domingo, 5 de outubro de 2008

O ENCOURAÇADO POTEMKIN

“Camaradas, chegou a hora de agir!”


Há filmes que, para conseguirem em seu país a atenção que merecem, primeiro têm que dar “uma volta” e comemorar o êxito no exterior. Isso aconteceu com “O Gabinete do Doutor Caligari”, de R. Wiene, que foi muito bem recebido em Paris e somente a partir daquele momento foi reconhecido em Berlim como uma obra que abria novas perspectivas; o mesmo ocorreu com Fassbinder, cuja fama em Paris, Londres e Nova Iorque precedeu seu reconhecimento na Alemanha. Contudo, o paradigma máximo dessa situação foi este filme de Eisenstein, que causou sensação na Alemanha nos anos 20, seguindo triunfalmente por outros países da Europa e, finalmente, pela história do cinema. O filme continua sendo bastante cultuado, aparece na lista dos melhores de todos os tempos e inspirou gerações inteiras de cineastas e estudantes de cinema.

Resgatando um pouco o histórico deste belo filme, ninguém podia imaginar quando a cúpula da ainda embrionária União Soviética confiou a Eisenstein (então com 27 anos) a tarefa de realizar um filme “em memória das revoltas pré-revolucionárias do ano de 1905” (segundo especificado no projeto). A princípio, a história da sublevação no encouraçado deveria ser um episodio; contudo, o tema foi se alongando e, ao final, houve a necessidade de aumentá-lo.

O filme estrutura-se em cinco atos claramente separados: as condições subumanas no interior da embarcação, o motim dos marinheiros contra os oficiais, a confraternização do povo com a tripulação amotinada, a matança dos cossacos russos nas escadarias de Odessa e, finalmente, a salvação a cargo dos barcos da frota do mar Negro, que auxiliam os revoltosos.

O que me faz achar esse filme fascinante não foi tanto a história, mas sim a forma como foi contada. Eisensten foi o primeiro cineasta que radicalizou o recurso estilístico da montagem e desenvolveu a união dinâmica e rítmica das cenas, através de cortes que se intensificam em pontos chaves, em constante trocas de imagens.

Claro que, comparativamente a hoje, com o advento de vídeos musicais, tecnologia digital e estética publicitária, “O Encouraçado Potemkin” não parece tão inovador; porém, considerando-se a época em que foi realizado, causou uma revolução no mundo do cinema. Tal reviravolta fez os círculos mais conservadores acharem que a “inovação” pudesse resultar em revoluções reais. Por isso o filme foi proibido, por exemplo, em diversas regiões da Alemanha, algumas das quais somente puderam conhecer a película após a Segunda Grande Guerra Mundial.

Em 1927, Walter Benjamin defendeu o filme, dizendo que o mesmo estava “ideologicamente construído, calculado detalhadamente como o arco de uma ponte”, o que significava dizer que o engenheiro Eisenstein havia criado uma obra de arte. De fato a estrutura ainda está lá e o filme apesar de antigo não envelhece jamais. Nunca uma cena de filme foi tão copiada como aquela do massacre nas escadarias de Odessa, como carrinho de bebê caindo abaixo – seja em filmes como “Os Intocáveis” (1986), de Brian De Palma ou em Kebab Connection (2004), de Anno Saul. O filme sobrevive, desta forma, tanto de suas projeções, como de suas inúmeras citações e transformações ao longo de mais de oitenta anos.

De fato é um filme muito forte e impressionante. Minha cópia ainda é antiga em VHS. Para se ter idéia, chequei e achei que em 2004 o filme foi apresentado com uma nova trilha sonora dos Pet Shop Boys ao ar livre na Trafalgar Square e, com uma versão restaurada, passou por diversos festivais em 2005. Espero que todas essas mudanças e o tour pelo mundo tenham sido tão somente para remeter sempre ao filme em seu original. Tecnicamente estupendo. Veja ao menos uma vez na vida.



"O Encouraçado Potemkin" (Bronenosets Potiomkin)
1925 – URSS - 75 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: SERGEI EISENSTEIN. Roteiro: NINA AGADSHANOVA-SCHUTKI E SERGEI EISENSTEIN. Fotografia: EDOUARD TISSÉ. Montagem: SERGEI EISENSTEIN. Produção: GOSKINO.

Elenco: ALEKSANDR ANTONOV (marinheiro Vakulinchuk) VLADIMIR BARSKY (comandante Golikov), GREGORI ALEXANDROV (tenente Giljarovski), ALEXANDER LJOVSCHIN (oficial) e MIJAIL CORNOROV (marinheiro Matiushenko).

Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



Alexander Nevsky

6 comentários:

Cecilia Barroso disse...

Realmente é um filme que não envelhece nunca. As cenas são muito marcantes e a história, em si, é sensacional.

Um clássico e que deve ser visto por todos que gostam de cinema.

Beijocas

Kau. disse...

Jacques, esse filme é maravilhoso. Assisti pela primeira vez numa aula de história e dali pra cá sempre que posso, reassisto. Tudo é muito bem feito e há cenas tão fortes que me deixam sem ar!

Abs.

Fábio L. Rockenbach disse...

Vi duas vezes na vida. Senti mais prazer assistindo a Alexander Nevsky, mas a importância de Potemkim vai além do simples degustar da obra. É assistir a um pedaço da história sendo feito. E o discurso é mais simples, mas muito mais poderoso do que Outubro, outra obra fabulosa de Eisenstein. E se não bastasse, nunca imaginei que alguém pudesse fazer tanto usando uma escadaria como cenário - isso até DePalma surgir com a homenagem em 87.

Jacques disse...

Cecilia,o filme de fato é muito marcante e tem sido referência sempre justamente por sua técnica. Bjs.

Kau, é de fato um paradigma que não cansamos de reverenciar. Abcs

Fabio, ainda prefiro o Encouraçado por ser mais mítico. Quanto a De Palma, foi de fato uma bela homenagem (mais do que uma simples cópia).

contra-regra disse...

Monstruoso! Vibrante! Visceral! Eu assisti na sala do Centro Cultural por conta de uma mostra sobre o impressionismo. Simplesmente inacreditável do ponto de vista imagético e uma narrativa forte, que incomoda a olho nu (o tipo de produção para se ter em sua videoteca particular).

Mídia? Cultura? Acesse:
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Victor Afonso disse...

Um dos mais perfeitos filmes de sempre. Tem sequências (e não é só a da escadaria de Odessa) que marcaram a linguagem do cinema.