domingo, 2 de março de 2008

RATATOUILLE

" Nem todo mundo pode ser um grande artista. Mas, um grande artista pode vir de qualquer lugar."

O herói é Remy (Patton Oswalt), um jovem rato que mora em algum lugar do interior da França e possui uma paixão por culinária sofisticada. Criado por “comedores de lixo”, Remy é atraído por uma sensibilidade palatar e pelo exemplo de Auguste Gusteau (Brad Garret), um famoso “chef du cuisine” que insiste a todo tempo “que todo mundo pode cozinhar”. O famoso mestre cuca já morreu e conversa com Remy nos momentos mais difíceis, tirando dúvidas e funcionando como um alter-ego do protagonista, fazendo-nos lembrar Bonaparte e Julien Sorel, em “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal.

O que Remy descobre é que todos, incluindo seu irmão aculturado, pode aprender a apreciar sabores intensos e incomuns – traduzir as reações do olfato e paladar por meio de sons e imagens é um difícil desafio, que consegue ser vencido com uma ingenuidade e simplicidade de tirar o chapéu, tanto do diretor quanto de Michael Giacchino, que compôs uma trilha sonora espetacular. A vocação culinária que torna Remy famoso o faz trilhar um caminho solitário, que o separa de sua família e amigos, levando-o à aventura, que tantos jovens antes dele tentaram, de procurar sua sorte em Paris. “La Ville Lumière”, com seus paralelepípedos e sótãos, é maravilhosamente concebida no filme.

Percebe-se de cara um completo domínio de textura e detalhes sensoriais – nos pêlos molhados do ratinho e nas ranhuras que brilham na impressão dos potes de cobre, bem como na umidade da superfície dos vegetais cortados e em inúmeros outros detalhes.
Individualmente, os ratos são muito interessantes, mas a visão de centenas deles adentrando a cozinha e as mesas é meio desagradável; porém, o diretor conhece os limites a que se deve chegar.

Talvez por causa da animação, particularmente pela intenso uso de digitação gráfica, por ser uma obra com a participação de tantos profissionais e um produto tão bem acabado – percebe-se o vultoso capital investido – acostumamos a associar os desenhos animados a seus autores empresariais: Disney, DreamWorks, Pixar e assim por diante. Mas, enquanto os efeitos especiais de “Ratatouille” demonstram uma marca registrada da Pixar, a sensibilidade que comanda a estória é marcadamente do diretor, como comentou-me em SP um conhecedor em animação.

O diretor Bird evita os usuais clichês de filmes infantis, demonstrando que uma estória simples e acessível ao grande público pode também ser inteligente e imprevisível. Na composição dos personagens, abre mão do uso de vozes de celebridades do cinema e, ao mesmo tempo, sendo tão dócil, Remy chega também a ser ácido, exigente e inseguro. Além disso, seu conflito moral – entre a família e a ambição pessoal – é conduzido com sutileza e complexidade incomuns, que os acertos e soluções dadas ao desfecho do filme soam mais muito naturais, sem nenhuma predeterminação.

E, enquanto o filme prende o espectador pela ação e os incidentes – incluem-se as perseguições, as escapadas e correrias e a ágil “coreografia” na cozinha – não há a tentativa subjugar ou oprimir o espectador pelo excesso de frenetismo. Ao contrário, o diretor integra estória e espetáculo com leveza, na dose certa, digna de um Vincente Minelli em seus melhores musicais, e molda o conto da carreira de Remy com situações e personagens interessantes.

Uma vez que nenhum restaurante parisiense deixaria um rato sobreviver em sua cozinha, Remy fecha um acordo com um desafortunado ajudante de cozinha chamado Linguini (Lou Romano), que faz as receitas de Remy, através um uma engenhosa (e hilariante) forma de controle – como usada em fantoches. A responsável por Linguini é Colette (Janeane Garofalo), uma durona sub-chefe de cozinha que, involuntariamente, torna-se a rival do roedor na disputa da atenção de Linguini. Mesmo os personagens menores – os assistentes de cozinha, os garçons, o inspetor sanitário – são marcantes.

O que está em jogo em Ratatouille não é somente a ambição de Remy, mas também a sagrado legado de Gusteau, cujo fantasma ocasionalmente aparece para ele e cujo restaurante está em franca decadência. Parte do problema se deve ao sucessor de Gusteau, Skinner (Ian Holm), que usa o nome e reputação do antigo mestre para montar uma linha de alimentos congelados.

Contra ele, Remy e o diretor Bird partem para a defesa de uma abordagem artesanal que valoriza tanto a tradição como o talento individual: receitas clássicas reeditadas com arrojo e criatividade. O grande clímax do filme, e a origem de seu título, é o preparo de um prato rústico à base de verduras – feito com força e inspiração e submetido, como aparece, a um crítico gastronômico.
Ao deparar-se com o tal ratatouille, o que o gatrônomo poderia dizer? Algumas vezes, a melhor resposta é a mais simples. Outras, “Obrigado” é o bastante.



Ratatouille (Ratatouille)
2007 – EUA - 110 min. – Colorido – DESENHO ANIMADO
Direção: BRAD BIRD. Roteiro: BRAD BIRD, baseada na estória de JAN PINKAVA, JIM CAPOBIANCO e BRAD BIRD. Fotografia/Iluminação: SHARON CALAHAN. Fotografia/Câmera: ROBERT ANDERSON. Supervisão de Animação: DYLAN BROWN e MARK WALSH. Montagem: DARREN HOLMES. Música: MICHAEL GIACCHINO. Produção: BRAD LEWIS; distribuído pela WALT DISNEY PICTURES e PIXAR ANIMATION STUDIOS.

Vozes: PATTON OSWALT (Remy), IAN HOLM (Skinner), LOU ROMANO (Linguini), BRYAN DENNEHY (Django), PETER SOHN (Emile), BRAD GARRETT (Auguste Gusteau), JANEANE GAROFALO (Colette) e PETER O´TOOLE (Anton Ego).

Trailer Original:

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

FRENESI

"Sr.Rusk, vá sem gravata."

Como no início do magnífico Psicose (1960), em Frenesi a câmera varre pelo céu da cidade e penetra nos redutos da vida cotidiana, com seus pequenos delitos e seus grandes crimes. O cadáver de uma mulher na orla do Tamisa, descoberto durante uma conferência sobre a pureza da água, constitui o começo arrepiante e ao mesmo irônico de um trillher no qual, o virtuosismo e a fluidez narrativa de Hitchcock retrata de forma dramática a coexistência do sexo e violência, de forma aparentemente normal. E, como de praxe, Hitch aparece em cena como um camelo nas primeiras cenas do filme, interpretando o único ouvinte que não aplaude o término da conferência sobre contaminação da água.

No centro comercial londrino de Covent Garden, o feirante Bob Rusk (Barry Foster), que é um psicopata, estrangula mulheres utilizando gravatas. Paradoxalmente, a agitação do lugar serve de camuflagem perfeita para seus assassinatos. Como em tantos outros filmes de Hitchcock, todos os indícios levam a polícia a outro suspeito (amigo do assassino), Richard Blaney (John Finch), antigo aviador da marinha desempregado, sem bens e sem esposa. Enquanto a Scotland Yard se esforça com astúcia em busca do assassino, a ação se desenvolve de forma a pôr fim nesse jogo de pistas falsas – em uma das cenas de estupro mais radicais da história do cinema, o mestre envolve-nos em uma vertiginosa montagem de primeiros planos e planos gerais, testemunhando as tendências maníaco-sexuais de Bob Rusk, que resultam no assassinato de Brenda (Barbara Leigh-Hunt), ex mulher de Richard Blane.

A cena do estrangulamento de Brenda remete-nos ao famoso assassinato de Marion Crane (Janet Leigh) na seqüência da ducha em Psicose. Por outro lado, a terrível cena do homicídio reflete ao mesmo tempo o esforço físico que tem que ser feito para matar uma pessoa. Hitchcock já havia mostrado isso em Cortina Rasgada (1966). Mas, Hitchcock escolhe a hora certa de aflorar o terror, mesmo que não o mostre declaradamente - quando Bob Rusk convida Bárbara para sua casa, amiga de Blaney, a câmera movimenta-se aos poucos escada abaixo até a movimentada rua, deixando para a imaginação do espectador os macabros detalhes que estão ocorrendo simultaneamente.

Ainda que Rusk continue assassinando suas vítimas sem que nada o impeça, as tentativas de Blaney em evitar sua captura, através de um absurdo jogo de pega-pega, levam-no a sérios apuros. Aparentemente, não há nenhuma escapatória. Nem mesmo assassinato seguinte de Rusk, o de Bárbara, a ex-mulher de Blaney, e a presença da prova – um alfinete de sua gravata na mão rígida da vítima - constituem provas convincentes em relação ao verdadeiro assassino. Somente dão lugar a uma grotesca eliminação de provas em um caminhão de batatas.

Tampouco em outras tomadas, Hitchcock abre mão do humor negro e das ironias deste tipo. São especialmente valiosas, literalmente, as tentativas desesperadas do inspetor Oxford, em colocar-se à altura do interesse que sente sua mulher com o gosto pela cozinha francesa. Nisso consiste a desconcertante peculiaridade dos filmes de Hithcock – a alternância de momentos extremamente dramáticos e de humor absurdo, que alcançam seu ápice em Frenesi, sua última obra .

Ao mesmo tempo, Frenesi é um retrato da cultura cinematográfica dos anos 70, que vai se liberando paulatinamente das rígidas normas de produção vigentes, ao representar o sexo e a violência. Mas, ainda que este filme Hitchcock rompa todas os ditames cenográficos do código de produção, no final a investigação policial aponta para o homicida da forma mais convencional.



Frenesi (Frenzy)
1972 – INGLATERRA/EUA - 116 min. – Colorido - SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: ANTHONY SHAFFER, baseado no livro GOODBYE PICCADILLY, FAREWELL LEICESTER SQUARE, de ARTHUR LA BERN. Fotografia: GILBERT TAYLOR. Montagem: JOHN JYMPSON. Música: RON GOODWIN. Produção: ALFRED HITCHCOCK para UNIVERSAL PICTURES.

