“É provável que sejam apenas bolas de poeira".
O filme conta a história de duas irmãs, Satsuki e Mei, que são levadas pelo pai para uma nova casa, perto de uma floresta. A mãe das jovens, doente, está em um hospital da cidade. Quebrando paradigmas, a enredo não é de um menino e uma menina, como a maioria dos filmes; o pai é forte e amoroso – nao mau ou ausente, como sempre esamos acostumados a ver nos filmes de animação; a mãe está convalescendo – num filme de animação isso não é , de maneira alguma, comum. A casa das irmãs é mal-assombrada. Mas não no sentido que todos estamos acostumados a pensar, com fantasmas e monstros. Ao contrário, a casa tem outros “bichos” - Mei e Satsuki vêem pequenos pontos negros, fugindo à busca de segurança. “É provável que sejam apenas bolas de poeira”, diz o pai. Uma empregada , contratada para cuidar das crianças, diz que são “duendes cobertos de fuligem”, que habitam casas abandonadas e fogem ao ouvir o som de risadas. Quando as meninas olham o interior da casa e exploram o sotão, sentem certo temor . Porém, afastam o medo, abrindo janelas e acenando para o pai, do andar superior - tudo, sem suspense ou mistérios. O pai aceita de forma natural a história contada pelas filhas com as criaturas. Totoros existem? Obviamente que sim, na cabeça das jovens. Também existem outras criaturas fabulosas, como o Gato Ônibus, que corre pela floresta com oito patas e olhos grandes como faróis e um imenso sorriso de felicidade. O aspecto mais interessante é a convivência harmoniosa entre a visão infantil e a adulta. Mesmo que os adultos não concordem, Miyazaki não entra na cilada na qual as crianças resolvem salvar o mundo sozinhas, por serem incompreendidas pelos adultos.
“Meu vizinho Totoro” trata de experiências, situações do cotidiano – sem conflitos ou ameaças. Isso fica flagrante quando assitimos às cenas com os totoros, que não são criaturas reais ou do imaginário popular japonês, mas seres da mente criativa e genial do diretor. Mei depara-se com um filhote de totoro que mais se parece com um coelho, correndo perto da casa. Ela o segue pela floresta, onde acaba adentrando por folhagens e finalmente escorregando e caindo numa criatura gigante e aconchegante. O pai, absorto no trabalho, nem percebe sua ausência. Ele e Setsuki seguem em busca de Mei. O que poderia parecer uma seqüência de suspense, com florestas escuras e apavorantes, traz uma reversão de expectativa – encontram Mei dormindo no chão, sozinha, sem o totoro.
Mais adiante, as meninas vão ao encontro do ônibus do pai. O tempo passa e os bosques escurecem. Em silêncio e com naturalidade, o gigantesto totoro junta-se a elas na parada de ônibus em postura de proteção, como um amigo imaginario. Comeca a chover. As meninas têm sombrinhas e dão uma para o totoro, que fica encantado com os pingos de chuva na sombrinha e pula para cima e para baixo para liberar das árvores uma cascata de pingos. Então, chega o onibus. Myiazaki lidou com uma calma tremenda a cena –a noite e a floresta foram tratadas como uma situação, e não como uma ameaça. O filme não precisa de vilões.
Não há complôs de crianças contra adultos. A família é vista como um porto seguro e reconfortante. O pai é sensato, criterioso e educado; aceita as histórias de criaturas estranhas, confia nas filhas, ouve a explicaçao com a mente aberta. O filme carece de cenas tristes em que o pai interpreta inequivocadamente uma ação bem-intencionada e castiga injustamente. O filme causa admiração nas cenas envolvendo o totoro e encanta nas do Gato Onibus. É surpreendente, mas sem excessos; um pouco triste, mas sem levar às lágrimas; emocionante, sem recorrer, entretanto, à analogia de uma montanha-russa. Como a propria vida.
É um filme para criancas, feito para o mundo em que deveríamos viver e não para o que ocupamos. É um filme sem vilania. Sem cenas de luta. Sem adultos malvados. Sem trevas. Um mundo do bem. Um mundo em que, se você encontrar na floresta uma criatura estranha e grande, acaba aconchegando-se no colo dela, a ponto de tirar um cochilo. O filme sugere que as maravilhas da vida e os recursos da imaginação podem fornecer toda a aventura de que necessitamos. Miyazaki é fabuloso. E fez uma fábula. Imperdível.
Meu Vizinho Totoro (Tonari no Totoro)
1988 – JAPÃO - 86 min. – Colorido – ANIMAÇÃO
Direção: HAYAO MIYAZAKI. Roteiro: HAYAO MIYAZAKI. Fotografia: MARK HENLEY. Montagem: TAKESHI SEYAMA. Música: JOE HISAISHI. Produção: TORU HARA, distribuído pela TROMA FILMS.
Elenco:
Noriko Hidaka( Satsuki - Voz), CHIKA SAKAMOTO ( Mei - Voz), SHIGESATO ITOI (Tatsuo Kusakabe - Voz), SUMI SHIMAMOTO (Kanta no obâsan - Voz), KAORU KOBAYASHI (Voz de Jiko-bô), TANIE KITABAYASHI (Voz de Kouroko), HITOSHI TAKAGI (Totoro - Voz), YÛKO MARUYAMA (Voz de Toki), MACHIKO WASHIO (Kanta no okâsan - Voz), REIKO SUZUKI (Professora-Voz), MASASHI HIROSE (Furoi on´na no hito - Voz) , TOSHIYUKI AMAGASA (Kanta-Voz ) , SHIGERU CHIBA (Kusakari-Otoko - Voz) e NAOKI TATSUTA (Voz)

Cenas do filme:
Assista também:

Princesa Mononoke
4 comentários:
Amo os trabalho de Miyazaki. E estou com Meu Vizinho Totoro aqui para ver...
Ciao!
Jacques, encantador, e mesmo tão diferente, e até com um ritmo mais contemplativo, agrada nossas crianças ocidentais. Já tive prova disto!
Cada vez mais os animes estão tomando conta da telinha infantil...
Gosto muito!!!
Até mais...
André - Milha Turva
Gosto bastante dos animes, mas recentemente venho conferindo muito pouco do gênero.
Abraços!
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