domingo, 28 de setembro de 2008

MAMÃE É DE MORTE

“Você acha que vou precisar de um advogado?.”


Caso você vá construir sua carreira no mau gosto, cedo ou tarde você terá que lidar com o ícone mais sagrado de todos – a maternidade. John Waters é o cara para fazer isso, porque aparentemente ele somente filma o que venera. Em “Mamãe é de Morte” ele vai a fundo à idéia de mostrar que toda mãe americana é capaz de levar qualquer mulher à loucura. O que poderia ser mais simpático? Kathleen Turner entrega-se a um dos melhores papéis de sua carreira, interpretando Beverly Sutphin. Ela é uma dona de casa de Baltimore – perfeita, meticulosa, excessivamente ordeira – casada com um dentista (Sam Waterston) e mãe de dois adolescentes com nomes absolutamente estranhos: Chip e Misty. A maneira de ser uma mãe perfeita é mostrar que Beverly desenvolveu uma tendência de assassinar todos que a tiram do sério.

Como alguém ousa sugerir que seu filho Chip (Matthew Lillard) necessita de terapia? Beverly responde com descrença natural, e daí ao encontrar o professor fora da sala de aula no estacionamento atropela-o, matando-o. Quando Misty (Ricki Lake) fica interessada em um rapaz, ela reclama com sua mãe não ser correspondida: “Gostaria que ele morresse”.

John Waters, naturalmente, não está tão vulgar como em "Pink Flamingos" (famoso pela cena escatológica do cachorro). Após filmes mais leves retratando a adolescência dos anos 50 e 60, parece que ele “entra na onda” e fica menos cáustico. Com “Mamãe é de Morte” ele traça uma sátira urbana, um filme muito engraçado e cativante que mesmo qualquer mãe adoraria assistir.

O filme é menos ácido do que aparenta ser. Embora a história se passe nos anos 80, Beverly parece revestida do clima dos anos 50 que tanto agrada o diretor: sitcoms que mostravam o desregramento de uma geração de famílias.

Moldado ao faro de John Waters, captura os detalhes mais atormentados da vida suburbana. Um toque especial é a forma que Beverly cantarola "Daybreak", de Barry Manilow, enquanto limpa a casa ou segue em direção ao próximo crime. Kathleen Turner interpreta a boa mãe com tal brilho e convicção que seu lado assassino parece, por mais absurdo que seja, plausivelmente correto. E Sam Waterston, fugindo de seus papéis mais sérios, mostra equilíbrio nesta comédia, funcionando perfeitamente como um marido confuso.

Entretanto, “Mamãe é de Morte” é meio desequilibrado e um pouco previsível. Quando a polícia desconfia de Beverly e a segue até a igreja com toda a família no carro, ela diz: "Você acha que vou precisar de um advogado?" O astuto Chip responde: "Você precisa de um agente." Suzanne Somers, em breve aparição, de repente deseja fazer uma minissérie da vida de Beverly. O frenetismo da mídia sobre a assassina mega-star é muito real para funcionar com o uma sátira.

Apesar da abordagem branda feita por Waters, há alguns momentos nojentos em “Mamãe é de Morte”, como aquele em que um close naquilo que parece um rim num espeto de churrasco. Ele, afinal de contas, não perdeu o sentido das coisas. Quem teria perdido?, parece perguntar. A famosa mamãe assassina ou a vizinha que quando um ovo cerâmico quebra, diz: “É Franklin Mint! Eu coleciono Franklin Mint!”.

Uma vítima aluga um vídeo de “Annie”, acomoda-se na poltrona e começa a cantar “Tomorrow”. Nas barbas da lei, isso não justifica um assassinato. Mas há maiores questões éticas envolvidas. Elas explicam porque, no mundo de John Waters, essa mamãe matadora é uma heroína da cultura pop. Impagável.



"Mamãe é de Morte" (Serial Mom)
1994 – EUA - 95 min. – Colorido – COMÉDIA
Direção: JOHN WATERS. Roteiro: JOHN WATERS. Fotografia: ROBERT M. STEVENS. Montagem: JANICE HAMPTON E ERICA HUGGINS. Música: BASIL POLEDOURIS. Produção: JOHN FIEDLER E MARK TARLOV, para a SAVOY PICTURES.

Elenco: KATHLENN TURNER (Beverly Sutphin) SAM WATERSTON (Eugene Sutphin), RICKI LAKE (Misty Sutphin), MATTHEW LILLARD (Chip Sutphin), SCOTT MORGAN (Detetive Pike), WALT MACPHERSON (Detetive Gracey), JUSTIN WHALIN (Scotty Barnhill), PATRICIA DUNNOCK (Birdie), LONNIE HORSEY (Carl Pageant), TRACY LORDS (Namorada de Carl) e MINK STOLE (Dottie Hinkle).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Cry Baby

5 comentários:

Hugo disse...

De John Waters assisti apenas "Cry Baby" e não gostei...

Abraço

O cara da Locadora disse...

Assisti aos dois, e não sabia que eram do mesmo cara... Na verdade o Cry Baby é um filme que eu assisti há muito tempo, na tv paga e não sabia o nome e sempre quis ver denovo, agora sabendo o nome e o diretor fica mais fácil... Sobre o Mamãe é De morte, um filme que marcou minha infância, vi com meu irmão e morria de rir, principalmente nessa cena do "tomorrow" rs...

Miguel Andrade disse...

Mamãe é de Morte é o máximo mesmo! E discordo da previzibilidade a que você se refere. desde o início é claro que está parodiando aqueles "filmes para TV baseados em casos escabrosos reais" totalmente óbvios. Não é à toa que Rick Lake, descoberta do diretor pro Hairspray de 88, faz a filha de Beverly, sendo que na verdade comanda um programa sobre o mundo cão (tipo Márcia) na TV dos EUA.

Jacques, a obra prima dele, desta fase mais comercial, é Cecil Bem Demente! Filme obrigatório para quem gosta de cinema de verdade, e/ou pra quem não baba ovo em qualquer porcariazinha vinda dos EUA!

Em tempo: Cry Baby é o primeiro de Waters em um grande estúdio. Lógico que o "Papa do Vômito" apanhou um pouquinho trabalhando sob o comando da Universal, mas é cheio de referências inteligentes, que lamentavelmente não são compreendidas por qualquer um.

Aliás, desde os primórdios acho que Waters nunca procurou agradar muito a classe média, mas sim satirizá-la! Da fase radical, gosto bastante de Polyester, nunca lançado comercialmente no Brasil, embora a tosqueira de Pink Flamingos me faça refletir sobre um punhado de coisas...

Abraços ;)

Kau Oliveira disse...

Cry Baby é super legal. Gosto da sutileza de sua premissa e me diverti muito, juro! Depp novinho e Susan Tyrrell ótima.

Abs.

Cecilia Barroso disse...

Eu gostei muito de Mamãe É de Morte. Turner está ótima no papel e a crítica a uma sociedade de aparências e controle sempre pode dar bons frutos.

Do diretor ainda prefiro Cecil Bem Demente, mas Cry-Baby é muito bom também...

Beijocas