Elenco: JON FINCH (Richard Blaney), BARRY FOSTER (Robert Rusk), BARBARA LEIGH-HUNT (Brenda Blaney), ANNA MASSEY (Babs Milligan), ALEC MCGOWEN (Inspetor Chefe Oxford), VIVIEN MERCHANT (Mrs. Oxford), MICHAEL BATES (Sargento Spearman), BILLIE WHITELAW (Hetty Porter), BERNARD CRIBBINS (Felix Forsythe) e JEAN MARSH (Monica Barlin).


Trailer Original:

domingo, 24 de fevereiro de 2008

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA

"Gosto do fedor das ruas. Limpa meus pulmões."

Lower East Side de Manhattan, 1923: o garoto judeu Noodles e seus quatro amigos, todos malandros de rua como ele, tentam extorquir um bêbado. Mas desistem quando um estranho, Max, aproxima-se. Esse será o começo de uma estreita amizade que unirá Noodles e Max durante mais de quarenta anos. Depois de dedicar-se às mais diversas atividades ilegais, ambos separam-se e voltam a encontrar-se em circunstâncias diferentes.

Desde a adolescência, Max e Noodles mostram um instinto para negócios. Com o ímpeto da juventude, dedicam-se a comercializar bebidas alcoólicas no mercado negro, durante o período da Lei Seca. Primeiro, através de gângsters mais experientes e, depois, por conta e risco próprios. Fazendo isso, vão longe demais: negam-se a pagar sua parte ao chefão local e este mata o mais jovem do grupo. Noodles inicia uma vingança sangrenta e, na disputa, mata um policial. Noodles é preso e condenado a dez anos de prisão.

Quando é libertado, Noodles volta novamente aos seus antigos amigos, que durante o período transformoram as atividades do grupo em um império de negócios fraudulentos, entre eles uma taverna clandestina. Max (James Woods), Noodles (Robert de Niro) e seus amigos Patsy (James Hayden) e Cockeye (William Forsythe) se convertem, assim, em "peixões" do crime organizado de Nova Iorque.

Prostituição, contrabando de bebidas e roubo de jóias são para eles parte de suas rotinas. Também, alguns empresários, cujos trabalhadores estão em greve, contratam seus serviços para que "convençam" seus empregados voltarem ao trabalho. Noodles é, de todos, o menos ambicioso, um bandido da velha guarda, que dá importância a valores como lealdade e amizade. Max, por outro lado, é um moderno e ambicioso homem de negócios, cuja cobiça o leva à idéia suicida de assaltar o FED. Noodles vê-se obrigado a proteger seu amigo de si mesmo...

A força do relato cronológico de "Era Uma Vez na América", de Sergio Leone, não é fácil de ser notado na grande tela. Ainda que a história seja apaixonante, a direção de arte impecável, a trilha sonora de Ennio Morricone nostálgica e a fotografia de Tonino Delli Colli nos ofereça cenas repletas de poesia que chegam a tirar o fôlego, a verdadeira força motriz do filme recai no estilo narrativo - uma montagem virtuosa de tomadas em flashbacks.

"Era uma Vez na América" é contado em três níveis cronológicos diferentes - a infância de Noodles (1923); seu amadurecimento (1933) e sua velhice (1969). No que poderia ser um ínicio de filme de trinta minutos, ele enfatiza os dois últimos periodos. Por várias vezes, a trama se situa na infância do protagonista e, a partir deste ponto, desenvolve-se mais ou menos cronologicamente com algum salto ocasional para o "futuro" de Noodles. A mastria narrativa de Leone fica patente no toque do telefone, que confunde o espectador ao interligar três cenas no início do filme. Toca o telefone durante uma sequência em que Noodles fuma ópio; segue tocando em outra cena que se desenvolve em uma rua e, finalmente, alguém coloca o aparelho em um bar. Somente, no final do filme. quando a conversa é retomada, nos damos conta de sua importância.

O filme é cheio de situações de pura magia, tal qual o garoto louco para perder a virgindade - aguarda a menina, sentado na escada, com um pedaço de bolo para presenteá-la. Ao demorar, ele não resiste à tentação e come o doce - o despertar do desejo em uma criança raramente foi expressado de forma tão sublime na telona.

Com seu estilo narrativo, Leone nos oferece um entretenimento cheio de quebra-cabeças, que deve ser montado conforme o desenvolvimento da trama. Essa estrutura, que pode ser interpretada como o processo de evocação de Noodles a respeito de sua própria vida, determina toda a atmosfera do filme. No ínicio, vemos um velho herói vencido e encurralado, buscando o esquecimento no ópio, que volta a recordar seu passado.

Esta triste passagem no início do filme, dota a história de um clima melancólico que permeia o filme todo. Desde o princípio, já sabemos que não assistimos somente as aventuras de um grupo de garotos em busca de sobrevivência pelas ruas - mesmo que o seu entusiamo nos atinja ou, posteriormente, nos hipnotize com a atitude irônica e autocomplacente dos velhos gângsters.

