sábado, 30 de agosto de 2008

REBECCA - A MULHER INESQUECÍVEL

“Você acredita que amava Rebecca? Eu a odiava!.”


Uma dama de companhia (Joan Fontaine) apaixona-se em Montecarlo pelo viúvo Maxim de Winter (Laurence Olivier). Após o casamento, o casal se muda para Manderley, a mansão que Maxim possui na costa da Cornuália. O que parece um conto de fadas no inicio, transforma-se num pesadelo para a jovem recém-casada. Vencida pelas circunstancias, deve reconhecer que a lembrança de Rebecca, a primeira esposa de seu marido, paira como uma sombra sobre a vida do casal. A pessoa que mais a deprecia é a ama da casa, a senhora Danvers (Judith Anderson), que segue idolatrando a antiga patroa, apesar de sua morte. Nem mesmo Maxim, que sempre parece distante, parece poder esquecer seu amor pela falecida. Porém, numa noite tormentosa, o mar devolve à praia os restos de um naufrágio e a situação toma um rumo inesperado; a bordo encontra-se o cadáver de Rebecca e Maxim torna-se suspeito. Rebecca faz parte da colaboração entre Hitchcock e o lendário Selznick, que durou oito anos. No início, falou-se que Selznick havia convencido Hitchcock a trocar a Inglaterra pela América oferecendo-lhe um projeto sobre o Titanic. Porém, o projeto não caminhou e o produtor optou por adaptar o best seller de Daphne du Maurier. Essa troca de planos causou um conflito entre ambos, já que possuíam visões diferentes sobre o filme. Ainda que Hitchcock pensasse em utilizar a trama somente como ponto de partida para oferecer uma visão pessoal sobre o tema. Selznick insistia em manter-se absolutamente fiel ao texto para não desagradar os leitores.

Hitchcock, que na Inglaterra não havia tido nenhuma ingerência dos produtores, deu o braço a torcer, mas sem grande entusiasmo. Por esse motivo, apesar do toque inglês que confere aos cenários e aos atores, a diferença entre esse filme e seus trabalhos anteriores fica nítida. O humor característico do diretor aparece diversas ocasiões: de fato, o filme mantém um distanciamento cômico em relação aos acontecimentos. Na realidade, o drama psicológico, implacavelmente sério e lúgubre, para ser um thriller que gira em torno da misteriosa morte de Rebecca.

As tomadas buscam a todo o momento uma aproximação com a protagonista, que também contam a historia em primeira pessoa e que consegue com que o público se identifique plenamente com sua dor. O realizador indica com total clareza que Manderley está se convertendo progressivamente em um cárcere para ela, valendo-se para isso de expressivos jogos de luz e sobras, que dão à mansão uma vida própria e inquietante. A casa passa a ser uma espécie de castelo mal assombrado, que não deve ser entendido como um lugar no qual o publico perceba objetivamente a não ser como a representação de uma alma torturada.

Apesar de quem anos depois, Hitchcock tenha feito alguns comentários pejorativos sobre Rebecca, não se pode negar que o filme possua sua marca registra. Sua forma de contar historias, usando recursos visuais, fica evidente a todo instante, apesar do tom literário dominante. Como se sabe, o estilo do mestre estava fortemente influenciado pelo cinema mudo produzido na Alemanha, algo que em Rebecca fica mais aparente que em seus filmes anteriores.

A fantasmagórica senhora Danvers, a verdadeira senhora de Manderley, inspira tanto terror como o "Nosferatu" (1922), de Murnau. Neste sentido, Rebecca não se afasta tanto das demais obras do diretor como podemos pensar assistindo ao filme. A ama pode ser encarada como uma predecessora das tirânicas figuras maternais que povoam os filmes posteriores de Hitch; também, constitui uma das primeiras mostras de sua mania pelo sinistro – um fato praticamente inédito ate então – que atinge seu ápice com "Psicose" (1960).

Neste longa-metragem também aparecem motivos que com os anos adquiriram um enorme significado para o diretor. É o caso, por exemplo, do caráter fetichista da veneração da senhora Danvers por sua antiga patroa, fazendo com que praticamente pensemos em Rebecca como se estivera viva.

A versão cinematográfica se afasta da trama original em um ponto essencial (algo que não se deve a Hithcock, mas sim ao código Hays): os censores consideravam inadmissível que Maxim de Winter tivesse assassinado sua primeira esposa. Até o mesmo Selznick teve que sucumbir a essas exigências, fazendo com que a morte de Rebecca fosse resultado de um trágico acidente.

Vale aqui uma curiosidade: Rebecca, a obra, seria um plágio da obra "A Sucessora", de Carolina Nabuco. Apesar de tudo, um grande filme, de um grande mestre. Mesmo tendo Laurence Olivier e Joan Fontaine no elenco, quem brilha é a grande Judith Anderson, atriz australiana que nunca chegou a ser uma estrela por estar longe dos padrões de beleza em vigor em Hollywood, apesar de possuir enorme reputação na Broadway. Entretanto, fez parte de um grupo ilustre de artistas, tendo sido agraciada com o título de Dame pelo Império Britânico em 1960. Sua senhora Danvers é sem duvida um dos personagens femininos mais inquietantes da história do cinema. De arrepiar.



"Rebecca - A Mulher Inesquecível" (Rebecca)
1940 – EUA - 130 min. – Preto e Branco – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: ROBERT E. SHERWOOD E JOAN HARRISON, baseado na novela homônima de DAPHNE DU MAURIER. Fotografia: GEORGE BARNES. Montagem: HAL C. KERN E W. DONN HAYES. Música: FRANZ WAXMAN. Produção: DAVID O. SELZNICK para SELZNICK INTERNATIONAL PICTURES.

Elenco: JOAN FONTAINE (Senhora de Winter) LAURENCE OLIVIER (Maxim de Winter), GEORGE SANDERS (Jack Favell), JUDITH ANDERSON (Senhora Danvers), NIGEL BRUCE (Major Giles Lacey), GLADYS COOPER (Beatrice Lacey), REGINALD DENNY (Frank Crawley), C. AUBREY SMITH (Coronel Julyan), MELVILLE COOPER (Investigador) e FLORENCE BATES (Senhora Van Hooper).

Prêmios:
Oscar de Melhor Filme(David O. Selznik) e Melhor Fotografia (George Barnes)/1940

Trailer Original:



Do mesmo diretor:



Um Corpo Que Cai

5 comentários:

Miriam disse...

Adoro este filme , tem de ser do mestre. Eu também fiz um comentário sobre este filme no meu blog e escolhi a cena do quarto de Rebecca. Que quarto hein!!! Quem diria que o marido amava a mais insignificante e não a glamorosa Rebecca!!!!!!

Cecilia Barroso disse...

Esse filme é demais! E, concordo com você, a atuação de Judith Anderson é superior... Uma excelente título para ser revisto.

Beijocas

Jacques disse...

Miriam, sempre ele - Hitchcock. Embora ele mesmo não prestigie essa obra, é inegável seu valor artístico. Tudo está lá. Grande filme.

Cecília, Judith é marcante. Caso tenha oportunidade assista seu desempenho também como Herodíades, em Salomé (1953).

Sérgio Déda disse...

Ainda falto assistir este filme do Hitchcock... tá na minha lista faz tempo..

vlws

Dvds disse...

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