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terça-feira, 12 de outubro de 2010

SANGUE E AREIA

“Encare como meu tributo a sua bravura.”


Paixão e traição são a tônica desta tragédia clássica com Rudolph Valentino. Aqui ele interpreta Juan Gallardo, um ingênuo aspirante a toureiro, casado com sua amada de infância Carmen (Lila Lee). Logo que ganha fama como matador, cai nas graças e, literalmente, nos braços da vamp Doña Sol (Nita Naldi) – uma devoradora de homens que mantém seu status por conta de amizades com pessoas influentes da sociedade. À medida que se envolve com Sol, Gallardo vê sua carreira declinando, principalmente quando percebe que Sol o usou e também se interessa por outros homens. Com o casamento abalado com Carmen, Gallardo participa de uma tourada final em que a imagem de Sol com outro nas arquibancadas acaba lhe reservando um desfecho trágico.

Nita Naldi, diva do cinema mudo, foi selecionada pessoalmente pelo escritor Vicente Blasco-Ibanez para o papel da sedutora Doña Sol. E de fato, ela “ataca” Valentino que fica desconcertado com seu comportamento e investidas. Valentino sendo seduzido consegue arrancar algumas gargalhadas. Tudo soa artificial e “overacted”. Nita parece menos forçada que o galã, mas também é risível. Esse foi seu principal filme e rendeu outras aparições com Valentino em "A Sainted Devil" (24) e "Cobra" (25).

Apesar de datado, e muito inferior ao remake de 49, dirigido por Rouben Mamoulian e estrelado por Tyrone Power como Gallardo, Rita Hayworth como Doña Sol e Linda Darnell como Carmen, as cenas de arena e das touradas são bem feitas e se constituem no que o filme possui de razoável. Vale, entretanto, assistir, para conhecer essa dupla que mexeu com os fãs do cinema na década de 20.




"Sangue e Areia" (Blood and Sand)
1922 – EUA - 89 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: FRED NIBLO. Roteiro: JUNE MATHIS, baseado no romance de VICENTE BLASCO IBANEZ. Fotografia: ALVIN WYCKOFF. Montagem: DOROTHY ARZNER. Produção: PARAMOUNT PICTURES.

Elenco:
RUDOLPH VALENTINO (Juan Gallardo) NITA NALDI (Doña Sol), LILA LEE (Carmen) CHARLES BELCHER (Don Joselito).




Cenas do Filme:


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O Filho do Sheik

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A PISCINA

“Quando estou com você sempre me divirto”


Jean-Paul (Alain Delon) é um escritor desempregado que tem um caso amoroso com Marianne (Romy Schneider), uma jornalista famosa. Ambos passam as férias em uma bela casa em St. Tropez, onde a piscina da mansão é o ponto focal da trama do filme. Marianne convida o amigo Harry (Maurice Ronet) para visitá-los. Harry, um compostor e executivo de gravadora, foi amante de Marianne. A tensão sexual entre os dois vai se desenrolando ao longo do filme sob a observação cuidadosa e incomodada de Jean-Paul, que desconfia do passado de ambos. Jean Paul interessa-se pela filha de Harry, Penelope, interpretada por Jane Birkin (bela como sempre). Muito calor, corpos quentes, conflitos latentes e questões amorosas mal resolvidas – onde é até insinuado um incesto – culminam em um assassinato ocorrido no cenário principal do filme – a piscina.

Após alguns drinques, Harry e Jean-Paul brigam e este empurra o outro na piscina, Jean Paul reluta em ajudar o “oponente" e Harry acaba morrendo. Essa morte faz com que questões mal resolvidas da relação entre Marianne e Jean Paul aflorem.

O casal tenta resolver os problemas, mas a presença do investigador de polícia, Leveque (Paul Crauchet), começa a dificultar as coisas. Oou melhorá-las. Depende do ponto de vista.

Trata-se de um drama policial, dirigido com bastante sensibilidade por Jacques Deray; é o tipo de tema que poderia ter sido conduzido de forma piegas e terminar como a maioria de filmes policiais com alguma investigação e final óbvio, que tanto estamos acostumados a assitir - principalmente no cinema norte-americano.

Aqui, ao contrário, o diretor leva o filme de forma com que amor, sexo e morte sejam expressos ao espectador de forma fluida, através dos inúmeros subtextos contido nos diálogos e nas atitudes dos personagens. Tudo é muito subentendido e sugerido. Fica-se sempre com o sentimento de que há algo a ser dito ou explicitado. Mais por intenção do diretor, do que por falha do filme.

Penélope não convence como filha de Maurice Ronet. Sua personagem tem uma importância no enredo que não poderia ter sido interpretado por uma atriz mais forte do que Jane Birkin. Sua personagem traz parte da história do pai e de seu casamento. O desejo de Harry em um possível reencontro com Marianne, mais a tensão entre pai e filha poderiam ter sido explorados de forma mais intensa na tela. Jane Birkin desfila toda sua beleza e junventude à beira da piscina. E só. Uma pena.

Por outro lado, a dupla Delon-Schneider encontram a sintonia fina num casal apaixonado, numa relação recheada de momentos de assustadora frieza – o ponto certo para deixar no espectador a percepção de que existe uma frustação entre o casal. Eles se amam, desconfiam um do outro, mas são cúmplices. Há uma certa dose de masoquismo entre eles.

Romy Schneider está em plena forma e, além disso, belíssima. Delon imprime um tom blasé a Jean-Paul. Está muito bem e faz um amante a certo ponto insensível, como tem que ser. Fico com a nítida sensação de que o casal reproduziu na tela a até então recém terminada relação de mais de 10 anos na vida real (estavam separados quando participaram do filme).

Não é sempre que se pode assitir a um filme cujo cenário se reduz a uma casa, um quarteto de atores e, ainda assim, apesar do enredo não possuir nada de original, é realizado de forma competente. Jacques Deray faz isso.



A Piscina (La Piscine)
1970– ITÁLIA/FRANÇA - 120 min. – Colorido – DRAMA
Direção: JACQUES DERAY. Roteiro: JEAN-CLAUDE CARRIÈRE, JEAN-EMMANUEL CONIL E JACQUES DERAY Fotografia: JEAN-JACQUES TARBÈS. Montagem: PAUL CAYATTE. Música: MICHEL LEGRAND. Produção: GÉRARD BEYTOUT.

Elenco: ALAIN DELON (Jean-Paul), ROMY SCHNEIDER (Marianne), MAURICE RONET (Harry), JANE BIRKIN (Penelope), PAUL CRAUCHET (Leveque), STEVE ECKARDT (Frank) e SUZIE JASPARD (Emile).



Cenas do filme:


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Borsalino

domingo, 4 de outubro de 2009

BOOGIE NIGHTS

“Você não sabe o que eu posso fazer”


Quando a câmera “corre” literalmente de modo ágil através da boate em San Fernando Valley no início do filme, apresenta todos os principais personagens com muita facilidade. O padrinho do grupo é Jack Horner, um diretor de filmes pornôs. Depois de um tempo fora das telas, Burt Reynolds ressurgiu com uma de suas melhores atuações em anos, com um toque divertido e suavemente irônico. Na boate, as atenções de Jack recaem sobre um rapaz chamado Eddie, que ele diz ser “Um pedaço de ouro com 17 anos”. Eddie trabalha na cozinha da boate e, pelo que parece, já havia aprendido a fazer trabalhos extras a clientes. O olhar clínico de Jack logo percebe que está diante de um futuro astro pornô. O filme é uma leitura livre sobre o astro do cinema pornográfico do final dos anos 70 e nos 80, John Holmes, papel interpretado por Mark Wahlberg, que consegue uma atuação bastante adequada: atrai todos os outros personagens do filme, faz a transição de um rapaz ingênuo para um arrogante ator, comporta-se como se Dirk Diggler (o nome artístico de Eddie) fosse realmente um grande nome. Ele faz tudo isso com uma ingenuidade cativante, sem artificialismos.

Seu quarto – na casa em que inicialmente mora com os pais – é coberta por pôsteres – garotas nuas, carros esportivos, artes marciais; enfim, todos os elementos de seu sonho americano. A primeira hora do filme mostra-o imbuído em atingir esses objetivos, o que ocorre de forma meteórica. O diretor Paul Thomas Anderson diverte-se com o clima mundano dos diretores de filmes pornôs que participam de festas e assistem a orgias como se estivessem assistindo a uma ópera. O único momento em que se alteram é quando vêem o superdotado Dirk em ação.

"Boogie Nights" não apela muito para nudez ou sexo (exceto durante a longa seqüência em que mostra Eddie atuando numa cena de seu primeiro filme); porém, insinua bastante, principalmente mostrando o grupo, observando Eddie quando atua. Entre seus colegas, todos estão atuando bem. Julianne Morre, maravilhosa, como uma alma perdida que Jack transformou em estrela do mundo pornô (sua estudada e propositada má atuação quando interpreta nos filmes em questão é perfeita); Don Cheadle como um aspirante a caubói está muito bem como um astro do circuito; William H. Macy, numa peruca que parece emprestada de algum membro da série “A Família Dó-Ré-Mi” (70), e sempre inconformado com a mulher que insiste em fazer sexo com outros parceiros nas festas em que participam, sempre embaraçando-o; Philip Seymour Hoffman, como o fã ardoroso de Eddie; Robert Ridgely, como o patrocinador financeiro que, assim como Jack, investe em Eddie; Ricky Jay, como um cameraman e John C. Reilly, como o principal amigo de Eddie em sua empreitada.

