sexta-feira, 13 de junho de 2008

UM CORPO QUE CAI

“Eu te amo, Madeleine.”


John Feguson, Scottie (James Stewart), é um antigo detetive de polícia que se demite após um companheiro ter morrido em uma perseguição conjunta pelos telhados de São Francisco. Ele sente-se culpado por não ter ajudado seu colega, em função de seu medo de altura. Por causa disso, Scottie busca uma nova ocupação e, justamente quando está pensando no que fazer com seu tempo livre, recebe uma chamada de um antigo companheiro de estudo (Tom Helmore), do qual não se recorda. Este pede a ele que siga sua esposa, contando-lhe uma engenhosa história sobre transtornos mentais e espíritos do passado. A principio, Scottie não aceita. Porém, quando a vê pela primeira vez, não resiste: Madeleine (Kim Novak), loira e misteriosa, é tão inacessível e linda, e esta envolta numa aura tão fascinante, que faz Scottie sentir-se fortemente atraído por ela.

Desta forma, segue, então, Madeleine por todos os lugares possíveis de São Francisco – salva sua vida, quando ela, querendo suicidar-se, joga-se na baía de São Francisco; entretanto, em outra ocasião, quando ela sobe na torre de uma igreja, Scottie não consegue ajudá-la, por culpa de seu medo de altura. Ele não se dá conta que caiu numa armadilha. Scottie sofre de vertigem. É um solitário, um sonhador, o que fica evidente em contraste com Midge (Barbara Bel Geddes) – uma amizade platônica. Tudo isso o transforma numa vítima perfeita.

Ao estrear, “Um Corpo que Cai” chocou o publico, tendo sido incompreendido inclusive pela critica da época. As imagens dos créditos e uma seqüência de sonhos (ambas criadas pelo desenhista Saul Bass), com cores irreais e elementos gráficos, constituem-se em pequenos experimentos cinematográficos e possivelmente produziram um efeito inquietante na década de 50.

Finalmente, nos anos 70, analisou-se até que ponto a estrutura da historia e a composição das imagens eram tão refinadas. A conclusão foi que “Um Corpo que Cai” ficou incluído no Olimpo das grandes obras da historia do cinema. Alfred Hitchcock criou outros grandes filmes, é verdade, mas esta é uma obra mestra, que ainda incomoda e transtorna. Estão ali todos os ingredientes das fórmulas do cineasta: o suspense – sua forma típica de criar tensão -, o tema do dublê, os sentimentos de culpa do personagem principal, o humor sarcástico e o amor obsessivo de um homem por uma mulher. Além disso, a trilha sonora, composta por Bernard Herrmann, é um dos melhores exemplos de como a inserção musical em um filme ocorre de forma tão precisa e perfeita.

Também, neste sentido, “Um Corpo que Cai” é uma obra prima de Hitchcock. Em todos os seus filmes, as mulheres loiras têm um papel importante (de Ingrid Bergman a Grace Kelly); em todos seus longas-metragens, ele trata o ícone da loira misteriosa, inacessível e frígida. Em “Um Corpo que Cai”, o diretor converte a criação da loira misteriosa no tema real, através de dublê: Madeleine – a loira sedutora que serve de isca e, na segunda metade, surge a ruiva Judy, uma mulher que, excetuando o cabelo, é idêntica à primeira, a qual Scottie quer transformar em Madeleine. Inquietante e magistral.




"Um Corpo Que Cai" (Vertigo)
1958 – EUA - 128 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: ALEC COPPEL e SAMUEL A. TAYLOR, baseado na obra “D´entre les morts”, de PIERRE BOILEAU e THOMAS NARCEJAC. Fotografia: ROBERT BURKS. Montagem: GEORGE TOMASINI. Música: BERNARD HERRMANN. Produção: ALFRED HITCHCOCK, para ALFRED J. HITCHCOCK PRODUCTIONS, INC. e PARAMOUNT PICTURES.

Elenco: JAMES STEWART (John Ferguson Scottie) KIM NOVAK (Madeleine Elster/Judy Barton), TOM HELMORE (Gavin Elster), BARBARA BEL GEDDES (Midge Wood), KONSTANTIN SHAYNE (Pop Liebl), HENRY JONES (Membro do Tribunal), RAYMOND BAILEY (Médico) e ELLEN CORBY (encarregada do hotel).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Interlúdio

quinta-feira, 5 de junho de 2008

E.T. - O Extraterrestre

“Como você explica o que é escola para uma inteligência superior?.”


A trama pode ser resumida em poucas palavras: um O.V.N.I. e sua tripulação aterrisam por engano na Terra. Quando os alienígenas são descobertos por uma patrulha de reconhecimento de cientistas, colocam-se em marcha para ficarem a salvo. Um dos passageiros não chega a tempo à nave e permanece no planeta azul. O extraterrestre esconde-se no jardim de uma casa, até que, numa noite, o pequeno Elliot (Henry Thomas) o descobre. Uma vez que Elliott supera o medo inicial diante da estranha forma de vida, consegue que o E.T. o siga para dentro da casa, com a ajuda de um punhado de guloseimas. Assim, pouco a pouco, desenvolve-se entre os dois uma bela amizade que, com o passar do tempo, estende-se aos irmãos de Elliott – Michael (Robert MacNaughton) e Gertie (Drew Barrymore). O recém-chegado torna-se um companheiro da garotada que o esconde dos adultos. Dentro de um armário, o E.T. passa desapercebido aos olhos da mãe de Elliott (Dee Wallace).

A mensagem central do filme é o eterno conflito entre a razão e o coração. Sob a ótica de Spielberg, sempre quando os adultos têm que escolher entre esses dois conceitos diametralmente opostos, a decisão recai sobre o intelecto. É exatamente assim como Spielberg enxerga o inicio da destruição do poder da imaginação que existe na infância. Portanto, com esse filme, ele tenta um ato de expiação.

Desde o inicio do filme, os adultos são retratados como uma séria ameaça ao mundo infantil - com vozes estridentes, assustam os extraterrestres que vieram à Terra com a pacifica missão de colher flores. Além disso, Spielberg faz as tomadas dos adultos sempre sob a ótica das crianças – nunca de corpo inteiro. Até o final do filme, não são mostrados seus rostos. A câmera trabalha sempre à altura dos olhos das crianças, mostrando os acontecimentos sob suas perspectivas.

Spielberg sempre foi muito criticado por seu estilo cinematográfico. Alguns o acusam de ter uma forma regressiva de fazer cinema e de exagerar nas incursões ao mundo infantil. Mesmo assim, tem sido rotulado como um artesão espiritual, por sua grande capacidade em tocar as teclas dos sentimentos e saber exatamente como agir em cada momento para atingir emocionalmente o público.

Neste filme, Spielberg mostra seu inegável talento, seu divertido senso de comédia, seu lírico estilo narrativo, os elementos de suspense e de melodrama e sua apaixonada defesa da infância. Isso explica o êxito deste filme até hoje.

Para o diretor, esse filme significou um velho sonho. Nele, Spielberg pode refletir sobre sua própria infância e suas origens. Assim, a relação com seus pais (sua mãe foi pianista e, ao que parece, muito sofrida; seu pai, um engenheiro ausente na maior parte do tempo) está retratata em "E.T.", da mesma forma que os medos e esperanças de um menino de dez anos que sonha com a harmonia universal e que, em vista da impossibilidade de consegui-la na vida real, deve esperar criá-la nos seus filmes.

Fica sempre a pergunta: "E.T." é um filme infantil ou um conto de fadas para adultos? Acho que pode ser tanto uma coisa como outra. O alienígena simpático que estende o dedo indicador e cuja expressão “Phone... home...” popularizou-se no mundo todo, tornou esse filme inesquecível. Ingênuo, porém, belo e único.




"E.T. - O Extraterrestre" (E.T. – The Extra-Terrestrial)
1982 – EUA - 114 min. – Colorido – FICÇÃO CIENTÍFICA
Direção: STEVEN SPIELBERG. Roteiro: MELISSA MATHISON. Fotografia: ALLEN DAVIAU. Montagem: CAROL LITTLETON. Música: JOHN WILLIAMS. Produção: KATHLEEN KENNEDY e STEVEN SPIELBERG, para UNIVERSAL PICTURES.

Elenco: DEE WALLACE (Mary) HENRY THOMAS (Elliott), PETER COYOTE (Keys), ROBET MACNAUGHTON (Michael), DREW BARRYMORE (Gertie), K.C. MARTEL (Greg), SEAN FRYE (Steve), TOM HOWELL (Tyler), ERIKA ELENIAK (criança) e DAVID O´DELL (estudante).

Prêmios:
Oscar de Melhor Trilha Sonora (John Williams), Melhores Efeitos Visuais (Carlo Rambaldi, Dennis Muren e Kenneth F. Smith), Melhor Som (Robert Knudson, Robert J. Glass, Don Digirolamo e Gene S. Cantamessa) e Melhores Efeitos Sonoros (Charles L. Campbell e Ben Burtt)/1982.

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Contatos Imediatos do Terceiro Grau

quarta-feira, 4 de junho de 2008

QUERELLE

“Todo homem mata a quem ama...”


Envolvido no contrabando de ópio, Querelle (Brad Davis) mata um de seus cúmplices, o marinheiro Vic (Dieter Schidor), cuja culpa recai sobre Gil (Hanno Pöschl). Na realidade, Gil havia matado outro sujeito e busca refúgio no bairro marginal de Bagno. Sua aparência física com o irmão de Querelle, Robert (Pöschl, em papel duplo), faz com que este o considere também como a um irmão e se sinta profundamente atraído por ele. Porém há algo que os diferencia. Enquanto Gil causou uma morte involuntária, Querelle cometeu um assassinato a sangue frio. Ao final, Querelle acabará por denunciar Gil à polícia. Uma segunda da trama paralela desenvolve-se no bordel Féria. Lá, ouvimos a exagerada dissertação do tenente Selon (Franco Nero) que, fascinado por Querelle, grava suas impressões sobre ele em um equipamento. Querelle joga dados com Nono (Günther Kaufmann) e exige como prêmio a sua bela mulher Lysiane (Jeanne Moreau), dona do prostíbulo. Porém, Querelle perde a disputa e vê-se obrigado a ceder às pretensões sexuais de Nono.

O sexo tem um papel importante no assassinato do marinheiro. Para Querelle, o amor e o afeto somente podem ser exprimidos por meio da destruição e da violenta subordinação. Todos que chegam a conhecer o marinheiro Querelle rendem-se ao seu encanto, mas sua reação sempre é mortal e traiçoeira. E, quando a trama alcança o ponto trágico mais alto, Lysiane canta uma canção de cabaré inspirada nas palavras de Oscar Wilde: Todo homem mata a quem ama...

Fassbinder aborda a questão do poder dentro de um mundo essencialmente masculino como um labirinto formal de reflexos e disfarces, criando, assim, um mundo de enganos e calúnias com uma grande carga lírica.

Toda a historia se passa em um cenário surrealista, criado pelo cenógrafo Rolg Zehetbauer nos estúdios CCC de Berlim Oriental, sendo toda narrada em off. A ação desenvolve-se em diversos lugares: um barco ancorado próximo a Brest, o bordel de Féria, uma taverna, algumas ruas da zona portuária e um jardim árabe.

Os cenários apresentam uma iluminação de tonalidade vermelha e amarela. Não há uma clara linha de separação entre um lugar e outro. A aparente intimidade existente nos encontros privativos é sufocada por um cenário interno e externo, por superfícies planas e profundas, por ações objetivas e sentimentos subjetivos, por percepções próprias e alheias. A ligação de todos esses elementos determina a trama de “Querelle” e a sua cenografia especifica constitui um recurso estilístico fundamental.

O produtor, Dieter Schidor, havia oferecido anteriormente o roteiro a outros diretores, tais como Sam Peckinpah e Roman Polanski. O certo é que a novela de Jean Genet, na qual se baseia a história, parece feita sob medida para Fassbinder, cujo tratamento apaixonado que dá ao material adere perfeitamente à sua obra anterior.

Naquele que parece ser seu filme mais pessoal, Fassbinder examina os mecanismos psicológicos das relações amorosas. A diferença de seus outros filmes, é que em “Querelle” não há referências temporais, de forma que ele adquire uma dimensão universal.

O tom da obra é cheio de lirismo, com movimentos de câmera lentos, e o aspecto teatral da história intensifica-se graças aos cenários que mais parecem um palco do que um estúdio cinematográfico. Aliado a isso, justifica-se a interpretação dos atores que, em alguns momentos, é exagerada. O filme perde um pouco de ritmo por conta dessa ditadura da forma e excesso estilístico.

