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segunda-feira, 6 de julho de 2009

DESENCANTO

“Ainda há tempo.”


Uma pequena grande jóia cuja história já deve ter sido escrita, lida, filmada e re-filmada diversas vezes. Desta vez, trata-se de uma peça em um ato, escrita e roteirizada por Noel Coward. É um drama intimista que aborda o breve, porém marcante, romance casual entre uma mulher e um homem, ambos casados. A maior parte da ação acontece numa estação de trem de uma pequena cidade inglesa, na qual os passageiros viajam a pequenas distâncias a trabalho ou passeio. Laura Jesson (Celia Johnson) é uma mulher comum, de classe média, dona de casa, mãe de dois filhos e aparentemente feliz, que se encontra casualmente com um médico, Alex (Trevor Howard), durante um dia em que vai às compras. O inocente e casual acontecimento, renovado a cada semana, vai-se transformando paulatinamente em uma forte afeição, que de certa forma choca e toma o casal de surpresa. Durante os breves encontros e as sutis trocas de palavras, colocam em xeque suas convenções e laços emocionais. Depois, cada um parte de volta para casa.

Obviamente há algumas fragilidades na história – a súbita afeição do casal acontece mais rapidamente do que as circunstâncias poderiam justificar. Também, a “cegueira” do marido de Laura, Fred (Cyril Raymond), é de um exagero incomum. Mas o conjunto é apresentado de forma delicada e afetuosa - com tanta naturalidade na caracterização de detalhes – que as discrepâncias acabam sendo permitidas.

Embora a experiência extraconjugal do casal não se consuma plenamente, a restrição a isso não é tão importante quanto aquela existente no campo emocional. Embora possa transparecer algum moralismo, isso não ocorre. Tudo é narrado em flashback, de forma bastante sensível pelo diretor David Lean.

A atriz Celia Johnson tem uma atuação memorável, como a dona de casa em crise existencial e emocionalmente abalada. Seu rosto é fotografado sem glamour, simples, mas ressaltando sua profunda expressividade no olhar, através de closes precisos. Trevor Howard, que sem dúvida não é um astro, está à altura e faz um companheiro crível neste romance. Também excelentes estão os personagens de Joyce Carey, Cyril Raymond, Everley Gregg and Stanley Holloway.




"Desencanto" (Brief Encounter)
1945 – INGLATERRA - 86 min. – Preto e Branco – ROMANCE
Direção: DAVID LEAN. Roteiro: NOEL COWARD, baseado na peça “STILL LIFE”, do autor. Fotografia: ROBERT KRASKER. Montagem: JACK HARRIS. Música: RACHMANINOFF. Produção: NOEL COWARD, distribuído pela PRESTIGE PICTURES, Inc.

Elenco:
CEILA JOHNSON (Laura Jesson) TREVOR HOWARD ( Dr. Alec Harvey), CYRIL RAYMOND (Fred Jesson), JOYCE CAREY (Garçonete), STANLEY HOLLOWAY (Guarda da Estação), VALENTINE DYALL (Stephan Lynn), EVERLEY GREGG (Dolly Messiter), MARGARET BARTON (Beryl) e DANNIS HARKIN (Stanley).



Cenas do Filme:


Assista também:



Lawrence da Arábia

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

ANÔNIMO VENEZIANO

“Era bom demais para durar”


Enrico (Tony Musante), um músico aspirante a maestro e Valeria (Florinda Bolkan) foram casados por onze anos e estão separados há oito. Após longa ausência, Enrico a chama de Ferrara, onde ela vive com o filho do casal e um amante rico e mais velho, para um reencontro em Veneza. Foi nessa cidade que se conheceram durante os tempos de faculdade – onde a forte paixão entre eles nasceu, acabou e, durante o dia, renasce. Porém, há um problema: Enrico tem uma séria doença. “Anônimo Veneziano” é um drama romântico ítaliano, absolutamente aclimatado e vivido em Veneza – com seu o canal, suas gôndolas, suas “piazzas” e igrejas. Foi dirigido e parcialmente escrito por Enrico Maria Salerno para parecer um filme intimista. Porisso, utiliza-se de diálogos de relacionamento, onde a questão principal é como tentar resolver um casamento no qual a incompatibilidade de gênios é maior que o sentimento que une o casal. Entretanto, não necessariamente esse seja o ponto principal do filme, mas, sobretudo, o esclarecimento de uma relação que não deu certo – e que nunca dará. Não porque o casal não queira, mas porque o curso das coisas assim os levou a uma irreversível separação.

Há alguns momentos em que o diretor inevitavelmente mutila um clichê bacana (se é que se pode chamar um clichê disso), quando Enrico e Valeria voltam a um restaurante típico que costumavam ir quando jovens – “O que você tem?”, Valeria pergunta ao garçom. “Arroz com tinta de lula, sopa de peixe, espaguete, fettucine, lasanha...”, diz ele, de forma direta. Ela responde: “Espaguete...”, como se estivesse num sonho.

Por outro lado, muito dos diálogos são bastante interessantes e gosto particularmente da forma como Enrico resume seu sentimento na relação: “O bovarismo está enraizado na alma feminina, de modo que a mulher chega a trair o amante com o próprio marido” (muito embora Enrico já a tivesse traído antes). É uma tentativa de limpar os pratos sujos de forma sutil.

Tony Musante e Florinda Bolkan fizeram trabalhos sérios em outros filmes, mas aqui fica muito limitada a avaliação interpretativa do casal, uma vez que claramente o cenário e a história sobressaem-se ao par. E, Salerno, ao final, nos deixa com a sensação de que ficou algo a mais para ser dito. É como se fossemos a câmera e nos jogassem nos canais de Veneza, sem rumo definido, ao som da bela trilha sonora de Cipriani (ainda hoje um cult).

Mas, de qualquer forma é sempre bom rever um filme estrelado pela nossa cearense Florinda Bolkan (ex-Bulcão), atriz que já trabalhou com renomados cineastas europeus, como Elio Petri e outros. Li que De Sica teria dito quando a convidou para o filme “Amargo Despertar” (1973): “Escolhi você por que seus olhos são de quem já conheceu a fome". A resposta de Florinda: "Quem nasce no Ceará traz uma carga de verdade muito dura e forte". E é verdade. Ela continua linda, vive na Itália e está na ativa.



"Anônimo Veneziano" (Anonimo Veneziano)
1970 – ITÁLIA - 91 min. – Colorido – DRAMA
Direção: ENRICO MARIA SALERNO. Roteiro: ENRICO MARIA SALERNO E GIUSEPPE BERTO. Fotografia: MACELLO GATTI. Música: STELVIO CIPRIANI.Montagem: MARIO MORRA. Produção: TURI VASILE, distribuído pela ALLIED ARTISTS.

Elenco: TONY MUSANTE (Enrico) FLORINDA BOLKAN (Valeria), TOTI DAL MONTE (proprietário da casa), SANDRO GRINFAN (gerente da fábrica), BRIZIO MONTINARO (garçom) e GIUSEPPE BELLA (técnico).

Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



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