O filme, que se inicia em 1977 – ano de "Os Embalos de Sábado À Noite" -, vai agregando algumas etapas, tais como o batismo virtual de Dirk Diggler numa banheira o show de fogos de Ano Novo na passagem dos anos 70 para os 80. A partir daí, a decadência, com o cinema sofrendo a concorrência das fitas de vídeo – que mudou o mundo pornográfico -, as drogas, a transformação dos atores e a chegada de novos astros. Essa decadência culmina, pelo menos no filme, com uma tentativa de assalto de Eddie junto com parte do grupo a um usuário de drogas. No filme, montado em seqüências de festas e takes de filmagem, fica claro para o espectador que a "festa" acabou.

Embora o filme insinue que as coisas não vão terminar bem, perto da carreira de um ator como John Holmes, tudo parece pouco importante. O grande mérito do diretor – além dos malabarismos de câmera e das tomadas longas – é a coragem de percorrer um tema como esse, sem cair em banalidades. Anderson mostra ótimo talento para diálogos, especialmente quando em determinado momento Eddie/Dirk se compara a Napoleão “no Império Romano”.

Apesar de seus mais de 150 minutos, "Boogie Nights" é envolvente e prende a atenção. Entretanto, com tal duração, fica-se a sensação de que poderia alçar vôos mais altos do que efetivamente alcança. Mas é apenas uma sensação. Trata-se de um ótimo filme, conduzido por um grande diretor.



Boogie Nights (Boogie Nights)
1997– EUA - 155 min. – Colorido – DRAMA
Direção: PAUL THOMAS ANDERSON. Roteiro: PAUL THOMAS ANDERSON. Fotografia: ROBERT ELSWITT. Montagem: DYLAN TICHENOR. Música: MICHAEL PENN. Produção: LLOYD LEVIN, JOHN LYONS, PAUL THOMAS ANDERSON E JOAN SELLAR, distribuído pela NEW LINE CINEMA.
Elenco: MARK WAHLBERG (Eddie Adams/Dirk Diggler), JULIANNE MOORE (Amber Waves), BURT REYNOLDS (Jack Horner), DON CHEADLE (Buck Swope), JOHN C. REILLY (Reed Rothchild), WILLIAM H. MACY (Little Bill), ROBERT RIDGELY (Coronel), RICKY JAY (Kurt Longjohn), PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (Scotty) e ALFRED MOLINA (Rahad Jackson).



Cenas do filme:


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Magnólia

domingo, 27 de setembro de 2009

FRANCES

“Frances Elena Farmer. Quer que eu soletre?”


“Frances'' é baseado na triste e complicada vida de Frances Farmer, uma brilhante colegial de Seattle que alcançou o estrelato na Hollywood dos anos 30, em filmes como ''O Último Romântico'' e ''Meu Filho É Meu Rival”, ambos de 1936, e participação na Broadway. No início da década de 40, Frances entrou em depressão física e emocional que, segundo mostrado no filme, levou-a a ser tratada como mentalmente incapaz. Aparentemente com o consentimento da mãe, foi submetida a sessão de lobotomia que transformou uma mulher talentosa em um robô humano, até falecer na década de 70. Aos 56 anos, Frances Farmer morreu de câncer na garganta em Indianapolis, onde passou o resto de seus dias como apresentadora de um programa de televisão.

O filme é um pouco conturbado. Parece uma obra inacabada, como se o diretor, Graeme Clifford, e os roteiristas não tivessem conseguido perceber o foco principal da história da atriz. Contém um material pouco lapidado e com certo grau de brutalidade que tanto o filme como os espectadores não poderiam supor.Contudo, traz uma atuação magnífica de Jessica Lange no papel principal. Seu desempenho é tão contundente, tão forte, tão inteligente e humano que parece ser o último papel de sua carreira. Pelo contrário, depois de “King Kong” (76) e o pretensioso "O Destino Bate à Sua Porta" (81), Jessica, além de linda, emerge como uma atriz poderosa. O prazer em assisti-la faz com que o filme vá se transformando numa experiência marcante. Não é à toa que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1983.