Em “Querelle”, Fassbinder cria um cosmos íntimo inteiramente determinado pelo desejo masculino, e ainda que a ele renda homenagem, também demonstra seu fracasso. Filme hermético, que pode não agradar a todos, mas é forte e essencial para os que apreciam o novo cinema alemão.



"Querelle" (Querelle)
1982 – ALEMANHA/FRANÇA - 107 min. – Colorido – DRAMA
Direção: R.W. FASSBINDER. Roteiro: R.W. FASSBINDER e BURKHARD DRIEST, baseado no livro QUERELLE DE BREST, de JEAN GENET. Fotografia: XAVER SCHWARZENBERGER. Montagem: R.W. FASSBINDER (como Franz Walsch) e JULIANE LORENZ. Música: PEER HABEN. Produção: DIETER SCHIDOR, para PLANET FILM PRODUCTIONS, ALBATROS.

Elenco: BRAD DAVIS (Querelle), FRANCO NERO (tenente Seblon), JEANNE MOREAU (Lysiane), LAURENT MALET (Roger Bataille), HANNO PÖSCHL (Robert/Gil), GÜNTHER KAUFMANN (Nono), BURKHARD DRIEST (Mario), DIETER SCHIDOR (Vic), KARL SCHEYDT (Marinheiro) e ROGER FRITZ (Inspetor Marcellin).

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O Desespero de Veronika Voss

sábado, 31 de maio de 2008

ARDIDA COMO PIMENTA

“Há alguma mulher aqui? Não, senhor. Somente índios.”


Calamity Jane (Doris Day) é uma garota que não dá a mínima para a aparência, não é nada vaidosa. Veste-se como um homem, chegando a ser masculinizada. Lida com indígenas e com os amigos do bar com muita destreza, no velho Oeste americano. Isso, até outra moça chegar na cidade. Quando Jane começa a competir com a forasteira Katie Brown (Allyn McLerie) pela atenção do tenente do exército Gilmartin (Philip Carey), ela sofre todo tipo de transformação – inclusive na forma de vestir-se e cantar. A mudança é para melhor. E, o fato dela rever seus sentimentos e voltar sua atenção para Bill Hickok (Howard Keel), melhora o enredo.

Água com açúcar? Claro. Bem como algumas das canções que Sammy Fain e Paul Francis Webster compuseram, tais como "It's Harry I'm Planning to Marry" e "Keep It Under Your Hat", são cantadas ao longo do filme aqui e ali. Melhor fica por conta de "My Secret Love", premiada com o Oscar e "The Black Hills of Dakota."

Doris Day está engraçada, mas também exagera na composição de Jane. – fica com a cara sisuda e brava ao longo do filme e caminha a passos largos como se estivesse pulando. O diretor David Butler provavelmente engessou-a e ela seguiu à risca – melhor se não tivesse feito isso. Ela atira para o alto com seu revólver, usa cordas, etc. Talvez pudesse nos dar uma performance mais elaborada, menos violenta, mais relaxada. A cenografia do filme também capricha na dose, mas em Technicolor agrada.

Além dela, Allyn McLerie, que tem um rosto de menina assustada, aparece meio estática nas cenas de dança. Howard Keel perde envergadura no filme, justamente por conta dos excessos de Doris Day. Entretanto, tudo fica engraçado quando ela toma os ares de mulher e sossega.

Neste musical, a Warner esperava repetir em Doris Day como Betty Hutton, em “Annie Get Your Gun”, escalando o mesmo Howard Keel, que teve a mesma missão de domar a moçoila Betty – o que acontece com Jane neste filme. Para assistir num final de tarde, de forma descompromissada.



"Ardida Como Pimenta" (Calamity Jane)
1953 – EUA - 101 min. – Colorido – COMÉDIA
Direção: DAVID BUTLER. Roteiro: JAMES O´HANLON. Fotografia: WILFRID M. CLINE. Montagem: IRENE MORRA. Música: DAVID BUTTOLPH e HOWARD JACKSON. Produção: WILLIAM JACOBS, para WARNER BROS.

Elenco: DORIS DAY (Calamity Jane), HOWARD KEEL (Bill Hickok), ALLYN McLERIE (Katie Brown), PHILIP CAREY (Gilmartin), DICK WESSON (Francis Fryer), PAUL HARVEY (Henry Miller), CHUBBY JOHNSON (Rattiesnake)e GAIL ROBBINS (Adelaid Adams).

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Paris em Abril

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O CLUBE DOS CINCO

“Porque você tem que insultar todo mundo?...Eu estou sendo honesto, idiota. Pensei que soubesse a diferença.”


Cinco alunos de uma escola de Chicago ficam de castigo na manhã de um sábado por haverem cometido infrações diversas. A pena: têm que escrever uma redação de mil palavras dentro de um período de oito horas. O diretor da escola, Richard Vernon (Paul Gleason) está trabalhando em uma sala ao lado da qual os alunos estão fechados. Como não estão sob vigilância contínua, os cinco adolescentes vagabundeiam pela biblioteca, sem nenhuma intenção de executar a tarefa. Como tampouco se conhecem, começam a trocar idéias sobre seus amigos, seus pais e sobre a “primeira vez” de cada um. Ao final do bizarro dia na escola, cada um estará um pouco mais preparado para responder à pergunta: “Quem sou eu?”.O roteirista e diretor John Hughes especializou-se em comédias infantis e de adolescentes. Com “O Clube dos Cinco”, realizou um filme mais intimista, sem protagonistas.Consegue mostrar adolescentes com problemas reais, evitando, contudo, que o filme se aprofunde em demasia nos assuntos que aborda. Embora revele somente o suficiente para não espantar o público-alvo adolescente, o filme mantém um clima de seriedade, de sensibilidade e afeto. A caracterização dos personagens é muito bem realizada. São personagens com matizes que despertam nosso interesse pelos seus destinos, embora, por outro lado, são também bastante carismáticos para que o público se identifique com muitos deles.

Logo na cena em que os “delinqüentes” chegam à escola, Hughes desfila seu estilo de caracterização dos personagens, baseado em alguns clichês: a garota chega numa caminhonete e, o rebelde, a pé, indiferente diante de um carro que breca para não atropelá-lo. O rebelde chama-se John (Judd Nelson), que usa cabelos compridos e camiseta rasgada. Discutindo com o diretor, acaba “ganhando” um castigo de oito sábados adicionais, mas, a princípio, trata seus companheiros com uma agressiva condescendência.

Brian (Anthony Michael Hall) é o clássico exemplo do nerd e os demais o importunam. Claire (Molly Ringwald) provém de uma família rica, mas fica evidente que seu estilo patricinha não lhe interessa nem um pouco. Andrew (Emilio Estevez) é o esportista do grupo, pois participa do time de luta e representa o “projeto” de ambição para seu pai. Por último, mas igualmente importante, é Allison (Ally Sheedy), uma garota que se esconde atrás de seus cabelos desgrenhados e de suas roupas maltrapilhas, além de ser cleptomaníaca.

Ao longo do sábado, todos trocam experiências entre si, de forma sincera, dando-se em conta que todos possuem os mesmos problemas – como atender às expectativas paternas (que não se cumprem), bem como vencer a eterna luta para manter um status dentro da hierarquia da escola.

Nos diálogos, Hughes demonstra ter um talento acima da média: o de compreender os meandros da adolescência. Consegue mostrar de forma realista o modo com que os jovens se expressam, como criam conflitos entre si, como silenciam, como são autênticos e verdadeiros, como perdem o controle e como rompem-se em lágrimas. Consegue criar habilmente personagens com perfis tão distintos, com poucas pinceladas. Um bom exemplo é a melancólica Allison, que em um dado momento vislumbra uma paisagem e sacode a caspa dos cabelos sobre o casaco para imitar neve.

Os cinco jovens atores têm atuações impecáveis, desenvolvendo seus personagens com sinergia, parecendo que se conhecem mutuamente há tempos. Não somente por essa razão, mas também por demonstrar uma clara intenção do filme em oferecer o retrato definitivo de uma geração, os paralelismos com o antecessor “O Reencontro” (The Big Chill), de 1983 e o posterior “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” (St. Elmo´s Fire), de 1985, são evidentes. Tanto que nos EUA, “O Clube dos Cinco” foi apelidado de “The Little Chill”. Cult obrigatório.




