio de sons e imagens é um difícil desafio, que consegue ser vencido com uma ingenuidade e simplicidade de tirar o chapéu, tanto do diretor quanto de Michael Giacchino, que compôs uma trilha sonora espetacular. A vocação culinária que torna Remy famoso o faz trilhar um caminho solitário, que o separa de sua família e amigos, levando-o à aventura, que tantos jovens antes dele tentaram, de procurar sua sorte em Paris. “La Ville Lumière”, com seus paralelepípedos e sótãos, é maravilhosamente concebida no filme.

Percebe-se de cara um completo domínio de textura e detalhes sensoriais – nos pêlos molhados do ratinho e nas ranhuras que brilham na impressão dos potes de cobre, bem como na umidade da superfície dos vegetais cortados e em inúmeros outros detalhes.
Individualmente, os ratos são muito interessantes, mas a visão de centenas deles adentrando a cozinha e as mesas é meio desagradável; porém, o diretor conhece os limites a que se deve chegar.

Talvez por causa da animação, particularmente pela intenso uso de digitação gráfica, por ser uma obra com a participação de tantos profissionais e um produto tão bem acabado – percebe-se o vultoso capital investido – acostumamos a associar os desenhos animados a seus autores empresariais: Disney, DreamWorks, Pixar e assim por diante. Mas, enquanto os efeitos especiais de “Ratatouille” demonstram uma marca registrada da Pixar, a sensibilidade que comanda a estória é marcadamente do diretor, como comentou-me em SP um conhecedor em animação.

O diretor Bird evita os usuais clichês de filmes infantis, demonstrando que uma estória simples e acessível ao grande público pode também ser inteligente e imprevisível. Na composição dos personagens, abre mão do uso de vozes de celebridades do cinema e, ao mesmo tempo, sendo tão dócil, Remy chega também a ser ácido, exigente e inseguro. Além disso, seu conflito moral – entre a família e a ambição pessoal – é conduzido com sutileza e complexidade incomuns, que os acertos e soluções dadas ao desfecho do filme soam mais muito naturais, sem nenhuma predeterminação.

E, enquanto o filme prende o espectador pela ação e os incidentes – incluem-se as perseguições, as escapadas e correrias e a ágil “coreografia” na cozinha – não há a tentativa subjugar ou oprimir o espectador pelo excesso de frenetismo. Ao contrário, o diretor integra estória e espetáculo com leveza, na dose certa, digna de um Vincente Minelli em seus melhores musicais, e molda o conto da carreira de Remy com situações e personagens interessantes.

Uma vez que nenhum restaurante parisiense deixaria um rato sobreviver em sua cozinha, Remy fecha um acordo com um desafortunado ajudante de cozinha chamado Linguini (Lou Romano), que faz as receitas de Remy, através um uma engenhosa (e hilariante) forma de controle – como usada em fantoches. A responsável por Linguini é Colette (Janeane Garofalo), uma durona sub-chefe de cozinha que, involuntariamente, torna-se a rival do roedor na disputa da atenção de Linguini. Mesmo os personagens menores – os assistentes de cozinha, os garçons, o inspetor sanitário – são marcantes.

O que está em jogo em Ratatouille não é somente a ambição de Remy, mas também a sagrado legado de Gusteau, cujo fantasma ocasionalmente aparece para ele e cujo restaurante está em franca decadência. Parte do problema se deve ao sucessor de Gusteau, Skinner (Ian Holm), que usa o nome e reputação do antigo mestre para montar uma linha de alimentos congelados.

Contra ele, Remy e o diretor Bird partem para a defesa de uma abordagem artesanal que valoriza tanto a tradição como o talento individual: receitas clássicas reeditadas com arrojo e criatividade. O grande clímax do filme, e a origem de seu título, é o preparo de um prato rústico à base de verduras – feito com força e inspiração e submetido, como aparece, a um crítico gastronômico.
Ao deparar-se com o tal ratatouille, o que o gatrônomo poderia dizer? Algumas vezes, a melhor resposta é a mais simples. Outras, “Obrigado” é o bastante.



Ratatouille (Ratatouille)
2007 – EUA - 110 min. – Colorido – DESENHO ANIMADO
Direção: BRAD BIRD. Roteiro: BRAD BIRD, baseada na estória de JAN PINKAVA, JIM CAPOBIANCO e BRAD BIRD. Fotografia/Iluminação: SHARON CALAHAN. Fotografia/Câmera: ROBERT ANDERSON. Supervisão de Animação: DYLAN BROWN e MARK WALSH. Montagem: DARREN HOLMES. Música: MICHAEL GIACCHINO. Produção: BRAD LEWIS; distribuído pela WALT DISNEY PICTURES e PIXAR ANIMATION STUDIOS.

Vozes: PATTON OSWALT (Remy), IAN HOLM (Skinner), LOU ROMANO (Linguini), BRYAN DENNEHY (Django), PETER SOHN (Emile), BRAD GARRETT (Auguste Gusteau), JANEANE GAROFALO (Colette) e PETER O´TOOLE (Anton Ego).

Trailer Original: