quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O PODEROSO CHEFÃO

“Farei uma oferta que você não poderá recusar.”


As frases ruins não se pronunciam nunca. Neste filme nada é falado de Máfia ou da Casa Nostra, muito embora seja uma história épica contada no cerne do crime organizado. Tudo se define a partir de outro termo – A Família. Segundo o próprio Mario Puzo, autor da obra, o enredo não tratava de um romance sobre o crime, mas sim de uma família (um claro eufemismo). Logo no início, Coppola não havia se entusiasmado com o projeto, achando tratar-se de um thriller. Entretanto, reconsiderou sua decisão após ter descoberto justamente este aspecto familiar que o fascinou. Não é à toa que o filme comece e termine com uma celebração tipicamente familiar – uma boda e um batizado. O matrimônio entre Connie Corleone (Talia Shire) e Carlo Rizzi (Gianni Russo) é festejado por todos. No jardim dos Corleone toca uma orquestra e a multidão de convidados amontoa-se no baile. Come-se, brinca-se, a garotada corre e, vez ou outra, alguém levanta o copo para brindar a felicidade da noiva. Enquanto isso, do lado externo da casa, agentes do FBI anotam as placas dos carros.

O pai da noiva, Vito Corleone (Marlon Brando), é um dos cinco “Don” da comunidade italiana de Nova Iorque e, por esta razão, a lista de convidados é ilustre. Segundo a tradição, não se pode rechaçar nenhum pedido no dia da festa de sua filha. Rodeado de filhos e homens de confiança, ele está acomodado, com as persianas baixadas - sua pose aristocrática, iluminada por uma luz âmbar, é a imagem de dignidade e do poder. Com atitude paternalista, concede audiência aos que recorrem a ele em busca de favores: escuta os pedidos e aceita o respeito que lhe dedicam. Estas cenas transmitem calor, como todas as demais em que surge Marlon Brando na pele de Vito Corleone.

Michael, o mais jovem dos Corleone, sempre buscou vôo próprio e sua independência o levou a alistar-se na Marinha para lutar na Segunda Grande Guerra Mundial, de onde retornou como capitão e herói. Tendo durante muito tempo rejeitado os negócios da família, aparece para o casamento de Connie com sua namorada não italiana, Kay (Diane Keaton). Poucos meses mais tarde, no Natal, Don Vito sobrevive a um atentado por haver negado a uma família rival no tráfico de drogas ajuda, por conta de sua influência e conexões com a classe política.

Após salvar seu pai de um segundo atentado, Michael induz seu irmão mais velho, o "cabeça quente" Sonny (James Caan), bem como os conselheiros da família Tom Hagen (Robert Duvall) e Sal Tessio (Abe Vigoda) que ele (Michael) deveria ser o vingador dos responsáveis pelo atentado ao pai. Dada sua condição de não implicado, considera-se livre de suspeita e é convocado para uma mesa de negociações, oportunidade na qual ele aproveita para matar o traficante Virgil Sollozzo (Al Lettieri) e também o capitão McCluskey (Sterling Hayden), um policial corrupto. Por detrás desses fatos, foge para a Sicília sem comunicar-se com sua prometida, Kay (Diane Keaton). Nesta fase, o matiz do filme fica menos intenso - Michael, que aspirava levar uma vida respeitável e por isso havia se distanciado de seus parentes, converte-se num verdadeiro sanguinário. Assim, as imagens já se tornam mais frias, azuladas.

Na terra de seus antepassados, Michael experimenta um processo de endurecimento. Apaixona-se e, fiel à tradição, pede a mão de sua garota ao pai dela. Apesar de tudo, os braços longos de seus inimigos chegam até a Itália e sua jovem esposa, Appollonia, morre em um atentado com carro-bomba, dirigido inicialmente a ele. Em Nova Iorque, a guerra do submundo faz de vítima seu irmão Sonny. Vito Corleone, ainda convalescendo, embora relutante, renuncia à vingança para colocar um ponto final à chacina. Michael retorna aos EUA e casa-se com com Kay. O mais jovem dos Corleone, com sua frieza de caráter, sabe que as antigas feridas seguem abertas e planeja um golpe final. Enquanto está na igreja para o batismo de seu sobrinho recém-nascido, os inimigos da “Família” são eliminados, incluindo Carlo, o marido de Connie, culpado pela emboscada para Sonny.

Connie revolta-se com isso. Kay entra no mérito do ocorrido e Michael nega sua responsabilidade no assunto. Kay percebe como os homens reunidos no escritório de seu marido a excluem - antes que a porta se feche, chega a ver Michael aceitar os cumprimentos e o respeito de seus homens de confiança e subordinados, que o saúdam como novo “Don”. Ele, desta forma, consolida o poder de sua família e inicia seu processo de decadência moral.

Além da brilhante encenação do poder e suas formas de manifestação através de Vito Corleone e de seu filho que o sucede, ficamos marcados pelas cenas de violência: a cabeça decepada de um cavalo na cama do produtor cinematográfico Jack Woltz; as balas que matam Sonny; o disparo nos óculos de Moe Greene, o sócio do cassino; finalmente, a devastação bíblica do fulminante final. Essas seqüências são breves em comparação à duração das demais cenas em família.

Os negócios dos Corleone, incluídos os assassinatos e as coações, sempre ocorrem longe desse círculo. A rigor, esses acontecimentos estão relacionados a viagens e deslocamentos de automóveis que os distanciam do núcleo familiar. Fugir disto, implica em risco - a tentativa de assassinato de Vito Corleone materializa-se quando o Don, espontaneamente, decide esquivar-se de comprar drogas, e o impulsivo Sonny morre porque abandona a fortaleza da família.

Por outro lado, Michael um homem moderno no início do filme, não teme em libertar-se dos vínculos familiares. Porém, ainda que tenha prazer em ser independente, acaba sendo vítima da tradição de família, uma marionete atada a seu destino. Este simbolismo mostrado de forma tão perfeita na obra é retratada igualmente no filme.

O elenco está todo espetacular. Muito já foi dito de Marlon Brando, mas de fato ele mostra o porquê é um dos maiores astros que as telas já mostrou. Coppola, como poucos diretores ainda vivos do cinema, conduz um elenco afinadíssimo e, junto a um roteiro muito bem adaptado, faz deste filme um clássico absoluto. Visto e revisto, de tempos em tempos, parece cada vez melhor. A fotografia de Gordon Willis é primorosa e a música de Nino Rota (embora já tocada “ad nauseum”) marcou época e tem uma legião de fãs. Grandiloqüente e magistral.



O Poderoso Chefão (The Godfather)
1972 – EUA - 175 min. – Colorido – DRAMA
Direção: FRANCIS FORD COPPOLA. Roteiro: FRANCIS FORD COPPOLA E MARIO PUZO, baseado na obra “THE GODFATHER”. Fotografia: GORDON WILLIS. Montagem: MARC LAUB, BARBARA MARKS, WILLIAM REYNOLDS, MURRAY SOLOMON E PETER ZINNER. Música: NINO ROTA. Produção: ALBERT S. RUDY, para a PARAMOUNT PICTURES.

Elenco: MARLON BRANDO (Don Vito Corleone) AL PACINO (Michael Corleone), DIANE KEATON (Kay Adams), ROBERT DUVALL (Tom Hagen), JAMES CAAN (Santino Sonny Corleone), JOHN CAZALE (Frederico Fredo Corleone), RICHARD S. CASTELLANO (Peter Clemenza), STERLING HAYDEN (Capitão McCluskey), TALIA SHIRE (Constanzia Connie Corleone-Rizzi), JOHN MARLEY (Jack Woltz), RICHARD CONTE (Don Emilio Barzini), AL LETTIERI (Virgil Sollozzo), AL MARTINO (Johnny Fontane), GIANNI RUSSO (Carlo Rizzi) e SIMONETTA STEFANELLI (Appollonia Vitelli-Corleone).

Prêmios:
Oscar de Melhor Filme (Albert S. Rudy), Melhor Ator (Marlon Brando) e Melhor Roteiro Adaptado (Francis Ford Coppola e Mario Puzo)/1973.



Cenas do filme:


Assista também:




O Poderoso Chefão – Parte 2

8 comentários:

Violinista do Cinema disse...

A única coisa que posso dizer de O Poderoso Chefão é que é o filme mais completo da história...é tecnicamente impecável, tem um roteiro fabuloso, uma trilha divina, atuações magníficas e uma direção que não poderia ser mais perfeita!
bjoooooo

Cecilia Barroso disse...

Faço minhas as palavras da Vivi!
Esse filme é inesquecível! Maravilhoso!

beijocas

BRENNO BEZERRA disse...

Gostei tanto que comprei o dvd; Ana Maria Bahiana falou respondeu maravilhosamente porque as cenas são no escuro: O poderoso chefão não é um filme para ver é um filme para sentir!!!!

Parabéns pelo blog!!!

Abraços!!!!!!!

Kau disse...

Jacques, vou falar sobre os três aqui mesmo senão me perco no raciocínio ok?

A primeira parte é uma obra-prima absoluta. O terceiro melho filme já feito, a meu ver (atrás de ...E o Vento Levou e O Mágico de Oz). As segundas e terceiras partes seguem mais frias e fortes que a primeira e quase chegam a ser obras de arte. E quase mesmo, pois as suas notas são iguais (9,5, enquanto a primeira leva 10,0 óbvio). Os três roteiros, na verdade, seguem uma ordem cronológica e são tão bem amarrados que chegam a me assustar!! A direção de Coppola é outra coisa de louco, né? Mas quero chegar no elenco: um dos melhores trabalhos deste quesito que já vi. Pacino e Brando em duas das melhores atuações masculinas da história...

Abraços!

Sérgio Déda disse...

O Poderoso Chefão, Laranja Mecânica e Os Bons Companheiros... os 3 melhores filmes da minha vida...

Sérgio Déda disse...

Ah... comecei a fazer algo q jah deveria ter feito muito tempo atrás... estou lendo o livro... e é simplesmente sublime!

Miriam disse...

Disse isto no blog do Pedro: é um filme de todo cinéfilo ter em sua coleção.Claro o original.
Beijos.

Jacques disse...

Violinista, não sei se é o mais perfeito, mas é um dos grandes filmes. E tem ficado melhor cada vez que é revisto.Bjos.

Cecília, conocordo!. Bjos

Brenno, compre a trilogia. E aquela que foi lançada por último. Totalmente remasterizada.

Kau, na verdade apesar de ser uma trilogia, o filmes podem ser vistos separadamente,uma vez que sendo o plot central A Família, cada uma carrega em si um novo enredo. Abcs.

Sergio, 3 boas escolhas. Abcs

Miriam, não somente cinefilos, mas apreciadores de cinema emqualquer nível. Bjos.