sexta-feira, 1 de agosto de 2008

CARAVAGGIO

“O caráter do homem está em seu rosto.”


A partir dos quadros de Michelangelo Amerighi da Caravaggio, Derek Jarman, um diretor e roteirista britânico, vislumbrou a difícil vida, cheia de honra e escândalos, do pintor renascentista que morreu em 1610 por volta dos 30 anos.O diretor, também um pintor, mostra a história numa sucessão de vidas instáveis - inicia com Caravaggio no seu leito de morte num quarto simples, tendo por companhia um serviçal mudo, e pula, geralmente de forma perplexa, de volta à infância do artista, sua carreira e, principalmente, seu relacionamento com Ranuccio e uma prostituta chamada Lena, a qual ambos amam, embora não tanto. Todas as cenas são internas – o filme foi feito em um estúdio inglês com o orçamento de US$ 475.000. A câmera de Gabriel Beristain capta o sentido da obra de Caravaggio, a iluminação ultradramática que surge do nada, transformando os tipos realistas que Caravaggio retratou em personagens com pouca sintonia com o mundo real.

Esse clima de realismo fantástico está implícito nos diálogos, que transitam do puramente coloquial ao pseudopoético – “Gotas salgadas de meus dedos deixando um rastro de lágrimas nas areias incandescentes”. Para piorar as coisas, as personagens surgem de repente na Itália renascentista e no presente, como se fossem as paginas de uma revista, em que as cenas são trocadas à medida que as músicas vão sendo adequadas. Caravaggio e Ranuccio, sobre o qual pouco se conhece a não ser que o artista na verdade matou um homem com tal nome numa luta a faca, andam de motocicleta e consertam caminhões.. Se eles vivessem nos dias de hoje, o diretor diria que eles provavelmente estariam se prostituindo.

Tudo isso produz momentos confusos; o filme é belo de ser assistido e, talvez, sua falta de conjunto é uma forma de demostrar o que aparentemente o diretor entende como sendo arroubos da imaginação de Caravaggio. Infelizmente, esse projeto pretensamente arrojado é retratado como um conto banal – talvez sensacionalista – de dois amantes num ambiente predominantemente homossexual e extremamente violento, que se dão mal com uma mulher. Em uma cena super elaborada e longa, moedas de ouro passam da boca de Caravaggio para a de Ranuccio e, na seqüência, para a de Lena, mostrando assim uma insana ligação sexual; e em outra cena, os dois homens untam-se com sangue como sinal de sua profunda e fatal paixão. Essas seduções estão mais para uma opereta sem música.

Como Caravaggio, Nigel Terry é obrigado a gastar muito de seu tempo (quando não está em seu leito de morte) encarando modelos que ele está prestes a transformar em obra de arte. “O caráter do homem está em seu rosto, ele fala”. Não há nada de errado com o rosto de Nigel Terry ou com o rosto de Sean Bean, que interpreta o rude Ranuccio, mas nenhum foi dotado de caráter por Jarman. Michael Gough está expressivo no papel de patrono de Caravaggio, Cardeal Del Monte.

Caravaggio é um experimento excessivo, mas com suficientes flashes de ingenuidade e brilho visual que vale a pena ser visto.



"Caravaggio" (Caravaggio)
1986 – INGLATERRRA - 93 min. – Colorido – DRAMA
Direção: DEREK JARMAN. Roteiro: DEREK JARMAN. Fotografia: GABRIEL BERISTAIN. Montagem: GEORGE AKERS. Música: SIMON FISHER TURNER. Produção: SARAH RADCLYFFE, distribuído pela British Film Institute.

Elenco: NIGEL TERRY (Caravaggio) SEAN BEAN (Ranuccio), GARRY COOPER (Davide), SPENCER LEIGH (Jerusaleme), TILDA SWINTON (Lena), MICHAEL GOUCH (Cardeal Del Monte), DAWN ARCHIBALD (Pipo) e ROBBIE COLTRANE(Scipione Borghese).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Edward II

7 comentários:

Miguel Andrade disse...

Ouvi falar que esse filme tem cenas muito fortes... É verdade?

Miriam disse...

Muito interessante , vou ver se consigo ver este filme.
Beijos.

Sérgio Déda disse...

Nunca ouvi falar deste filme, mas seu texto despertou minha curiosidade.. vou procurar vê-lo se chegar a encontrá-lo..

vlws

Johnny Strangelove disse...

Quem sabe ...
vamos ver quando puder achar o filme ...

abraços

contra-regra disse...

Eu vi esse filme durante o curso de literatura portuguesa I na faculdade e fiquei admirado com a coragem do diretor. Ela peca em alguns detalhes históricos, mas no geral vale a pena uma conferida.

Mídia e cultura:
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Hugo disse...

Não assisti este filme, mas a obra de Derek Jarman é polêmica.
Este filme fez algum sucesso nos festivais de arte e tem um ótimo elenco.

Abraço

Jacques disse...

Miguel, é verdade.

Miriam, assita. Embora seja um pouco lento.Beijo.

Sérgio, valeu cara. Veja lá e depois diga o que achou. Abcs.

Roberto, é verdade, concordo.

Hugo, põe polêmico nissso. Mas o filme tem lá suas qualidade artísticas.
Abcs