Vale destacar também que o filme não glorifica em nenhum momento os protagonistas, não os torna heróis. E, além disso, preocupa-se em mostrar o alto preço a ser pago pelo estilo de vida que adotaram. Por outro lado, e muito mais grave, fica aparente a incapacidade dos protagonistas para conviverem em harmonia na sociedade. Noodles é incapaz de manter uma relação com Deborah (Elizabeth McGovern), a mulher que ama desde a infância. O ponto máximo de humilhação de ambos ocorre quando ele a violenta porque Deborah não quer abandonar Nova Iorque. No filme, o sexo equipara-se constantemente à violência e ao poder. No final, sequer a amizade sobrevive. O víncuulo entre Noodles e Max rompe-se quando este último o trai.

"Era Uma Vez Na América" não é somente uma história que fala sobre a amizade e que faz homenagem aos filmes clássicos de gângsters de Hollywood, mas também é uma visão do lado obscuro do sonho americano e um final amargo para a trilogia de Leone. Cinema em grande estilo.



Era Uma Vez Na América (Once Upon a Time in America)
1983 - EUA/ITÁLIA - 167 min. – Colorido - DRAMA
Direção: SERGIO LEONE. Roteiro: SERGIO LEONE, LEONARDO BENVENUTI, PIERO DE BERNARDI, ENRICO MEDIOLI, FRANCO ARCALLI e FRANCO FERRINI, baseado no livro THE HOODS, de HARRY GREY. Fotografia: TONINO DELLI COLLI. Montagem: NINO BARAGLI. Música: ENNIO MORRICONE. Produção: ARNON MILCHAN para EMBASSY INTERNATIONAL PICTURES, WARNER BROS., WISHBONE, PSO INTERNATIONAL e RAFRAN CINEMATOGRAFICA.

Elenco: ROBERT DE NIRO (David Noodles Aaronson), JAMES WOODS (Max), ELIZABETH MCGOVERN (Deborah), JENNIFER CONNELY (Deborah, criança), TREAT WILLIAMS (Jimmy O´Donell), TUESDAY WELD (Carol), BURT YOUNG (Joe), JOE PESCI (Frankie Monaldi), DANNY AIELLO (Chefe de polícia Aiello) e WILLIAM FORSYTHE (Philip Cockeye Stein) e JAMES HAYDEN (Patrick Patsy Goldberg).


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sábado, 23 de fevereiro de 2008

DE VOLTA PARA O FUTURO

"Que diabo é John F. Kennedy?."

Os relógios avançam em uma tela escura. A câmera mostra lentamente dezenas de despertadores, relógios automáticos e e parede; a partir das primeiras cenas, dezuzimos que "De Volta para o Futuro" se ocupa do fenômeno do tempo. Os eletrodomésticos, acionados por um temporizador, movevem-se como loucos. Torradas queimadas torram uma a uma, um braço de robô joga sem parar comida para cachorros numa tigela transbordada de cheia que leva a inscrição "Einstein", uma cafeteira assoviando derramando um bocado de café, etc. A segunda conclusão a que chegamos é que a ciência e tecnologia são suscetíveis a mudanças e necessitam de controle humano. Parece que tudo se reduz à escolha do momento adequado para se fazer as coisas. É uma mostra elegante e sucinta, sem teorias mirabolantes; quem esperava deste filme um discurso pedante e chato sobre o tempo e a tecnologia ficaram decepcionados, pois "De Volta para o Futuro" é um dos filmes mais bem sucedidos e divertidos dos anos oitenta. Não se trata somente de um retrato dos EUA e do pós-guerra, mas também de uma experiência sobre o fenômeno do tempo e seus avanços tecnológicos.

Hollywood tem a tendência de fazer uma auto-análise com roteiros ágeis e muito bem construídos, e este filme também funciona como um relógio. Em 1985, Marty McFly (Michael J. Fox) viaja três décadas de volta no tempo, através de uma máquina do tempo (na verdade um carro fora-de-série), construída pelo cientista maluco Doc Brown (Christopher Lloyd)- uma mistura de Einstein e professor Pardal. Ali, tem que resolver dois problemas, antes que possa "voltar ao futuro". Tem que encontrar uma fonte de energia capaz de proporcionar a potência necessária para viajar no tempo, dado que não se dispunha de plutônio em 1955, bem como fazer com que seus pais namorem, pois, caso isso não ocorra, ele não nascerá. O segredo deste filme é que o elenco e os cenários, onde ocorre a ação - a ambientação é quase tão real como o mostrado em "O Show de Truman" (1998), de Peter Weir - são absolutamente idênticos em 1955 e 1985, o que tornam mais evidentes as diferenças entre as duas épocas.

Segundo a célebre máxima de Karl Marx, a história se repete; primeiro, como tragédia e, depois, como farsa. Em "De Volta para o Futuro", Hollywood catapulta o público diretamente para a segunda. A família que Marty deixa para trás quando viaja a 1955 é formada por um conjunto de patetas fracassados. No final do filme, quando Marty volta ao presente, depois dar dicas a seu pai, sua família fora transformada em yuppies por excelência - o exemplo perfeito do sonho americano dos anos oitenta.

Segundo a moral conservadora do filme, deveríamos buscar os erros cometidos no passado e tentar corrigi-los a tempo. Neste caso, "a tempo" significa antes do Movimento dos Direitos Civis, antes da Guerra do Vietnã, Woodstock e Watergate, de forma que o presente da artificial Hill Valley assemelhe-se com o sonho de algum dos assessores da campanha eleitoral do então presidente Ronald Reagan.

Visto no contexto da Era Reagan, "De Volta para o Futuro" é um filme muito importante - obviamente que a crítica à época identificara seu título com as intenções secretas de Reagan - de acordo com sua visão retrógrada do progresso. O mesmo Reagan aparece indiretamente no filme duas vezes - A Rainha de Montana (1954), com Barbara Stanwyck e Ronald Reagan, é projetado no cinema em 1955. Engraçado que, trinta anos são projetados filmes pornográficos no mesmo cinema.

E quando, em 1955, o jovem Doc Brown pergunta ao viajante do tempo quem será o presidente dos EUA em 1985, para tirar a prova, a resposta natural de Marty, "Reagan", não contribui em nada para aumentar sua credibilidade. Não obstante, esta e outras especulações servem simplesmente como um atrativo a mais e pertencem a outro nível de interpretação, porque, diante disso tudo, "De Volta para o Futuro" é uma comédia magnífica. Retrata duas gerações, valendo-se de alusões divertidas e inteligentes da cultura pop, e consegue evocar duas épocas da história americana posterior à Segunda Guerra Mundial - com muita ironia e sarcasmo.




De Volta para o Futuro (Back to the Future)
1985 - EUA - 111 min. – Colorido - Comédia/Ficção Científica
Direção: ROBERT ZEMECKIS. Roteiro: ROBERT ZEMECKIS e BOB GALE. Fotografia: DEAN CUNDEY. Montagem: ARTHUR SCHMIDT e HARRY KERAMIDAS. Música: ALAN SILVESTRI (tema de Huey Lewis e Chris Hayes). Produção: NEIL CANTON e BOB GALE para AMBLIN ENTERTAINMENT e UNIVERSAL FILM USA.

Prêmios: Oscar de Melhor Efeito Sonoro (Charles L. Campbell e Robert Rutledge)/1985.


Elenco: MICHAEL J. FOX (Marty McFly), CHRISTOPHER LLOYD (Dr. Emmett Brown), LEA THOMPSON (Lorraine Baines-McFly), CRISPIN GLOVER (George McFly), THOMAS F. WILSON (Biff Tannen), CLAUDIA WELLS (Jennifer Parker), MARC MCCLURE (Dave McFly), WENDIE JO SPERBER (Linda McFly), GEORGE DICENZO (Sam Baines) e JAMES TOLKAN (Sr. Strickland).


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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

FANNY E ALEXANDER

"Tudo pode acontecer, tudo é plausível e provável. O espaço e o tempo não existem."

Desde as primeiras cenas de Fanny e Alexander, Ingmar Bergman define sua posição e mostra claramente quais são suas intenções: o começo do filme aparece um menino contemplando um teatro de marionetes. Um a um desmonta todos os elementos da decoração. De igual modo, o garoto vai colocando a cara e desmascarando o mundo dos adultos. O ponto de vista deste filme é, sobretudo, do menino de 10 anos, e o drama se desenvolve a todo momento sob o olhar atento do jovem alter ego de Bergman.

Alexander (Bertil Guve) e sua irmã de oito anos (Pernilla Allwin) são os membros mais jovens dos Ekdahl, uma família que dirige um teatro de uma pacata cidade sueca no início do século XX. A avó é quem dita as normas do clã com sabedoria e paciência. A vida dos Ekdahl transcorre assim turbulenta e cheia de surpresas, oferecendo a Alexander constante inspiração para novos e fantásticos jogos. O garoto sonha em fazer uma carreira brilhante sobre os palcos, tal qual sua avó e mãe, mas a morte do pai mudará seus planos.

Ao morrer seu marido, Emilie (Ewa Frölig), a jovem viúva, casa-se com o bispo Edvard Vergerus (Jan Malmsjö). Em nome do amor e do respeito, renuncia à carreira de atriz e muda-se com seus filhos para a casa do bispo. No clima rígido(e hipócrita) de seu novo lar, as crianças vivem intimidadas e atormentadas. Mas Alexander é um rebelde. Na hora da oração à mesa, recita indecências pouco cristãs e com sua astúcia cruel e infantil consegue freqüentemente tirar seu padastro do sério. O bispo trata-o sem misericórdia e, em lugar do amor de Deus, Alexander conhece muito melhor o chicote e os métodos humilhantes da Inquisição. O lar havia se transformado para a mãe e seus filhos em um inferno puritano e a todos parece um milagre quando conseguem escapar dele.

O filme é uma colcha de imagens barrocas e de grande dramaticidade, onde Bergman elabora a matéria prima bruta de sua própria infância. A estória dos Ekdahl (não parece uma casualidade que o apelido da família nos lembre a do fotógrafo da obra de Ibsen, "O Pato Selvagem"), trata sobre a necessidade do teatro, da imaginação na vida humana. O próprio Bergman era filho de pastor e, talvez porisso, o filme não deixa dúvida sobre a opinião do diretor sobre a atitude de certos padres, para quem o amor e o temor a Deus não são mais que meros instrumentos de poder que utilizam com a finalidade de dominar e tiranizar sues semelhantes.

