“Você percebe as coisas se você presta atenção.”
Su Li-zhen (Maggie Cheung) e Chow Mowan (Tony Leung) interpretam um par casado com outras pessoas, que vivem de aluguel em quartos alugados de um mesmo prédio e descobrem que seus parceiros são amantes. O jornalista Chow e a secretária executiva Li-zhen criam um vínculo de confiança e isso se transforma em um desejo mútuo, com o qual não sabem lidar. “À Flor da Pele” trata sobre a dúvida da lealdade; é um filme muito bonito, com um espírito estonteante, que há muito tempo anda em falta no cinema. As canções de Nat King Cole tocam repetidamente ao longo do filme (isso fortalece o refinamento dos atores). O diretor utiliza o classicismo do cantor alheio à vontade do casal, que constantemente trocam olhares e intenções. Os atores parecem ser observados, à medida que a câmera os acompanha pelas esquinas, corredores e portas. Wong-Kar-Wai “pensa” através das lentes e usa sua habilidade para dar ao filme um tom quente e qualidade extasiante; não simplifica, erotizando cada movimento de sua câmera – algo que talvez muitos poucos sabem fazer hoje em dia. Tudo muito contido, até com certo grau de fetichismo – o estilo e aspecto das vestimentas de Cheung impregnam a tela com grande carga sexual.
O diretor até chegou a filmar uma cena de sexo, mas decidiu não usá-la na versão final. Talvez para não enfraquecê-lo. Se esse foi o motivo, tomou uma decisão acertada, de grande sensibilidade. Essa é uma love story, cuja intensidade deriva exatamente do fato de que nada é explicito e os corpos estão vestidos na maior parte do tempo. Li-zhen veste-se de modo a favorecer seu belo corpo longilíneo e Chow varia suas gravatas para parecer diferente a todo tempo.
A câmera atua como voyeurismo, como de relance, fitando o casal que tem seus relacionamentos em fase de dificuldade. A edição pode às vezes cansar e dar um ritmo muito lento ao filme. Porém, isso é proposital, por conta da melancolia enfrentada pelo casal. Alusivo e amargo, o filme é produto de um diretor que parece trabalhar sobretudo de forma instintiva.
Isso fica evidente na cena em que o filme parece estar chegando à hora da verdade. Li-zhen conta a Chow que sabe que ele tem uma amante e bate em sua cara. Ele a repreende, dizendo que esta não é a forma de agir. A gente se dá conta de que algo inteiramente diferente está acontecendo, e a dor fica ainda mais forte porque esta cena é também sobre uma eventual separação.
Wong Kar-Wai utiliza a música tema para dar o seu tom – não é ouvida no filme – e ele vê esses personagens através de uma miscelânia de "músicas de fossa"”. "O tempo passou. Nada que pertence a ele existe mais" é o que aparece no final. Este filme é um beijo perdido ao longo do tempo; um tempo que somente existe nos filmes, com canções gravadas em mono, com roupas feitas perfeitamente sob medida, etc. O filme é basicamente sobre isso.
"À Flor da Pele" (Fa Yeung Nin Wa)
2000 – HONG KONG - 97 min. – Colorido – DRAMA
Direção: WONG KAR WAI. Roteiro: WONG KAR WAI. Fotografia: CHRISTOPHER DOYLE E MARK LI PING-BIN. Montagem: WILLIAM CHANG SUK-PING. Música: MIKE GALASSO E UMEBAYASHI SHIGERU. Produção: WONG KAR WAI, distribuído pela USA Films.
Elenco: MAGGIE CHEUNG (Su Li-Zehn) TONY LEUNG CHIU (Wai Chow), PING LAM SIU (Ah Ping), REBECCA PAN (Sra. Suen), KELLY LAI CHEN (Sr. Ho), MAN-LEI CHAN (Sr. Koo), TSI-ANG CHIN (Amah), ROY CHEUNG (voz do Sr. Chan) e PAULYN SUN (voz da Sra. Chow).
Prêmios:
Melhor Ator (Tony Leung Chiu)/Festival de Cannes 2000; Melhor Filme de Lingua Estrangeira/British Independent Film Awards 2001.
Trailer Original:
Do mesmo diretor:

My Blueberry Nights












