sexta-feira, 13 de junho de 2008

UM CORPO QUE CAI

“Eu te amo, Madeleine.”


John Feguson, Scottie (James Stewart), é um antigo detetive de polícia que se demite após um companheiro ter morrido em uma perseguição conjunta pelos telhados de São Francisco. Ele sente-se culpado por não ter ajudado seu colega, em função de seu medo de altura. Por causa disso, Scottie busca uma nova ocupação e, justamente quando está pensando no que fazer com seu tempo livre, recebe uma chamada de um antigo companheiro de estudo (Tom Helmore), do qual não se recorda. Este pede a ele que siga sua esposa, contando-lhe uma engenhosa história sobre transtornos mentais e espíritos do passado. A principio, Scottie não aceita. Porém, quando a vê pela primeira vez, não resiste: Madeleine (Kim Novak), loira e misteriosa, é tão inacessível e linda, e esta envolta numa aura tão fascinante, que faz Scottie sentir-se fortemente atraído por ela.

Desta forma, segue, então, Madeleine por todos os lugares possíveis de São Francisco – salva sua vida, quando ela, querendo suicidar-se, joga-se na baía de São Francisco; entretanto, em outra ocasião, quando ela sobe na torre de uma igreja, Scottie não consegue ajudá-la, por culpa de seu medo de altura. Ele não se dá conta que caiu numa armadilha. Scottie sofre de vertigem. É um solitário, um sonhador, o que fica evidente em contraste com Midge (Barbara Bel Geddes) – uma amizade platônica. Tudo isso o transforma numa vítima perfeita.

Ao estrear, “Um Corpo que Cai” chocou o publico, tendo sido incompreendido inclusive pela critica da época. As imagens dos créditos e uma seqüência de sonhos (ambas criadas pelo desenhista Saul Bass), com cores irreais e elementos gráficos, constituem-se em pequenos experimentos cinematográficos e possivelmente produziram um efeito inquietante na década de 50.

Finalmente, nos anos 70, analisou-se até que ponto a estrutura da historia e a composição das imagens eram tão refinadas. A conclusão foi que “Um Corpo que Cai” ficou incluído no Olimpo das grandes obras da historia do cinema. Alfred Hitchcock criou outros grandes filmes, é verdade, mas esta é uma obra mestra, que ainda incomoda e transtorna. Estão ali todos os ingredientes das fórmulas do cineasta: o suspense – sua forma típica de criar tensão -, o tema do dublê, os sentimentos de culpa do personagem principal, o humor sarcástico e o amor obsessivo de um homem por uma mulher. Além disso, a trilha sonora, composta por Bernard Herrmann, é um dos melhores exemplos de como a inserção musical em um filme ocorre de forma tão precisa e perfeita.

Também, neste sentido, “Um Corpo que Cai” é uma obra prima de Hitchcock. Em todos os seus filmes, as mulheres loiras têm um papel importante (de Ingrid Bergman a Grace Kelly); em todos seus longas-metragens, ele trata o ícone da loira misteriosa, inacessível e frígida. Em “Um Corpo que Cai”, o diretor converte a criação da loira misteriosa no tema real, através de dublê: Madeleine – a loira sedutora que serve de isca e, na segunda metade, surge a ruiva Judy, uma mulher que, excetuando o cabelo, é idêntica à primeira, a qual Scottie quer transformar em Madeleine. Inquietante e magistral.




"Um Corpo Que Cai" (Vertigo)
1958 – EUA - 128 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: ALEC COPPEL e SAMUEL A. TAYLOR, baseado na obra “D´entre les morts”, de PIERRE BOILEAU e THOMAS NARCEJAC. Fotografia: ROBERT BURKS. Montagem: GEORGE TOMASINI. Música: BERNARD HERRMANN. Produção: ALFRED HITCHCOCK, para ALFRED J. HITCHCOCK PRODUCTIONS, INC. e PARAMOUNT PICTURES.

Elenco: JAMES STEWART (John Ferguson Scottie) KIM NOVAK (Madeleine Elster/Judy Barton), TOM HELMORE (Gavin Elster), BARBARA BEL GEDDES (Midge Wood), KONSTANTIN SHAYNE (Pop Liebl), HENRY JONES (Membro do Tribunal), RAYMOND BAILEY (Médico) e ELLEN CORBY (encarregada do hotel).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Interlúdio

4 comentários:

Miguel Andrade disse...

Jacques, é de uma técnica admirável mesmo! O melhor estudo já produzido no cinema sobre a manipulação de imagens. Hermético e absurdamente claro!

o cara da locadora disse...

Esse filme é fantástico, e como sempre surpreendente... Infelizmente do Hitchcock eu só vi ele e o Psicose, mas em breve mudarei essa falha...

Abraços...

Tito disse...

Alfred Hitchcock é um dos meus diretores preferidos. Tenho alguns fimes dele na minha coleção. Vertigo é excelente!

Jacques disse...

Miguel, talvez o melhor Hitchcock. Uma aula de cinema em cada cena.

Cara da Locadora, há outras obras que merecem ser vistas de Hitchcock. Veja-as e não se arrependerá. Abcs.

Tito, concordo.