Oscar Ekdahl, o pai de Fanny e Alexander, morre de um infarto durante um ensaio de Hamlet, na qual interpretava o papel de espírito. Desde então, ajuda ocasionalmente seu filho , que se sente um pouco como o personagem de Shakespeare. Bergman completa assim de uma forma fluida sua história familiar de forma realista com uma pitada sobrenatural. O diretor se esforça também para contrastar o dionisíaco amor pela vida que se respira na casa dos Ekdahl com a opressiva disciplina da residência episcopal, e pretende explorar o inevitável conflito entre fantasia e razão.

Este filme tem uma duração de três horas e meia, mas foi feita uma versão para a televisão - de quatro episódios - com duração de 312 minutos. Para Bergman, Fanny Alexander mostra um balanço de sua vida e de sua obra. Ainda que nos últimos vinte anos o prestigioso diretor - morto no ano de 2007 - tenha dirigido inúmeros trabalhos para o teatro e televisão, este é até hoje, seu último longa-metragem para o cinema (para infelicidade de todos nós).Fanny e Alexander foi o primeiro filme estrangeiro a ganhar quatro prêmios Oscar. Sublime.



Fanny e Alexander (Fanny och Alexander)
1982 - SUÉCIA/FRANÇA/ALEMANHA - 187 min. – Colorido - Drama
Direção: INGMAR BERGMAN. Roteiro: INGMAR BERGMAN. Fotografia: SVEN NYKVIST. Montagem: SYLVIA INGEMARSSON. Música: DANIEL BELL. Produção: JÖRN DONNER para SWEDISH FILMINSTITUTE SVT 1, PERSONA FILM e TOBIS.

Prêmios: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (Jörn Donner), Melhor Fotografia (Sven Nykvist), Melhor Direção de Arte (Anna Asp e Susanne Linghelm) e Melhor Figurino (Marik Vos-Lundh)/1982.



Elenco: BERTIL GUVE (Alexander), PERNILLA ALLWIN(Fanny), BÖRJE AHLSTEDT (Carl Ekdahl), ALLAN EDWALL (Oscar), EWA FRÖLING (Emilie), JARL KULLE (Gustav Adolf Ekdahl), GUNN WÄLLGREN (Helena Ekdahl), JAN MALSMSJÖ (Edvard Vergerus), HARRIET ANDERSSON (Justina), ANNA BERGMAN (Hanna Schwartz) e LENA OLIN (Rosa).


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BLADE RUNNER

"És tão diferente. És tão perfeito."

Los Angeles, ano 2019. Edifícios altos perdem-se nos céus nublados de poluição. As chaminés das fábricas soltam fumaça e a chuva ácida acumula-se entre os espaços que separam as gigantescas construções iluminadas com neon. As ruas da cidade estão povoadas por uma exótica miscigenação racial, ainda que os brancos se refugiem enormes prédios. Para alguns cuja permissão é dada, viver nas chamadas "colonias do mundo exterior" é a rotina. Para colonizar esses novos planetas, a companhia Tyrell Corporation desenhou os chamados replicantes. Esses andróides foram proibidos de visitarem a Terra. Entretanto, alguns desobedeceram essa regra e a patrulha dos blade runner têm a incumbência de caçá-los e destruí-los. Seria uma alusão ao Dia do Juízo Final, no qual somente os inocentes escapam do inferno? Pode ser. Nada neste filme rico em referências filosóficas e teológicas parece contradizer isso.

Rick Deckard (Harrison Ford) era um blade runner. Desiludido com esse caráter lacônico dos heróis do cinema noir, o ex-agente caminha pelas ruas molhadas pela chuva. Era o melhor em sua profissão e por isso é chamado por seus superiores para retornar à atividade, quando um pequeno grupo de replicantes - 2 homens e 2 mulheres - conseguem chegar a Los Angeles. Os andróides, programados para viverem até 4 anos, querem saber quanto tempo de vida ainda lhes resta e, assim, se é possível prolonga-la.

O líder dos replicantes, Roy Batty (Rutger Hauer) é loiro, forte, quase demoníaco. O encontro com seu criador, Eldon Tyrell (Joe Turkel), um Frankenstein futurista, resulta em uma profunda decepção. Tyrell que vive em uma pirâmide semelhante às construções maias e dorme em uma cama quase papal, não escuta as súplicas de Roy para prolongar sua vida. Assim, Roy, o anjo caído, mata seu criador, pai e Deus ao mesmo tempo.

O filme Blade Runner - baseada no livro "Os andróides sonham com as ovelhas elétricas?” (1968), de Philip K. Dick, que também escreveu a estória na qual se inspira Desafio Total (1990), foi um fracasso comercial, mas pode ser considerado como um marco no gênero da ficção científica. É um conto filosófico, deprimente, mas com uma extraordinária e impressionante direção de arte, uma sofisticada iluminação e uma grandiosa trilha sonora (Vangelis). Na minha opinião, um dos filmes mais significativos da década de 80 Poder-se-ia colocar a etiqueta "pós-moderno" e atribuir sua força ao ecletismo do diretor. Scott mostra talento para integrar diversos elementos arquitetônicos, detalhes de vestuário e símbolos de diferentes culturas e épocas.

