quinta-feira, 30 de outubro de 2008

JANELA INDISCRETA

“Inteligência. Nada causou tanto problema para a humanidade quanto ela.”


Jeff está grudado a uma cadeira de rodas, tendo uma das pernas engessada. Para matar o tempo, passa a observar o que acontece na vizinhaça com a ajuda de uma teleobjetiva. Essa falta de dinamismo obriga-nos a acompanhar esse personagem voyeur – ele, prostrado diante da janela e nós, em frente à tela de TV (ou de cinema). Sua única companhia é Stella (a sempre ótima Thelma Ritter), a enfermeira que aparece para tratá-lo e o recrimina por sua atitude – “As pessoas deviam sair de casa e fazer alguma visita, para variar” - e Lisa (Grace Kelly), uma linda e rica jovem desenhista de moda que quer levá-lo ao altar. Em frente à janela, Jeff assiste a uma série de situações - a Sra. Lonelyheart, que prepara jantares para pretendentes imaginários; a sra. Torso, que recebe pessoas para uma festa; um casal que tem um cachorro que aparece morto e o Sr. Thorwald (Raymond Burr), que tem sua esposa prostrada na cama e não pára de criticá-lo. Num belo dia, a sra. Thorwald some e Jeff suspeita que tenha sido morta.

Todas essas situações acontecem num pátio de frente ao apartamento em que Jeff reside. E isso pode ser uma reflexão de sua própria situação – de alguém que resiste a vínculos. Não é nada despropositado. Todas as situações tratam de motivos amorosos, ou seja, de histórias em torno da solidão ou da vida a dois, da convivência e da indiferença que refletem os temores do personagem.

Se percebermos bem, há algo que une a Sra. Thorwald a Jeff – ela, entrevada na cama; ele, numa cadeira de rodas. Novamente, Hitchcock invoca uma loira, que é mais um enigma ou ameaça do que companheira sentimental. Enquanto Lisa insiste em um amor desesperançado por Jeff, ele a mantém distante demonstrando que o estilo de vida dos dois é incompatível.

É o mesmo caso de seu personagem Scotty, em Um Corpo Que Cai” (1958), que se apaixona por uma mulher que espionou sem nunca ter-lhe dirigido a palavra. Em ambos os casos, ele deseja o que pode espionar à distância, e não o que pode ter nas mãos.

James Stewart está bem no papel, embora ache que esteja um pouco maduro. Kelly está bela como sempre e perfeita no papel. É fria e elegante e realmente encarna a mulher não satisfeita. – ela encomenda refeição, bebe champagne, mimando Jeff de todas as formas possíveis. Na tomada mais bela do filme, Lisa inclina-se para beijá-lo e a câmera acaba sendo seduzida por ela, sendo que o mesmo não ocorre com Jeff. A câmera parece pedir ao público que Jeff deixe de ficar obcecado com o que observa e passe a prestar mais atenção no que deveria desde o começo – em Lisa.

Há também cenas de puro suspense, em que toda a impotência de Jeff é mostrada no momento em que observa Lisa em perigo ao vê-la entrar no apartamento do suposto assassino da esposa de Thornwald. O perigo vai num crescendo que todos (Jeff e nós) ficamos atônitos, observando tudo aquilo sem poder de reação. E essa sensação, nunca ou raramente, ocorre nos filmes de suspense atuais.

Li certa vez que Hitchcock definiu a diferença entre surpresa e suspense. Segundo ele, se alguém sabe que existe uma bomba sob a mesa, que explode repentinamente, isso é surpresa; se alguém conhece a existência da bomba, mas não quando vai explodir, isso é suspense. A maioria dos filmes, ditos de suspense, trazem-nos surpresas - a sensação de breve frio na barriga e tensão. “Janela Indiscreta” nos dá a sensação de uma viagem que nunca vamos esquecer - um suspense com muitos quilates e em grande estilo.




"Janela Indiscreta" (Rear Window)
1954 – EUA - 112 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: JOHN MICHAEL HAYES, baseado na obra It Had to be Murder, de CORNELL WOOLRICH. Fotografia: ROBERT BURKS. Montagem: GEORGE TOMASINI. Música: FRANZ WAXMAN. Produção: ALFRED HITCHCOCK, para PATRON INC. e PARAMOUNT PICTURES.

Elenco:
JAMES STEWART (L.B. Jeffries) GRACE KELLY (Lisa Carol Fremont), WENDELL COREY (Tenente Tom Doyle), THELMA RITTER (Stella), RAYMOND BURR (Lars Thornwald), JUDITH EVELYN (Sra. Lonelyheart), ROSS BAGDASARIAN (Compositor), GEORGINE DARCY (Sra. Torso), IRENE WINSTONS (Sra. Thornwald), SARAH BERNER (Mulher da escada de incêndio) e FRANK CADY (Homem da escada de incêndio).


Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



Psicose

5 comentários:

Violinista do Cinema disse...

ADORO janela indiscreta...James Stewart em grande forma...

bjokas,
vivi

www.cinefilando.blogspot.com

Pedro Henrique disse...

O clímax é genial. Suspense de primeira. Mas, do Hitch, meu favorito é "Rope". Abraço!

Kau Oliveira disse...

Jacques, pense em alguém que é fissurado pelos filmes do Hitchcock. Este sou eu...

Janela Indiscreta não é meu preferido do gênio, mas mesmo assim é notavelmente ótimo. Além do clímax, várias outras cenas são espetaculares...

Abraços.

Red Dust disse...

Um óptimo filme do mestre. Com todos os ingredientes necessários de suspense. Pragmatismo absoluto na filmagem.

9/10.

Abraço.

Cecilia Barroso disse...

Esse filme é inesquecível!
Uma grande obra do mestre do suspense!

Beijocas