"O Clube dos Cinco" (The Breakfast Club)
1984 – EUA - 92 min. – Colorido – DRAMA
Direção: JOHN HUGHES. Roteiro: JOHN HUGHES. Fotografia: THOMAS DEL RUTH e GEORGE BOUILLET. Montagem: DEDE ALLEN. Música: KEITH FORSEY e WANG CHUNG. Produção: JOHN HUGHES e NED TANEN, para A&M FILMS E UNIVERSAL PICTURES.

Elenco: EMILIO ESTÉVEZ (Andrew Clarke) JUDD NELSON (John Bender), ANTHONY MICHAEL HALL (Brian Johnson), MOLLY RINGWALD (Claire Standish), ALLY SHEEDY (Allison Reynolds), PAUL GLEASON (Richard Vernon), JOHN KAPELOS (Carl), PERRY CRAWFORD (Pai de Allison), PERRY MARY CHRISTIAN (Irmã de Brian) e ROY DEAN (Pai de Andrew).


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Gatinhas e Gatões

terça-feira, 27 de maio de 2008

O EXTERMINADOR DO FUTURO

“Hasta la vista, baby.”


Depois de uma guerra nuclear, as máquinas chegam ao poder. Concebidas, a principio, para representar um sistema de segurança ideal, opõe-se à raça humana. Um grupo de guerreiros clandestinos, liderados por John Connor, oferece uma resistência tenaz. Para refrear a resistência, as máquinas enviam ao passado, no ano de 1984, um andróide programado para matar. Sua missão é eliminar Sarah Connor (Linda Hamilton),a mãe do futuro líder da resistência e salvador da raça humana. A chegada do exterminador é como o nascimento diabólico de uma nova espécie. Vindo de uma descarga elétrica, acompanhada de raios e um feixe de luz branca, materializa-se um musculoso corpo masculino. É um organismo cibernético, um cyborg – o exterminador. As balam não o abatem e a violência mecânica somente pode atingir a superfície de seu corpo, fabricado com pele e tecidos. Debaixo de seu invólucro externo, reluz um esqueleto metálico de aspecto maligno e, em seu crânio de ferro, brilham olhos vermelhos de aspecto diabólico. Neste contexto, fica compreensível a ausência de diálogos, pois toda palavra ameniza o impacto da linguagem corporal. Na verdade, não há nada a ser dito, quando conduta lógica é tentar salvar uma vida.

As frenéticas perseguições de carros, motocicletas e caminhões, que remetem a “Viver e Morrer em Los Angeles” (1985), são exemplos de um cinema puramente físico, uma representação do movimento, cujo efeito reside no fato de que não existem obstáculos. Mesmo em lugares aparentemente seguros, como uma delegacia de policia ou um motel, a paz é uma mera ilusão que o poder do exterminador destrói em um instante.

A lúgubre visão do futuro não deixa nenhuma dúvida de que será quase impossível proteger Sarah Connor da missão mortal desse destruidor. Ainda que no inicio do filme o desconhecimento dos motivos da missão do exterminador crie uma emocionante atmosfera de suspense, o resto do filme centra-se cada vez mais em outra ponto: o momento em que o caçador alcancará finalmente sua presa e porá fim à perseguição, executando-a. Nem sequer Kyle Reese (Michael Biehn), um guerreiro enviado pelos humanos do futuro para proteger Sarah Connor, é capaz de detê-lo.

Não há praticamente nenhum outro filme dos anos 80 tão intimamente associado à sua época como “O Exterminador do Futuro”. O filme nos traz uma visão apocalíptica tendo uma guerra nuclear como pano de fundo, apresenta uma mulher forte como salvação da humanidade e tem uma estética absolutamente fria, representada pelos inesquecíveis óculos escuros de sol do exterminador (Arnold Schwartznegger). A iconografia do filme leva a afirmação de uma cultura em seu ápice, uma época em que a musica New Age , os penteados impecáveis e as roupas negras serviam para ocultar a insegurança latente por detrás de uma postura narcisista.

Por outro lado, e como ocorreu com filmes franceses pós-modernos, inspirados na “cultura do desenho”, como “Subway” (1985) e “Betty Blue” (1985), o mesmo filme contribuiu para a criação de um estilo de vida. Sua estrutura direta e clara, e os malabarismos de parâmetros estéticos, praticados com plena consciência, procuravam, sobretudo, conseguir um efeito superficial , uma marca cultural que definiu a década e o que inevitavelmente caracteriza o estilo cinematográfico de “O Exterminador do Futuro”.