O filme utiliza de forma econômica códigos de diversas naturezas, que assustam e resumem a confusão babilônica na linguagem que se ouve pelas ruas de Los Angeles. Inspirado no clássico de Fritz Lang, Metropolis (1926) e no visual do cinema noir, as imagens de Edward Hopper ou nos quadrinhos de Moebius, Ridely Scott consegue criar uma obra extravagante que convida o público a questionar-se sobre a essência da identidade humana. O substrato do filme vai-se mostrando pouco a pouco ao longo do filme, que trata aspectos do universo consciente e subconsciente. A semelhança fonética entre o nome do protagonista, Deckard e do matemático Descartes, é somente mais um dos inúmeros elementos que sugerem o conteúdo filosófico existente no filme.


Scott volta a utilizar do potencial homônimo das palavras aproveitando a semelhança fonética das vozes inglesas. O olho é um símbolo universal de reconhecimento e representa um sentido de auto-conhecimento "único" nos seres humanos. Mas em Blade Runner, os androides também são dotados com esse nível de consciência. "Não somos máquinas, Sebastian, somos seres físicos", explica Batty em uma ocasião, falando de sua característica humana e aludindo assim a um dos temas mais importantes dos anos 80: o corpo.

É precisamente o corpo que faz dos replicantes seres humanos. Rachel (Sean Young), a secretária de Elson Tyrell, fala a Deckard o risco de sua profissão, quando lhe pergunta se não havia matado alguma vez um ser humano, por engano- a pergunta sensibiliza o espectador, já que as diferenças entre o ser humano e sua criação são intangíveis. A própria Rachel envereda entre dois limiares. Ainda que sempre acredite ser humana, finalmente encara a realidade e descobre ser uma andróide; porém, de uma casta diferente. Rachel foi programada com a experiência da sobrinha de Tyrell, o que lhe dá a ilusão de ter uma biografia. Suas lembranças estão baseadas em fotos. E é também a fotografia o meio pelo qual os replicantes são descobertos.

Deckard utiliza a imagem de um quarto de hotel vazio como faria um detetive do século XXI ou, ao menos, como se acreditava que um detetive faria na década de 80. Com a ajuda de um aparelho chamado “Esper” amplia fragmentos de uma foto em um monitor. Deste modo, consegue uma espécie de visão de raio-x que permite entrar nos diversos níveis de profundidade do espaço em duas dimensões. Deckard descobre a imagen de uma mulher refletida num espelho. O detetive envereda para um investigação que conduz o espectador a uma viagem pela arte ocidental . Ridley Scott nesta cena, faz alusão a vários quadros, entre eles, “O Casal Arnolfini” (1434), de Jan van Eyck, uma pintura que mostra os dois protagonistas, e além disso o pintor e sua assistente refletidos num espelho.

O gosto de Scott em dar volta aos paradigmas culturais contribuem sem dúvida para dar uma aura de fascinação que o filme provoca, até o ponto que algumas de suas imagens foram convertidas em recordações de nosssa memória visual coletiva, como, por exemplo, quando Deckard segue a encantadora de serpentes Zhora através das ruas caóticas, labirínticas e abarrotadas de Los Angeles. Finalmente dispara tiros na mulher, que cai em câmera lenta sobre uma vitrine. Poder-se-ia dizer que esses fragmentos de cristal representam a realidade feita em pedaços pela troca de papéis que se dá até o final da estória. Deckard se converte em perseguido e a andróide Batty, é um indivíduo complacente e generoso.

Batty salva a vida do blade runner no último minuto e morre em seu luigar. A diferença moral entre replicante e ser humano não mais existe. Sobretudo quando temos cada vez mais indícios de que o próprio Deckard pode ser um andróide. Em 1992 foi lançada a versão do diretor, que suprime a voz em off do narrador e o final feliz – o que faz essa teoria cada vez mais plausível. Em julho de 2002, o próprio Scott afirmou que Deckard era um andróide. Harrison Ford, escandalizado, disse que durante a filmagem o diretor havia assegurado o contrário. Assim o debate continua aberto...



Blade Runner - O Caçador de Andróides (Blade Runner)
1982 - EUA - 117 min. – Colorido - Ficção Científica
Direção: RIDLEY SCOTT. Roteiro: HAMPTON FANCHER e DAVID PEPLOES, baseado no livro "OS ANDRÓIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?". Fotografia: JORDAN CRONENWETH. Montagem: MARSHA NAKASHIMA e TERRY RAWLINGS. Música: VANGELIS. Produção: MICHAEL DEELEY para THE LADD COMPANY e BLADE RUNNER PARTNERSHIP.

Elenco: HARRISON FORD (Rick Deckard), SEAN YOUNG (Rachel), EDWARD JAMES OLMOS (Gaff), M. EMMET WALSH (Bryant), DARYL HANNAH (Pris), WILLIAM SANDERSON (Sebastian), MAUREEN STAPLETON (Emma Goldman), BRION JAMES (Leon), JOE TURKEL (Eldon Tyrell), JOANNA CASSIDY (Zhora) e MORGAN PAULL (Holden).


