sábado, 23 de fevereiro de 2008

DE VOLTA PARA O FUTURO

"Que diabo é John F. Kennedy?."

Os relógios avançam em uma tela escura. A câmera mostra lentamente dezenas de despertadores, relógios automáticos e e parede; a partir das primeiras cenas, dezuzimos que "De Volta para o Futuro" se ocupa do fenômeno do tempo. Os eletrodomésticos, acionados por um temporizador, movevem-se como loucos. Torradas queimadas torram uma a uma, um braço de robô joga sem parar comida para cachorros numa tigela transbordada de cheia que leva a inscrição "Einstein", uma cafeteira assoviando derramando um bocado de café, etc. A segunda conclusão a que chegamos é que a ciência e tecnologia são suscetíveis a mudanças e necessitam de controle humano. Parece que tudo se reduz à escolha do momento adequado para se fazer as coisas. É uma mostra elegante e sucinta, sem teorias mirabolantes; quem esperava deste filme um discurso pedante e chato sobre o tempo e a tecnologia ficaram decepcionados, pois "De Volta para o Futuro" é um dos filmes mais bem sucedidos e divertidos dos anos oitenta. Não se trata somente de um retrato dos EUA e do pós-guerra, mas também de uma experiência sobre o fenômeno do tempo e seus avanços tecnológicos.

Hollywood tem a tendência de fazer uma auto-análise com roteiros ágeis e muito bem construídos, e este filme também funciona como um relógio. Em 1985, Marty McFly (Michael J. Fox) viaja três décadas de volta no tempo, através de uma máquina do tempo (na verdade um carro fora-de-série), construída pelo cientista maluco Doc Brown (Christopher Lloyd)- uma mistura de Einstein e professor Pardal. Ali, tem que resolver dois problemas, antes que possa "voltar ao futuro". Tem que encontrar uma fonte de energia capaz de proporcionar a potência necessária para viajar no tempo, dado que não se dispunha de plutônio em 1955, bem como fazer com que seus pais namorem, pois, caso isso não ocorra, ele não nascerá. O segredo deste filme é que o elenco e os cenários, onde ocorre a ação - a ambientação é quase tão real como o mostrado em "O Show de Truman" (1998), de Peter Weir - são absolutamente idênticos em 1955 e 1985, o que tornam mais evidentes as diferenças entre as duas épocas.

Segundo a célebre máxima de Karl Marx, a história se repete; primeiro, como tragédia e, depois, como farsa. Em "De Volta para o Futuro", Hollywood catapulta o público diretamente para a segunda. A família que Marty deixa para trás quando viaja a 1955 é formada por um conjunto de patetas fracassados. No final do filme, quando Marty volta ao presente, depois dar dicas a seu pai, sua família fora transformada em yuppies por excelência - o exemplo perfeito do sonho americano dos anos oitenta.

Segundo a moral conservadora do filme, deveríamos buscar os erros cometidos no passado e tentar corrigi-los a tempo. Neste caso, "a tempo" significa antes do Movimento dos Direitos Civis, antes da Guerra do Vietnã, Woodstock e Watergate, de forma que o presente da artificial Hill Valley assemelhe-se com o sonho de algum dos assessores da campanha eleitoral do então presidente Ronald Reagan.

Visto no contexto da Era Reagan, "De Volta para o Futuro" é um filme muito importante - obviamente que a crítica à época identificara seu título com as intenções secretas de Reagan - de acordo com sua visão retrógrada do progresso. O mesmo Reagan aparece indiretamente no filme duas vezes - A Rainha de Montana (1954), com Barbara Stanwyck e Ronald Reagan, é projetado no cinema em 1955. Engraçado que, trinta anos são projetados filmes pornográficos no mesmo cinema.

E quando, em 1955, o jovem Doc Brown pergunta ao viajante do tempo quem será o presidente dos EUA em 1985, para tirar a prova, a resposta natural de Marty, "Reagan", não contribui em nada para aumentar sua credibilidade. Não obstante, esta e outras especulações servem simplesmente como um atrativo a mais e pertencem a outro nível de interpretação, porque, diante disso tudo, "De Volta para o Futuro" é uma comédia magnífica. Retrata duas gerações, valendo-se de alusões divertidas e inteligentes da cultura pop, e consegue evocar duas épocas da história americana posterior à Segunda Guerra Mundial - com muita ironia e sarcasmo.




De Volta para o Futuro (Back to the Future)
1985 - EUA - 111 min. – Colorido - Comédia/Ficção Científica
Direção: ROBERT ZEMECKIS. Roteiro: ROBERT ZEMECKIS e BOB GALE. Fotografia: DEAN CUNDEY. Montagem: ARTHUR SCHMIDT e HARRY KERAMIDAS. Música: ALAN SILVESTRI (tema de Huey Lewis e Chris Hayes). Produção: NEIL CANTON e BOB GALE para AMBLIN ENTERTAINMENT e UNIVERSAL FILM USA.

Prêmios: Oscar de Melhor Efeito Sonoro (Charles L. Campbell e Robert Rutledge)/1985.


Elenco: MICHAEL J. FOX (Marty McFly), CHRISTOPHER LLOYD (Dr. Emmett Brown), LEA THOMPSON (Lorraine Baines-McFly), CRISPIN GLOVER (George McFly), THOMAS F. WILSON (Biff Tannen), CLAUDIA WELLS (Jennifer Parker), MARC MCCLURE (Dave McFly), WENDIE JO SPERBER (Linda McFly), GEORGE DICENZO (Sam Baines) e JAMES TOLKAN (Sr. Strickland).


Trailer Original:

Um comentário:

Wendell Borges disse...

Eis um grande clássico do cinema, daqueles filmes que ficam marcados para sempre na nossa memória. Parabéns pelo site, vou acrescentá-lo à minha lista de favoritos.