A história, atrevida e explícita, e a sua forma de apresentação resultam num filme que transcorre praticamente sem diálogos. O segredo é a feliz combinação de gêneros -a ficção cientifica, a ação e o romance. Também, foi igualmente fundamental a escolha de Arnold Schwarzenegger como protagonista, um esportista que havia sido várias vezes campeão mundial de fisiculturismo e que triunfou internacionalmente com este filme.

Não obstante, a obsessão do filme por uma imagem aparentemente superficial da virilidade pura, acompanhada de uma crueldade fria e impassível, na realidade resultou surpreendentemente flexível, como demonstra a seqüência “O Exterminador do Futuro 2” (1991), na qual Schwarzenegger cativou o publico totalmente desprevenido com sua interpretação de um exterminador absolutamente bom caráter. Ao contrário, o primeiro filme apresenta a imagem de um assassino sem consciência.

Cameron conseguiu com “O Exterminador do Futuro” fazer um filme convincente e o personagem de Schwarzenegger resulta tão eficaz, que permite ao público ver com o olhar de andróide, descortinando, deste modo, os limites entre o humano e o artificial.




"O Exterminador do Futuro" (The Terminator)
1984 – EUA - 107 min. – Colorido – FICÇÃO CIENTÍFICA
Direção: JAMES CAMERON. Roteiro: JAMES CAMERON e GALE ANNE HURD. Fotografia: ADAM GREENBERG. Montagem: MARK GOLDBLATT. Música: BRAD FIEDEL. Produção: GALE ANNE HURD, para PACIFIC WESTERN, CINEMA 84 e HEMDALE FILM CORPORATION.

Elenco: ARNOLD SCHWARZENEGGER (Exterminador) LINDA HAMILTON (Sarah Connor), MICHAEL BIEHN (Kyle Reese), PAUL WINFIELD (Traxler), RICK ROSSOVICH (Vukovich), BESS MOTTA (Matt), EARL BOEN (Dr. Silberman), DICK MILLER (Vendedor) e SHAWN SCHEPPS (Nancy).


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O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final

terça-feira, 20 de maio de 2008

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA

“Eu odeio cobras, Jock. Eu as odeio.”


Logo no início, descobrimos que algo terrível vai acontecer, e "Os Caçadores da Arca Perdida" estabelece um ritmo frenético que não se rompe até o final do filme – um final irônico que relembra nada menos que "Cidadão Kane" (1941). É, contudo, a única referência num filme que, de qualquer forma, dedica-se exclusivamente aos gloriosos tempos dos filmes B. “Os Caçadores da Arca Perdida” é um dos mais frenéticos, engraçados, engenhosos e estilizados filmes de aventura feitos pelo cinema norte-americano. É uma homenagem às series antigas e baratas que transcendem suas inspirações para tornarem-se, de fato, em filmes reais, tais como os temos em nossa imaginação. O filme é uma colaboração entre Steven Spielberg (diretor) e George Lucas (um dos produtores executivos) que, com Philip Kaufman, escreveu a história original na qual se baseou o roteiro de Lawrence Kasdan.

Como “Guerra nas Estrelas” (1977) ajudou George Lucas em todas as formas de criação de mitos, contos e personagens fictícios, unindo-os numa obra de grande originalidade, e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), de Spielberg trouxe um alento positivo aos filmes de ficção que se tinham tornado banais, “Os Caçadores da Arca Perdida” refina todo esse material em um filme que renova as memórias de como se realizar uma película desde primórdios do cinema, embora possuindo uma e rara e muito maior sensibilidade artística.

O filme, que é sempre divertido, sem nunca ser caricato. É sobre Indiana Jones (Harrison Ford), um rude professor de arqueologia com uma aptidão para aterrissar em situações difíceis nos mais exóticos cantos do planeta e sua namorada esporádica Marion Ravenwood (Karen Allen), a filha de um arqueólogo mundialmente famoso. Quando nos deparamos com Marion pela primeira vez, ela está correndo num boteco no remoto Nepal. Como Marion parou ali administrando um negócio no Nepal nunca é explicado, mas “Os Caçadores da Arca Perdida” é genial, tanto pelas coisas que explica como pelas deixadas sem explicação.

O ano é 1936, e mostra as tentativas de Indiana e Marion, a serviço do governo norte-americano, em descobrir a Arca da Aliança antes que um grupo de arqueólogos nazistas possa apoderar-se dela. Hitler, que é descrito como um homem obcecado por coisas obscuras, está firmemente decidido em encontrar a Arca, que contém os Dez Mandamentos, colocadas ali por Moisés como originalmente escritos nas tábuas.

A Arca é referida diferentemente como: (1) capaz de conferir poderes mágicos à pessoa que se apossa dela, (2) ser alguma coisa que o homem não pode usurpar, sendo “fora deste mundo” e, por último, (3) como um veículo de comunicação com Deus. Não se imagina qual o risco de vida que Indiana e Marion têm que passar a cada segundo para evitar que a Arca seja levada até Berlim!

Após a reconciliação no Nepal, seguida da fuga da morte nos Andes, Indiana e Marion voam ao Egito onde há razoes para acreditar que os nazistas estão prestes a achar a Arca nas escavações de um templo chamado Poço das Almas. Mesmo antes de chegarem às escavações, no entanto, enfrentam diversos obstáculos a serem superados no Cairo, incluindo tentativas de assassinato, um bem sucedido seqüestro e um destino pior que a morte para Marion nas mãos de um renegado arqueólogo francês, chamado Belloq (Paul Freeman).

Não se pode contar muito da história, mas vale lembrar que Indiana e Marion, separados ou juntos, deparam-se com inúmeras situações em sua jornadas, tais como um confinamento numa tumba antiga repleta de serpentes, um ataque com flechas com veneno, comidas envenenadas, tortura com estaca em brasa, e também uma supermala, na qual Indiana, em cima do cavalo, tenta alcançar um caminhão nazista que carrega a recém descoberta Arca em direção a Cairo, com traslado para Berlim. O clímax do filme, no qual os poderes da Arca são demonstrados para todos, é quase tão surpreendente como aquela demonstrada no clímax de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977).

Harrison Ford e Karen Allen fazem um par de intensa cumplicidade, cheio de recursos; ele, com sua jaqueta, e sua visão de raios-X; ela, com sua beleza de Margot Kidder e sua habilidade como beberrona, um jeito sarcástico, mas recheado de charme. Steven Spielberg também realizou um filme que parece ter custado bilhões de dólares (foi filmado, dentre outros lugares, na Tunísia, França, Inglaterra e Havaí), mesmo que algumas tomadas de produção remetam-nos aos antigos e fabulosos filmes B.

A cidade do Cairo que vemos na tela é obviamente uma cidade ao norte da África, mas também, obviamente, não é o Cairo. Não há pirâmides à vista. Meu único protesto é que Spielberg não tenha inserido uma tomada familiar do Cairo nas cenas para termos certeza que estaríamos lá. Leslie Dilley, a diretora de arte, deveria ter insistido nisso; porém, se nós não tivemos tudo, conseguimos quase tudo. Mesmo assim, esse talvez seja o melhor filme de aventuras da década de 80.




"Os Caçadores da Arca Perdida" (Raiders of the Lost Ark)
1981 – EUA - 115 min. – Colorido – AVENTURA
Direção: STEVEN SPIELBERG. Roteiro: LAWRENCE KASDAN, baseado em argumento de GEORGE LUCAS e PHILIP KAUFMAN. Fotografia: DOUGLAS SLOCOMBE. Montagem: MICHAEL KAHN. Música: JOHN WILLIAMS. Produção: GEORGE LUCAS, para LUCASFILMS LTD.

Elenco: HARRISON FORD (Indiana Jones) KAREN ALLEN (Marion Ravenwood), PAUL FREEMAN (Dr. Rene Belloq), RONALD LACEY (Major Arnold Toht), JOHN RHYS-DAVIES (Sallah), DENHOLM ELLIOTT(Dr. Marcus Brody), ALFRED MOLINA (Satipo), WOLF KAHLER (Cel. Dietrich), ANTHONY HIGGINS (Gobler) e VIC TABLIAN (Barranca/Monkey Man).

Prêmios:
Oscar de Melhor Som (Gregg Landaker), Melhores Efeitos Visuais (Richard Edlund e Kit West), Melhor Direção de Arte (Leslie Dilley) e Melhor Montagem (Michael Kahn)/1981.

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Indiana Jones e o Templo da Perdição