terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A MISSÃO

“Deus é Amor.”


Nos idos do século XVII, os jesuítas estabelecidos entre a Argentina e Paraguai depararam-se numa terrível batalha entre o Papa e dois dos mais poderosos países europeus daquela época – Portugal e Espanha. Por aproximadamente 200 anos, sob a proteção do Rei de Espanha, os jesuítas catequizaram índios e estabeleceram as missões nas quais os índios convertidos não somente praticavam a nova religião, mas também aprenderam a cuidar do cultivo de alimentos, artesanato, manufatura de instrumentos musicais e outras atividades comercialmente possíveis. As missões não eram bem vistas aos novos interesses dos portugueses e espanhóis, principalmente porque protegiam os índios contra os colonizadores portugueses que os escravizavam. Naquela época, a escravidão havia sido oficialmente sancionada por Portugal e oficiosamente tolerada na Espanha. Quando a Espanha e Portugal concordaram em redimensionar as fronteiras entre suas terras na América do Sul, as missões ficaram sob o jugo português e os índios que se recusavam a emigrarem eram vendidos como escravos.

Antes da aprovação do tratado, o Papa enviou um encarregado para avaliar o belo trabalho desenvolvido nas missões das colônias – o resultado foi de aprovação. Na verdade, se o tratado fosse desaprovado, tanto Espanha como Portugal dariam cabo dos jesuítas em seu próprio lar. Essa é o pano de fundo da historia de “A Missão”, dirigido por Roland Joffe, escrito por Robert Bolt e filmado inteiramente na América do Sul, em locações entre a Colômbia e Argentina.

Acostumado a grandes temas, como em “Lawrence da Arábia” e Dr. Jivago, em “A Missão” tem-se a sensação de que o roteiro não fica à altura do tema. O esplendor visual do filme em certos momentos não é dramatizado como deveria e a locução em off poderia ter sido mais adequada se fosse remanejada para as falas de atores vigorosos como os protagonistas Robert De Niro e Jeremy Irons.

O foco de “A Missão” é a história da crise de consciência enfrentada pelos dois religiosos quando, finalmente, o enviado do Papa decide contra os jesuítas. Devem lançar mão das armas contra a coroa para protegerem os índios que confiaram neles e para os quais trouxeram o amor cristão?

“A Missão” retrata nitidamente os paralelismos que podem ser traçados entre as atitudes da igreja no século XVIII e nos dias de hoje, quando muitos aspectos relacionados à postura, à conduta e até princípios da instituição são colocados em dúvida. Nesse sentido, o filme foi muito feliz e deve ser visto pelos que empolgam com esse tipo de discussão.

Padre Gabriel (Jeremy Irons), o chefe da missão em San Carlos, viveu na crença de que Deus é Amor e que, em ao contrário, realizar um ato de violência é renegar esse sentimento. Mendoza (Robert De Niro), um mercenário e mercador de escravos que se junta aos jesuítas tardiamente, vive em conflito interno por ter assassinato seu irmão por causa de uma mulher; em função disso, tenta redimir-se, defendendo os índios.

Embora bem interpretado, Jeremy Irons e Robert De Niro não empolgam – seus personagens não possuem muita profundidade dramática. Se de um lado, o primeiro apresenta-se com ar santificado e sotaque pesadamente britânico, Robert De Niro, que havia se saído bem como um padre em “Confissões Verdadeiras” (81), aqui destoa. Seu sotaque nova iorquino poderia ter sido melhor disfarçado.

O personagem mais interessante e complexo é Altamirano, o enviado papal, a única figura do filme a compreender totalmente as implicações morais das escolhas a serem feitas. Altamirano é interpretado pelo ator irlandês Ray McAnally. Apesar disso, o diretor o retrata como uma figura meio apática e estática, ressaltando sua opulência através de closes em suas mãos e no anel religioso que usa.

Aidan Quinn faz uma breve aparição no inicio do filme, como o irmão de De Niro. Daniel Berrigan, um jesuíta e dramaturgo, bem como um ativista antibélico nos anos 70tem participação como membro das missões. Também serviu como consultor técnico do filme.

Os índios, que são de fato os atores principais, são condescendentes, risonhos, confiantes e indiferentes aos aspectos do Éden – inocentes, com belas vozes, demonstrando suas cantorias cheios de ritmo. Com inúmeras dificuldades de execução, por conta de chuvas e problemas de adaptação nas matas em que foi rodado, o filme teve seu grande esforço reconhecido quando venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Maravilhosamente fotografado em tons pastéis esverdeados, Chris Menges, ganhador do Oscar de Melhor Fotografia, premia-nos com a melhor cena do filme. Logo no início um missionário crucificado é atirado ao rio e cai nas cataratas do Iguaçu, já prenunciando qual o destino das missões. Tudo isso ao som da trilha sonora do mestre Ennio Morricone.



A Missão (The Mission)
1986 – INGLATERRA - 126 min. – Colorido – DRAMA
Direção: ROLAND JOFFE. Roteiro: ROBERT BOLT. Fotografia: CHRIS MENGES. Montagem: JIM CLARK. Música: ENNIO MORRICONE. Produção: FERNANDO GHIA E DAVID PUTTNAM, distribuído pela WARNER BROS.

Elenco: ROBERT DE NIRO(Rodrigo Mendoza), JEREMY IRONS (Gabriel), RAY MCNANALLY (Altamirano), AIDAN QUINN (Felipe Mendoza), CHERIE LUNGHI (Carlotta), RONALD PICKUP (Hontar), CHUCK LOW (Cabeza), LIAM NEESON (Fielding), DANIEL BERRIGAN (Sebastian) e TONY LAWN (Padre provincial).

Prêmios:
Oscar de Melhor Fotografia (Chris Menges)/1987.
Palma de Ouro do Festival de Cannes/1986.



Cenas do filme:


Assista também:




Os Gritos do Silêncio

9 comentários:

O Cara da Locadora disse...

Acho esse um filme grandioso e muito bom, é interessante ver filmes com os "nossos" índios e não com os índios lá de cima, rs...

Hugo disse...

Gostei muito deste filme e de "Os Gritos do Silêncio", são temas até que semelhantes, pessoas em um local diferente, com uma cultura própria e jogados no meio de uma guerra política.

São os grande filmes da carreira de Joffé.

Abraço

Robson Saldanha disse...

Eu gostei bastante desse filme. A pessoa acha que ele não tem muito o que entregar mas tem um enredo bem interessante.

Wally disse...

A trilha deste filme é uma das coisas mais belas que já escutei. Mas nunca a conferi com o filme. Pretendo fazer isso em breve.

Ciao!

Sérgio Déda disse...

É um filme interessante e com ótimas atuações...

Kau disse...

Sou fascinado com filmes que falam sobre Igreja "antiga". Meu professor passou, quando ainda estava no Ensino Médio, este filme. Mas faltei bem no dia...

Bom fds! Abraços.

Miguel Andrade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Miguel Andrade disse...

Jacques, tenho uma preguiça daquelas com este filme. Lembro do auê da mídia quando foi lançado. Coisas deste tipo sempre são suficientes pra eu fugir!

Elis Campos disse...

Este filme é lindíssimo. Também gostei muito de "Os gritos do silêncio", e como alguém por aqui já disse, a trilha sonora de E. Morricone é soberba; uma das coisas mais lindas que eu já ouvi. Destaque pra "Gabriel`s Oboe", que é sensacional.