sábado, 23 de agosto de 2008

MONSTROS

“Caso você se meta com um, mete-se com todos.”


“Monstros” retrata a historia de um grupo de homens e mulheres com fisicamente deficientes, que ganham a vida tristemente exibindo-se para divertimento do público em um circo mambembe. Quem consegue assistir ao filme até o final jamais se esquecerá da cena final, que desperta uma surpresa terrível. A narrativa mostra o amor que o anão Hans (Harry Earles) nutre pela trapezista Cleópatra (Olga Baclanova), para desgosto da anã, Frieda (Daisy Earles), que é apaixonada por ele. Quando Frieda se depara com sua rival, “a rainha do ar”, comete um erro fatal: revela a Cleópatra (tão bela quanto má), que Hans é o herdeiro de uma enorme fortuna. Junto com seu amante, Hércules (Henry Victor), a trapezista traça um plano diabólico – casar-se com Hans para poder envenená-lo depois e, assim, apoderar-se de sua fortuna. Entretanto, suas atitudes despertam as suspeitas dos demais “monstros” do circo, que decidem unir-se para derrotar os “normais”. O objetivo do diretor Tod Browning não é no primeiro momento denunciar o uso de pessoas com deficiências físicas em eventos publicos. As gêmeas siamesas, a hermafrodita e as “pinheads” (tipos com as cabeças extremamente pequenas) servem, sobretudo, para desconcertar e entreter o público – como a cena em que um “monstro” sem braços e pernas demonstra sua habilidade acendendo um cigarro com boca, usando um palito de fósforo.

Apesar da previsibilidade da trama, Browning mantém a tensão lançando mão de um hábil recurso: no inicio do filme, o apresentador anuncia a “rainha do ar” como a monstruosidade viva mais horrível de todos os tempos. Não obstante, o espectador fica entretido até o final. Ao mesmo tempo, o filme converte-se explicitamente em uma espécie de desfile de curiosidades.

“Monstros” sugere mais interpretações do que aparenta à primeira vista. Para começar, a visão dessas pessoas que Browing obriga o espectador a contemplar durante mais de uma hora fica suportável graças a alguns elementos humorísticos. É o caso, por exemplo, da festa de compromisso de um dos empregados do circo, que gagueja exageradamente e não consegue fazer-se entender com sua futura cunhada, uma das irmãs siamesas (Daisy e Violet Hilton) – circunstância que provoca um sem número de situações divertidas.

Quando a hermafrodita lança um sorriso vacilante para o palhaço Phroso (Wallace Ford), Hercules diz a ele: “Creio que ela gosta de você..mas ele não”. Também, quando Hans sai do carro de sua namorada, alguém comenta que provavelmente ela está de dieta. Ainda com Phroso, um dos poucos que têm uma relação respeitosa com seus colegas deficientes, Browning confessa que é perfeitamente comum que os supostos anormais chamarem a atenção da gente (algo não necessariamente negativo) e, portanto, é possível uma relação de respeito com os “monstros”.

Isso contrasta com a malícia com que são tratados os demais membros do circo, a origem da qual é o reconhecimento de suas próprias deficiências. Deste modo, Cleópatra se enfurece quando a estranha comitiva nupcial a qualifica de “uma de nós”, pois nesse momento ela se dá conta de que, embora não sofra de nenhuma capacidade física, em seu intimo habita um ser monstruoso.

Neste ambiente hostil, os párias constituem um grupo compacto que rege o humanismo e a solidariedade, que contrasta positivamente com a presunção e a inveja do mundo dos “normais”. Suas próprias deficiências os impedem de sentir-se superiores ao resto, o que os converte em melhores pessoas. Esta é a moral da historia de um filme verdadeiramente fora do normal.



"Monstros" (Freaks)
1932 – EUA - 64 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: TED BROWNING. Roteiro: WILLIS GOLDBECK, LEON GORDON, EDGAR ALLAN WOOLF e AL BOASBERG, baseado na história Spurs de TOD ROBBINS. Fotografia: MERRITT B. GERSTAD. Montagem: BASIL WRANGELL. Produção: TOD BROWNING, para a MGM.

Elenco: OLGA BACLANOVA (Cleopatra) WALLACE FORD(Phroso), LEILA HYAMS (Venus), HARRY EARLES (Hans), DAISY EARLES (Frieda), ROSCOE ATES (Roscoe), HENRY VICTOR (Hercules), DAISY HILTON (gêmea siamesa), VIOLET HILTON (gêmea siamesa), FRANCES O´CONNOR (garota sem braços), JOSEPHINE JOSEPH (hermafrodita) e ROSE DIONE (Madame Tetrallini).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Dracula

7 comentários:

Hugo disse...

Sei que Todd Brownning era um especialista em filmes de terror na época, mesmo já tendo assistido muita coisa, ainda não tive oportunidade ver sua obra.

Abraço

Johnny Strangelove disse...

Preciso assistir ... tó em falta com filmes classicos, mas também estou extremamente chateado com o gênero do horror porém tem que dar credito as grandes obras do passado e que provam quanto mais o tempo passa, mais continua atual ...


abraços

Miguel Andrade disse...

Jacques, fiquei pensando que se agora me causou tanto impacto, imagina nos 30! Um filme espetacular e mesmo com mais de 70 anos nunca superado!

Jacques disse...

Hugo, essa obra foi muito polêmica á época em que foi produzido. Ainda hoje em dia causa estranheza. Esquisito e poderoso. Não perca.

Miguel, pensei a mesma coisa quando o assisti. Apesar de forte nas imagens, o diretor foi muito generoso com os personagens "anormais" e foi cruel (mas justo) com os "normais". Filme simples, mas difícil de esquecer.

Jacques disse...

Johnny, assista a esse vilme e faça as pazes novamente com os filmes de terror.

Miriam disse...

Já assisti a muitos filmes antigos e acho poucos que não vi e este é um deles. Fiquei com muita vontade, difícil é conseguir...
Beijos

wender. disse...

Legal o teu trabalho neste blog, estou pesquisando alguns gostos em comum e acabei por aqui. Então te deixo o convite pra conferir meu blog .Sou envolvido em cinema também, faço parte de um coletivo e se tiver interesse de saber mais aparece lá.ehehe.
Abração

Wender Zanon
www.discoduplo.blogspot.com