segunda-feira, 28 de abril de 2008

FLORES PARTIDAS

“Você é o Don Juan.”


Com “Flores Partidas", Bill Murray reafirma seu status de ator cômico mais blasé da atualidade. Seu tom de voz raramente se altera, quase murmura, enquanto eu rosto permanece impassível, quase estático, com seus trejeitos e piscadas sendo capturadas pela câmera estática e discreta de Jim Jarmusch. Esse estágio de letargia parece apropriado, uma vez que, no início do filme, o personagem de Bill Murray (Don Johnston) parece ter chegado a um ponto de estagnação em sua vida. Primeiro, ele aparece sentado no sofá de sua casa vivamente decorada, que parece contrastar com sua vida apática. Sua última namorada, Sherry (Julie Delpy), está prestes a deixá-lo – um fato que Don brinda com uma resignação beirando a indiferença. Ele está rodeado de coisas interessantes – uma super TV, mobília polida, um Mercedes – e muito dinheiro, tendo sido uma espécie de empresário do ramo da computação, antes de aposentar-se. Um filme (ou um crítico de cinema) tentando “intelectualizar” o tema, poderia dar a entender que Don está em estado de depressão. Seja qual for o caso, toda vez que ele se deita em seu sofá e dorme, nós podemos imaginá-lo neutro, despreocupado, indo a nenhum lugar em particular.

Mas "Flores Partidas" é um road movie, que remete seu herói a uma jornada através de uma paisagem indefinida adentro de seu próprio passado. Quando Sherry diz adeus, uma carta chega, datilografada em tinta vermelha num cartão rosado, informando a Don que 20 anos atrás ele tornou-se pai. A mensagem anônima, aparentemente escrita por algum dos antigos casos amorosos de Don, alerta-o de que o garoto pode estar à sua procura.

O impulso de Don é não fazer nada; porém, seu vizinho, Winston (Jeffrey Wright), tem outras idéias. Winston é amigo de Don e, também, seu oposto. Ao contrário do vizinho solteirão e preguiçoso, ele é um pai de família trabalhor, casado, pai de cinco filhos, trabalhando em três empregos. É, também, uma espécie de detetive amador, convencido de que com as pistas certas e métodos investigativos, Don pode descobrir a mãe de seu suposto filho e as peças perdidas de seu passado.

Assim, Don parte em visita às quatro mulheres que conheceu, interpretadas por Sharon Stone, Francês Conroy, Jessica Lange e Tilda Swinton. O que ele encontra são possíveis pistas – cesto de basquete, sugerindo a presença de um filho; diversos objetos cor-de-rosa, incluindo um celular incrustrado de bugingangas (sugerindo que ao invés de um filho, ele tenha uma filha); uma máquina de datilografar jogada numa grama mal cuidada – bem como alguns quebra-cabeças adicionais. A recepção que tem nas visitas – que ele faz, chegando com um carro alugado e um buquê de flores – varia. Em uma casa, ele é recebido de forma calorosa, graças aos velhos tempos; em outras ocasiões, depara-se com estranheza, suspeita e mesmo com um soco na cara.

Don encontra o que está procurando? Não se pode dizer, porque não se pode estragar o filme. A crença de Winston (de que a verdade sobre as outras pessoas ou sobre alguém pode ser conhecida) – é uma idéia que o filme segue, mas não endossa. Assiste-se a esse filme esperando-se produto claro e atraente, mas os melhores filmes, aqueles que se inserem dentro de nossas próprias experiências e formas de ver a vida, frustam as expectativas.

"Flores Partidas" certamente é um belo filme, tão sedutor como a música do artista de jazz etíope Mulatu Astatke, que acompanha Don em sua jornada. O enquadramento de Jarmusch é singular, fino em detalhes e repleto de um rigoroso visual, com reminiscências de cartoons clássicos e comedias do cinema mudo.Ele também tem uma provocativa e literal astúcia. Nunca segue a emoção óbvia, sempre preferindo alusões às fáceis exposições e buscando altenâncias sutis de humor ao invés de confrontos dramáticos.

As emoções que ele descortina não são fáceis de nomear.Permeando os limites do enquadramento - e através das feições de Bill Murray - estão a saudade, o desapontamento, o engano e um grato senso de admiração. Quando ele sai em busca dos elos perdidos de sua vida romântica passada, Don descobre arrependimento, mas também ele parece retornar à origem de seu fascínio pelas mulheres. Cada uma das atrizes traz uma indelével, excêntrica individualidade à tela. A gente sente que poderia ficar mais tempo com elas ou voltar no tempo para vê-las com um Don mais jovem.

O título do filme pode implicar na derrota do romance, mas é também uma defesa do romantismo - o seu próprio e o de Don - como uma abordagem à vida que, enquanto pode ser cheia de erros, também pode ser cheia de acertos. Don pode ser muitas coisas - uma alma perdida, uma falha, um homem à deriva em sua propria vida - mas ele é também, e fundamentalmente, um amante, e "Flores Partidas" participa de sua nobreza, de seu espírito de cavalheirismo. Como um caso de amor de curta duração, seu prazer é acompanhado por um pitada de tristeza. Deixa você querendo mais, o que é um elogio.



Flores Partidas (Broken Flowers)
2005 – EUA - 105 min. – Colorido – COMÉDIA
Direção: JIM JARMUSCH. Roteiro: JIM JARMUSCH, inspirado numa idéia de BILL RADEN e SARA DRIVER. Fotografia: FREDERICK ELMES. Montagem: JAY RABINOWITZ. Música: MULATU ASTATKE. Produção: JOHN KILIK e STACEY SMITH, para a FOCUS FEATURES.


Elenco: BILL MURRAY (Don Johnston), JEFFREY WRIGHT (Winston), SHARON STONE (Laura), FRANCES CONROY (Dora), JESSICA LANGE (Carmen), TILDA SWINTON (Penny) e JULIE DELPY (Sherry).

Trailer Original:



Assista também:




Daunbailó

6 comentários:

Kamila disse...

Já encontrei esse filme mil vezes, num preço ótimo, na Americanas, mas sempre passo a compra. É uma obra que eu quero muito assistir, mesmo conhecendo muito pouco do cinema do Jim Jarmusch.

Ibertson Medeiros disse...

Também já vi esse filme por um preço camarada nas Americanas, sem contar nas locadoras, mas nunca cheguei a vê-lo.
Deve ser interessante.

Pedro Henrique disse...

Jacques, adoro esse filme. Vi um dia sem pretensão alguma e fui indo...
Gostei mesmo.

Está linkada também!!!
Abraço!!!

Robson Saldanha disse...

Bill Murray nunca foi dos meus prediletos, mas não tenho nada contra, nem também a favor. Ainda não vi este filme.

Valeu por me linkar, também está linkada!

Abraço!

Rodrigo Fernandes disse...

Oi, Jacques...
Ainda não vi esse filme,mas sempre tive vontade de assisti-lo, apesar de ter um pe atras, não sei porque...
talvez por não masi confiar nos trablahos do Bill Murray, sei lá...mas pelo jeito ele adna tá em boa forma na sua veia comica.. acho ele ótimo em, "Encontros e Desencontros" e aida o lembro em "caça-fantasmas" marcou minha infancia, hehehe
abraços!!!

Hugo disse...

Sou fã do cinema de Jim Jarmusch, mas reconheço que não é para todos os gostos.
Na maioria de seus filmes os protagonistas são mais ouvintes e observadores da vida e falam apenas o suficiente, assim como Bill Murray aqui, é também o assassino de Forest Whitaker em "Ghost Dog" e o índio de Johnny Depp em "Dead Man".
Assisti "Daunibaló" há pouco tempo, mas acabei gostando menos do que imaginava, fiquei com a impressão que Jarmusch ainda estava desenvolvendo seu estilo.

Abraço