segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

LAURA

“Pobre homem. Sinto por você.”


Revi “Laura”, de Otto Preminger, outro dia e sempre que o assisto lembro que havia esquecido do assassino. Três ou quatro outros personagens poderiam ter agido da mesma forma. O cinema noir e conhecido pelas tramas complicadas e pelas reviravoltas arbitrárias; porém, mesmo em um gênero que traz filmaços como “Relíquia Macabra” (1941), este filme merece atenção. Há um detetive que não freqüenta a delegacia; um suspeito que é convidado a acompanhar de perto o interrogatório de outros suspeitos; uma heroína que na maior parte do filme está morta; um homem que tem um ciúme doentio de uma mulher, embora em nenhum momento ele pareça de fato ter atração por ela; um protagonista romântico que é capial do interior norte-americano, transportado para a alta sociedade de Manhattan; e uma arma do crime que é devolvida a seu esconderijo pelo policial que irá buscá-la em outro momento. A única cena de nudismo envolve o sujeito ciumento e o guarda.“Laura” continua encantando. A trilha musical de David Raksin contribui: a música imprime um ar sombrio e nostálgico. O núcleo do filme é sustentado pelo desempenho de Clifton Webb como Waldo Lydecker e pelo de Vincent Price, no papel de Shelby Carpenter (o noivo de Laura), sempre mordiscando em volta como um cão faminto. Os dois atores, junto com Judith Anderson como Ann, a neurótica tia de Laura, criaram personagens desprovidos de realidade exceto suas próprias, o que é bom para os três.

Por outro lado, o herói e a heroína são irreais. Gene Tierney, a Laura, linda, é extremamente fotogênica, mas não parece envolvida emocionalmente com o papel. Dana Andrews, que interpreta o detetive McPherson, tem um desempenho correto, fuma um cigarro após o outro e tem um falar monótono. Como atores, Tierney e Andrews limitam-se basicamente a servir de testemunhas oculares das cenas roubadas por Webb e Price.

Foi o primeiro papel principal de Clifton Webb e seu primeiro desempenho no cinema desde 1930. Ele era um ator de teatro que se recusara a se submeter ao teste de tela exigido pelo estúdio; sua presença foi recomendada por Otto Preminger a Zanuck. Webb tinha 55 anos quando desempenhou o papel, e Tierney, 24. Semelhante diferença de idade não foi problema para Bogart e Bacall, mas entre Webb e Tierney, convenhamos, parece não haver a menor química. Ele interpreta um crítico e colunista e na primeira vez em que aparece é datilografando, mergulhado em uma banheira - isso depois de Laura ter sido morta a tiros, quando o detetive chega para interrogá-lo.

Em flashbacks, o espectador acompanha o progresso do relacionamento entre os dois. Ele a censura no salão de jantar do Algonquin e depois pede desculpas, torna-se seu amigo e passa a lhe comandar a vida; escolhe as roupas que ela deve usar, modifica-lhe o penteado, apresenta-a a pessoas influentes, promove-a em sua coluna. Os dois freqüentam as noitadas da cidade, menos terça e sextas-feiras, quando Waldo cozinha para ela em casa.

Então, outros homens entram em cena e tornam a sair, à medida que Waldo os ataca em sua coluna. O grandalhão e tolo Shelby apresenta-se como uma ameaça. Considerando o triangulo amoroso Waldo, Shelby e Laura, ocorre-me que o único meio de torná-lo psicologicamente válido seria transformar Laura em rapaz. O filme consiste basicamente de gente rica e bem-vestida, vivendo em apartamentos luxuosos, conversando com um policial.

A paixão é distribuída desigualmente. Shelby e Laura nunca parecem muito calorosos um com o outro. Waldo é possessivo em relação à Laura, mas nunca a toca. Ann Treadwell (Anderson), uma dama da sociedade, deseja Shelby, mas não lhe revela isso ou ele não percebe. E o detetive McPherson desenvolve uma atração pela falecida. Tudo com muito subtexto e cheio de comportamentos dúbios, que enseja várias interpretações.

Há uma cena em que ele entra no apartamento de Laura à noite, vasculha as cartas, toca nos vestidos, aspira os perfumes, serve-se de um drinque e senta-se sob o enorme retrato de Laura, colocado sobre a lareira. Parece um encontro com um fantasma. A investigação de McPherson e suas revelações finais são tratadas sem os cuidados usuais nos filmes de crimes da década de 1940. O detetive induz sempre as pessoas a crer que serão acusadas e depois recua. Lydecker pede para acompanhar o detetive enquanto este entrevista os suspeitos. Surpreendentemente, McPherson permite. Isto e útil do ponto de vista do enredo, pois de outro modo McPherson ficaria a maior parte do tempo sozinho.

De algum modo, o atrativo do filme não é diminuído por todos esses absurdos de improbabilidades. Talvez seja até aumentado. Sem querer, algumas falas se tomaram engraçadas. Inicialmente, Otto Preminger era somente produtor do filme. Zanuck contratou Rouben Mamoulian para a direção. Os primeiros dias de filmagem foram desastrosos e Preminger assumiu o controle - refilmou muitas cenas, trocou os cenários e lutou pelo enredo. Embora a história da arma em um antigo relógio seja um tanto forçada, o filme inteiro é consistente: planejado, artificial, maneiroso, e ainda assim consegue um equilíbrio elevado e, com certeza, o elenco tem sua parcela maior de importância. Ótimo.



Laura (Laura)
1944 – EUA - 88 min. – Preto e Branco – POLICIAL
Direção: OTTO PREMINGER. Roteiro: JAY DRATLER, SAMUEL HOFFENSTEIN E ELIZABETH REINHARDT, baseado em romance de VERA CASPARY. Fotografia: JOSEPH LASHELLE. Montagem: LOUIS R. LOEFFLER. Música: DAVID RAKSIN. Produção: OTTO PREMINGER, distribuído pela TWENTIETH CENTURY FOX.

Elenco: GENE TIERNEY( Laura Hunt), DANA ANDREWS (Detetive Mark McPherson), CLIFTON WEBB (Waldo Lydecker), VINCENT PRICE (Shelby Carpenter) e JUDITH ANDERSON (Sra. Ann Treadwell).

Prêmios:
Oscar de Melhor Fotografia em Preto e Branco (Joseph LaShelle)/1945.




Cenas do filme:


Assista também:




Carmen Jones

6 comentários:

Miriam disse...

Deve ser um filme muito bom. Ainda não o vi e adoro filmes antigos.
Beijos.

- cleber ! disse...

Não tive a chance de ver, mais irei procurar ...

Lembrando que, seguindo uma das regras do "Olha que Blog Maneiro", tenho que avisar sobre o selo que coloquei no blog para você repassar.

Wally disse...

Mais uma na lista. Pelos comentários, este parece ser extra excelente. =D

Ciao!

Kau Oliveira disse...

Cara, que vergonha! De Otto Preminger eu só vi Anatomia de Um Crime e O Rio das Almas Perdidas! Ambos excelentes, mas preciso ver mais filmes deste ótimo diretor.

Abs!

Cecilia Barroso disse...

Oi, Jacques!

Esse eu vi há muito tempo mesmo. Lembro que gostei, apesar de ter ficado um pouco incomodada com Gene Tierney, que, claro é linda demais!

Ler me deu vontade de rever. Acho que vale a pena!

Beijocas

Sérgio Déda disse...

Mais uma boa dica, e aliás já queria assistir este filme há algum tempo.

Abraços!