Trailer Original:

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

REDS

"Se tens a ilusão de discutir com um homem sobre a revolução antes de ir para a cama com ele, isso não é sexo, mas uma obra de caridade."

Louise Bryant (Diane Keaton) chega a Portland de 1915. Vai a festas sem o marido, trabalha como jornalista e, em uma exposição de fotos, aparece nua em uma obra. No jornalista John Reed (Warren Beatty), Louise encontra um espírito livre semelhante ao seu. John, que viajou pelo mundo, foi convidado a dar uma conferência em um clube liberal da cidade, sobre a guerra na Europa. Ao invés de esquentar a discussão, John joga um balde de água fria no fogo patriótico dos que estavam a favor da guerra – segundo ele, a guerra somente havia sido provocada por problemas econômicos.

Louise decide seguir John a Nova Iorque. Chegam a Greenwich Village, têm contato com um universo de artistas e boêmios da época, tal como o escritor Eugene O`Neill (Jack Nicholson). Tudo isso acaba resultando em uma convivência monótona com John e que Louise tem dificuldade de suportar. Mudam-se para a cidadela rural de Princetown. A partir de então, algumas vezes juntos e às vezes separados, chegam a Chicado, para finalmente seguirem rumo à Europa, cenário de batalha da Primeira Guerra Mundial, na qual os EUA acabavam de entrar.

Finalmente, em 1917, já casados, chegam à Rússia, onde testemunham a Revolução de Outubro. Impressionados pela insurreição proletária, retornam aos EUA para lutarem pelos direitos dos trabalhadores.

Louise pergunta a John se voltaria a Nova Iorque na qualidade de esposa ou amante. John responde “espere; afinal é quase dia Ação de Graças”. O ator, diretor e roteirista Warren Beatty fez do seu personagem John Reed um patifão sedutor, apaixonado defensor dos direitos dos oprimidos. Esse perfil descreve bem o John Reed real, a quem o escritor Upton Sinclair definiu uma vez como sendo um “playboy revolucionário”. O filme mostra de forma fiel a vida do casal de jornalistas John Reed (1887-1920) e Louise Bryant (1885-1936). Ambos estiveram na Rússia durante a Revolução Bolchevique – uma experiência que Reed narrou no livro “Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo” (1919).

O filme é muito curioso: Porque Warren Beatty decidiu realizar um filme de três horas de duração sobre a vida de ativistas políticos comunistas em prol dos direitos sindicais, em plena Era Reagan? A crítica ácida supostamente contida nesse filme em meio ao clima político é somente mais uma de suas inúmeras virtudes.

A produção é extraordinária. “Reds” é uma estória épica e visceral sobre o amor em tempos de revolução, que faz lembrar “Doutor Zivago” (1965). No entanto, neste filme o romance é tratado de forma sarcástica ainda que a densidade política seja mostrada com uma sensibilidade e emoção que às vezes beira a pieguice. Porém, nunca é mostrada uma imagem idealizada dos bolcheviques. À medida que o filme vai chegando ao final pode-se observar com mais clareza o quanto era insignificante para eles as liberdades individuais.

Com esse filme, Warren Beatty pretendeu criar algo mais do que uma estória épica e introduziu, de vez em quando, testemunhos da época. Ainda que essas entrevistas não tenham sido reais, mas sim interpretadas por atores, elas contribuem para manter aberto e fluido o ritmo da narração. E, nessas ocasiões, inclusive, chega-se a questionar certos aspectos da estória, como por exemplo, quando Louise e Eugene O´Neill aparecem juntos na tela e um testemunho diz que não havia ficado claro se os dois tiveram um caso amoroso.

Os diferentes níveis da estória se completam maravilhosamente e resultam em um filme harmônico em que se fica nítida a paixão com que foi concebido e rodado. Os quatro anos que Warren Beatty dedicou ao projeto foram recompensados com doze indicações ao Oscar no ano de 1981, tendo sido agraciado com os prêmios de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Atriz Coadjuvante.



Reds (Reds)
1981 - EUA - 195 min. – Colorido - Drama
Direção: WARREN BEATTY. Roteiro: WARREN BEATTY e TREVOR GRIFFITHS. Fotografia: VITTORIO STORARO. Montagem: DEDE ALLEN e CRAIG MCKAY. Música: STEPHEN SONDHEIM e DAVE GRUSIN. Produção: WARREN BEATTY para a PARAMOUNT PICTURES.

Elenco: WARREN BEATTY (John Reed), DIANE KEATON (Louise Bryant), EDWARD HERRMANN (Max Eastman), JERZY KOSINSKI (Grigori Zinoviev), JACK NICHOLSON (Eugene O´Neill), PAUL SORVINO (Louis Fraina), MAUREEN STAPLETON (Emma Goldman), GENE HACKMAN (Pete van Wherry) e NICOLAS COSTER (Paul Trullinger).

Prêmios: Oscar de Melhor Diretor (Warren Beatty), Melhor Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton) e Melhor Fotografia (Vittorio Storaro)/1981.


Trailer Original: