segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O SOL POR TESTEMUNHA

“Um pobre diabo também pode ser inteligente”


Porque a vida boa fica sempre para os outros? Como se faz para ter o luxo das pessoas ricas e bonitas? No mesmo ano em que “A Doce Vida” de Fellini conquistava as telas, outro filme abordava o tema de forma mais obscura. Marcello Mastroianni, o alter ego de Fellini, perdia sua identidade entre estrelas e prazeres sexuais. Tom Ripley não a tem. Apodera-se de uma, praticando um assassinato. O cenário é o mesmo. Roma, Via Veneto: os norte-americanos Philippe Greenleaf (Maurice Ronet) e Tom Ripley (Alain Delon) desfrutam da vida à la italiana, na boêmia. O dinheiro não tem importância - o velho pai de Philippe paga tudo. De fato, o milionário empresário havia contratado Tom para que convencesse seu filho a regressar à América. Mas, Tom, não pensa em fazê-lo. Ao contrárrio, embolsa as mesadas de Philippe, toma conta de sua vida despreocupada e rouba o amor de sua noiva, Marge (Marie Laforet). Quando o senhor Greenleaf percebe ter fracassado em sua missão, Tom torna arquiteta seu verdadeiro plano: desfaz-se do amigo e assume sua personalidade. Ripley, então, converte-se em Philippe Greenleaf, cosmopolita e filho de um milionário.

O assassinato a sangre frio é o prelúdio do verdadeiro objetivo e vocação de Tom: a farsa, sempre a ponto de ser desmascarada. Imita a voz de Philippe, falsifica sua assinatura e escreve cartas na máquina de datilografar do morto. Entre as medidas de precaução que toma, estão as trocas constantes de hotel, os encontros evitados para não haver confrontos e um segundo assassinato. Freddy Miles (Billy Kearns), um amigo de Philippe, descobre seu jogo duplo. Eliminar o cadáver coloca-o em maus lençóis. Entretanto, nada parece incriminar Tom Ripley – para todos, o nome do assassino é o de Philippe Greenleaf.

O relaxado estilo de vida mediterrâneo, o jogo de luzes do sol sobre os corpos bronzeados e a música de Nino Rota, o compositor favorito de Fellini, marcam a atmosfera enganosa deste suspense psicológico classe A. Por trás de tudo, ocultam-se os abismos da alma humana. Quem é Tom Ripley? O que o leva a identificar-se com Philippe? Narcisismo? Cobiça? Pura imoralidade? Seja o que for, Marge fica impotente diante dos dois homens. Muito mais significativa é uma cena logo ao início em que Tom posa diante do espelho do guarda roupa de Philippe e este o surpreende.

Comparar este filme com a versão norte americana “O Talentoso Ripley” (1999) não requer nenhum exercício intelectual. Em ambas versões, deparamo-nos com um Ripley totalmente distinto, outro Philippe e outra Marge. Com Matt Damon, Anthony Minghella mostrou um Ripley completamente novo, movido, sobretudo, por seus medos e instintos.

Por outro lado, Alain Delon dá vida ao personagem com uma distinta elegância. Suporta as humilhações de Philippe sabendo-se superior, em silêncio. Os assassinatos sucedem quem sabe por acaso. Não obstante, as mentirosas manobras posteriores são previamente planejadas nos mínimos detalhes.

Patrícia Highsmith esboçou Tom Ripley como um farsante sedutor que, para a alegria dos leitores, não conseguia deter suas ações. René Clément, um dos diretores mais destacados do cinema francês do pós-guerra mudou esse enfoque. Apesar do sabor amargo do final, ele carrega uma dose máxima de suspense que caracteriza todo o filme. Em 1996, Martin Scorsese restaurou o filme. Sorte nossa.



"O Sol Por Testemunha" (Plein Soleil)
1960 – FRANÇA/ITÁLIA - 116 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: RENÉ CLÉMENT. Roteiro: RENÉ CLÉMENT e PAUL GÉGAUFF, baseado na novela "O Talentoso Ripley" de PATRICIA HIGHSMITH. Fotografia: HENRI DECAË. Montagem: FRANÇOISE JAVET. Música: NINO ROTA. Produção: RAYMOND HAKIM e ROBERT HAKIM para PARIS FILM, PARITALIA e TITANUS.

Elenco: ALAIN DELON (Tom Ripley) MAURICE RONET (Philippe Greenleaf), MARIE LAFORÊT (Marge Duval), ERNO CRISA (Riccordi), ELVIRE POPESCO (Senhora Popova), FRANK LATIMORE (O´Brien), BILLY KEARNS (Freddy Milles), LILY ROMANELLI (Ama de Llaves), AVE NINCHI (Senhora Gianna) e NERIO BERNARDI (Chefe da Agência).

Trailer Original:



Do mesmo diretor:



Jaula Amorosa

6 comentários:

Sérgio Déda disse...

Nunca tinha ouvido falar, mas parece ser interessantíssimo...

Johnny Strangelove disse...

Porra, eu tinha o livro ... sendo que eu fiz uma mudança e perdi a obra ... mas no livro veio aqui como o nome do filme, O Sol por Testemunha ...

Preciso ler o livro e ver o filme ... fuck!
Abraços amigo

Miriam disse...

Assisti este filme faz um bom tempo. É um dos bons filmes que não se esquece.
Tem um MEME para você lá no meu blog , aparece.
Beijos.

Jacques disse...

Sérgio, é a melhor versão de Ripley.Veja e esqueça a de Minghella.Abcs

Strangelove, poxa, veja se encontra e assista.Abcs

Miriam, realmente é um bom filme. Vou passar lá. Beijos

Cecilia Barroso disse...

Eu nunca consegui assistir a esse filme e hoje em dia é ainda pior, pois não consigo encontra-lo.
Tenho muita curiosidade de ver!

Beijocas

Jacques disse...

Assista sim Cecília, vale a pena. Na verdade vc o encontra na Versátil. Bjos.