quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

PACTO SINISTRO

“Você me fez agir como se eu fosse um criminoso.”


O filme trata da história de um homem se torna o suspeito do estrangulamento da esposa. Hitchcock cria um provável culpado graças à genialidade do plano original do verdadeiro assassino: dois estranhos irão "trocar favores”, cada qual matando a pessoa que o outro quer ver morta. Ambos terão álibis incontestáveis para a hora do crime e não haverá conexão possível entre assassino e vítima. Trata-se de um enredo engenhoso e amoral, baseado no primeiro romance de Patricia Highsmith (1921-1995), que sempre demonstrava fascínio pelos criminosos cerebrais que agiam não emocionalmente, mas a partir de planos cuidadosos, e que em geral, escapavam impunes. Aqui o acordo de assassinato funcionaria perfeitamente, exceto por um detalhe: apenas um dos estranhos aceita o trato. Guy Haines (Farley Granger), famoso tenista, é reconhecido em um trem por Bruno Anthony (Robert Walker), cuja conversa demonstra um conhecimento detalhado da vida privada de Guy. Este quer se divorciar da esposa traidora, Miriam (Kasey Rogers), para se casar com Anne Morton (Ruth Roman), filha de um senador dos Estados Unidos. Durante um almoço na cabine de Bruno, este revela que deseja a morte do pai e sugere um "crime perfeito”, no qual ele mataria a esposa de Guy e este mataria o pai de Bruno, e nenhum dos dois seria suspeito. Bruno tem atitudes dominadoras e insinuantes, com leves sugestões homoeróticas. Guy mostra-se ofendido com as referências a sua vida particular, mas mantém a conversa, que termina de forma ambígua, com Bruno tentando convencer Guy a aceitar o plano. Bruno mata a esposa de Guy e depois exige que este cumpra sua parte do acordo. O enredo é de muito simples, e irresistíve. Guy tem um motivo para assassinar a esposa: foi visto brigando com ela em público no dia do crime e chegou a dizer à noiva que gostaria de estrangulá-la.

A escalação de Granger como Guy e de Walker como Bruno é crucial. Alega-se que Hitchcock queria William Holden para o papel de Guy ("Ele e mais forte”', contou para François Truffaut), mas Holden teria sido um equívoco - vigoroso demais, se irritaria demais com Bruno, apesar de Holden ter permitido que uma atriz envelhecida o manipulasse em “Crepúsculo dos Deuses” (50). Granger é mais frágil e evasivo, mais convincente quando tenta escapar do papo indutivo de Bruno, em vez de rejeitá-lo. Walker interpreta um Bruno faceiro e sedutor. O encontro no trem, provavelmente planejado por Bruno, parece mais armado que casual. É essa idéia de dois personagens imperfeitos - um mau e um fraco, com uma tensão sexual implícita - que torna o filme instigante e razoavelmente plausível, ajudando a explicar como Bruno poderia chegar tão perto da concretização de seu plano.

Highsmith era lésbica e seus romances evidenciam misteriosa profundidade psicológica; sua biografia escrita em 2003 por Andrew Wilson diz que a autora freqüentemente se apaixonava por mulheres heterossexuais e que suas histórias muitas vezes utilizam nas entrelinhas uma implícita atração homossexual, como no caso do livro “O Talentoso Ripley”. Embora em 1951 não se ousasse falar abertamente em homossexualismo, Hitchcock tinha total consciência da orientação de Bruno e na verdade editou duas versões distintas do filme, uma norte-americana e outra inglesa – cortando a intensidade da "sedução" na cópia norte-americana. Vale notar que Hitchcock bem escalou Granger em “Festim Diabólico” (1948), baseado no caso Leopold-Loeb, outra história sobre pacto de assassinato com subtexto homossexual.

Contudo, “Pacto Sinistro” não é um estudo psicológico, mas um thriller excelente, com pequenas esquisitices aqui e ali. Como boa parte dos filmes de Hitchcock, este dá a sensação de que situações pessoais são decididas de forma particular. Hitchcock tinha medo de ser erroneamente acusado, devido a um episódio traumático de sua infância, quando o pai o enviou à delegacia de policia com um bilhete, pedindo ao sargento que o trancasse ali até ser chamado de volta.

Neste contexto, é interessante notar que Hitchcock escalou a própria filha Patricia como a jovem e franca Barbara Morton, irmã caçula de Anne, noiva de Guy. Patricia Hitchcock e Kasey Rogers parecem-se um pouco e usam óculos muito semelhantes; Bruno está brincando de demonstrar técnicas de estrangulamento em uma festa quando vê Bárbara. Lembra-se do crime e desmaia. Em “Pacto Sinistro”, a irmã caçula tem as falas mais assustadoras, principalmente durante um encontro inicial entre Guy e a família do senador - ela passa o tempo todo deixando escapar tudo o que os outros temem dizer.

Hitchcock era, acima de tudo, um mestre dos efeitos visuais e, em “Pacto Sinistro”, há várias seqüências famosas. A mais conhecida é aquela em que Guy examina a multidão durante um jogo de tênis e observa todas as cabeças girando de um lado para outro acompanhando o jogo - exceto uma, a de Bruno, que olha fixamente para o próprio Guy - a mesma técnica foi utilizada por Hitchcock em “Correspondente Estrangeiro”, em que todos os moinhos de vento rodam na mesma direção, exceto um.

Há também a famosa cena no carrossel, em que Guy e Bruno lutam enquanto um funcionário do parque rasteja por baixo do brinquedo em movimento para alcançar os controles (esta tomada ficou famosa por ter sido realizada sem qualquer tipo de trucagem e o dublê poderia ter morrido; Hitchcock afirmou que jamais se arriscaria novamente).

O diretor, ao usar o espaço da tela, sublinhava a tensão em detalhes que muitas vezes publico não percebia. Usava sempre a convenção de que o lado esquerdo da tela servia aos personagens maus e/ou mais fracos, ao passo que o direito aos personagens bons ou temporariamente dominantes. Isso fica nítido na cena em que Guy entra em casa, em Georgetown, e Bruno sussurra do outro lado da rua para chamá-lo. Bruno está por trás de um portão de ferro; as barras lançam sombras em seu rosto e Guy esta à direita, do lado de fora do portão. Quando o carro de polícia pára em frente à casa de Guy, este rapidamente se desloca para trás do portão, junto a Bruno; nesse momento, ambos estão por trás das barras e Guy diz: “Você me fez agir como se eu fosse um criminoso”.

O desempenho de Robert Walker se beneficia de uma premência sutil e tensa, talvez refletindo eventos de sua vida privada: ele teve um esgotamento nervoso pouco após as filmagens, foi recolhido a uma clínica para tratar-se e morreu de uma superdose acidental de tranqüilizantes. Li uma vez que alguns close-ups remanescentes deste filme foram utilizados para concluir o último filme de Walker, “Não desonres o teu sangue” (52). Hitchcock afirmou, na entrevista que deu origem ao livro de François Truffaut, que não gostou muito dos dois atores no filme, porém o Bruno, de Walker, tem sido considerado um dos melhores vilões de Hitchcock e este concordou com Truffaut que o público simpatizou mais com o vilão do que com o playboy de Granger. Não restam dúvidas que este filme está entre os melhores de Hitchcock e seu atrativo provavelmente consiste na articulação de uma trama engenhosa com um horror instigante.

Em primeiro lugar, essa combinação se originou em Highsmith, cujos romances vem sendo injustamente rotulados de ficção policial, quando na verdade ela escreve predominantemente sobre o comportamento de criminosos. Há uma observação curiosa de um usuário do Internet Movie Database (IMDB), alegando ter localizado Highsmith em uma breve aparição neste filme. Ela aparece por trás de Miriam na cena na loja de discos, escrevendo num caderno. Ninguém registrou aparição alguma de Highsmith na literatura do cinema (toda a atenção se volta para a marca registrada das aparições breves de Hitchcock), mas é possível constatar isso no Capitulo 6 do DVD, aos 12 minutos e 16 segundos. E pensar que a presença de Highsmith talvez estivesse assombrando o filme todos esses anos...Para não deixar de assistir. Talvez, um dos 5 melhores filmes de Hitch.



Pacto Sinistro (Strangers on a Train)
1951 – EUA - 101 min. – Preto e Branco – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: RAYMOND CHANDLER E CZENZI ORMOND, baseado na adaptação de WHITFIELD COOK do romance de PATRICIA HIGHSMITH. Fotografia: ROBERT BURKS. Montagem: WILLIAM H. ZIEGLER. Música: DIMITRI TIOMKIN. Produção: ALFRED HITCHCOCK, distribuído pela WRNER BROS.

Elenco: FARLEY GRANGER (Guy Haines), ROBERT WALKER (Bruno Anthony), RUTH ROMAN (Anne Morton), LEO G. CARROLL (Sen. Morton), PATRICIA HITCHCOCK (Barbara Morton), KASEY ROGERS (Miriam Joyce Haines), MARION LORNE (Sra. Anthony), JONATHAN HALE (Sr. Anthony), HOWARD ST. JOHN (Capitão Turley), JOHN BROWN (Prof. Collins), NORMA VARDEN (Sra. Cunningham) e ROBERT GIST (Leslie Hennessy).



Cenas do filme:


Assista também:




Frenesi

7 comentários:

Miguel Andrade disse...

Jacques, o DVD traz estas duas versões, mas são mudanças tão sutis.

Lamentável Robert Walken ter ido embora tão cedo. Seu Bruno é um dos melhores vilões já feitos no cinema.

Sérgio Déda disse...

Qualquer filme de Hitchcock q eu ainda n tenha assistido é uma obrigação e esse é um deles, preciso ver...

vlws

Kau disse...

Jacques, concordo com vc. Acho este filme ESPETACULAR e está entre os três melhores de Alfred.

Abraços!

Cah disse...

Oi Jacques, qto tempo!
Decidi voltar!
Então, Hitchcock é Hitchcock e nem tem o q falar, neh?! hehehe
Por coincidência eu escrevi sobre Crépusculo, e tbm senti um "quê" a menos no filme, principalmento no Edward de Pattinson, robótico demais.
Mas é isso aí, dificil ver filmes adaptados ganharem dos livros.
Até +

Miriam disse...

Frenesi é um dos meus preferidos, depois de Rebeca.
Beijos

Wally disse...

É um dos Hitchcocks que mais tenho vontade de ver. Irei à procura.

Ciao!

Jacques disse...

Pois é Miguel, ele foi mais um bom ator que se foi precocemente.

Sergio, esse é imperdível.

Kau, é isso aí.

Cah, que bacana que tenha voltado. Pois é Crepúsculo deve ficar na onda dos filmes seqüências ou virar seriado. Vamos aguardar.

Miriam, esses que vc citou são muito bons. Mas, Frenesi não coloco entre os 5 melhores de Hitch não.

Wally, vá lá. Não perca tempo.