O roteiro de Eric Bergren, Christopher Devore e Nicholas Kazan, retrata a história da atriz quando, ainda na escola, ganha um prêmio de redação um polêmica para os anos 30 – o assunto versava sobre a morte de Deus. A jovem Frances, xodó de uma mãe ambiciosa, Lilian Farmer (Kim Stanley), e de seu pai fraco Ernest (Bart Burns), ganha uma competição de interpretação patrocinada por um jornal de esquerda. Como prêmio, ganha uma viagem para a Rússia e a chance de trabalhar no Teatro de Arte de Moscou. Apesar de sua ambição, sua mãe Lillian é fruto de um tempo e, como tal, anticomunista. Quando Frances a desafia e parte para Moscou, inicia-se uma série de confrontos entre ambas, que levam paulatinamente à destruição de sua personalidade.

Embora retratada como relevante no início, sua viagem não é mais mostrada durante o filme. Num período de poucos segundos, a atriz retorna da Rússia, trabalha em Nova Iorque e volta para Hollywood como uma atriz contratada da Paramount Pictures. Minutos depois, é a aclamada atriz de “Meu Filho É Meu Rival”, de Samuel Goldwyn. A atriz, contudo, é incansável. Deixa Hollywood para trabalhar num grupo de teatro e tem um desastroso romance com o dramaturgo Odets (Jeffrey DeMunn). De volta a Hollywood, estrela em filmes B e, viciada em anfetaminas, segue um calvário como paranóica, que leva à prisão e a uma sucessão de internamentos em hospitais mentais.

Surgindo em algumas situações e desaparecendo em outras, está o personagem fictício chamado Harry York – um sujeito low profile -, interpretado pelo escritor e ator Sam Shepard. Sua figura é difícil de entender dentro do contexto do filme. Quando se torna amante de Frances, nos primeiros anos em Seattle, aparenta um político de esquerda. Mais tarde, durante a fase em que a atriz se dedica ao teatro, ele é um bookie. Mais tarde, ao resgatá-la de um hospital mental na Califórnia, ressurge como um escritor ou alguém da imaginação de Frances.

O diretor extrai excelentes atuações dos atores, mas nunca fixa um estilo para o filme. Às vezes, é um melodrama biográfico, romântico; outras, demasiado estilizado. Aonde quer que Frances esteja durante o período da Depressão - em Seattle, Nova Iorque ou Los Angeles - o panorama parece ser decorado com pouco glamour, como se fosse para certificar a consciência social da atriz. Em determinado ponto, ela chega a perguntar: “Como posso continuar fazendo filmes quando pessoas passam fome?”.

Um ponto que não fica claro e que compromete a coerência do filme é a falha em não estabelecer se os problemas mentais enfrentados por Frances são reais ou se ela é vitima de sua vingativa e recalcada mãe, do establishment de Hollywood ou, mais ainda, do grupo de teatro de Clifford Odets e Harold Clurman.

Apesar das falhas de estrutura e estilo do filme, Jessica está consistentemente esplêndida. Ela consegue ser sofisticada, astuta e obstinada quando ainda garota, bem como perturbada e fragilmente assustada, quando já mulher adulta. A cena em que se encontra com um psiquiatra é tão magistralmente interpretada que poderia ser objeto de alucinação da atriz. É, ao mesmo tempo, engraçada e comovente. Com certeza uma das maiores atuações dos anos 80.Embora todo o elenco esteja bem, ninguém tem um papel de grande destaque, incluindo Kim Stanley – que foi indicada ao Oscar de Melhor Coadjuvante - e Sam Shepard que, contudo, têm presenças fortes.

Bastante tocante fica por conta das seqüências finais em que uma Frances “tranqüila” aparece no programa de Ralph Edwards, "This Is Your Life". Linda, e demovida de todas as pressões sociais que antes tinha, comporta-se do modo esperado por todos. O apresentador chama-a de Frances e ela o chama de Ralph (com mais freqüência do que alguém faria no dia-a-dia). Ao final, ela ganha um carro modelo Edsel. Parece o final de um sonho.



Frances (Frances)
1982– EUA - 140 min. – Colorido – DRAMA
Direção: GRAEME CLIFFORD. Roteiro: ERIC GREGEN, CHRISTOPHER DEVORE E NICHOLAS KAZAN Fotografia: LASZL KOVACS. Montagem: JOHN WRIGHT. Música: JOHN BARRY. Produção: JONATHAN SANGER, distribuído pela UNIVERSAL PICTURES.

Elenco: JESSICA LANGE (Frances Farmer), SAM SHEPARD (Harry York), KIM STANLEY (Lillian Farmer), JEFFREY DeMUNN (Clifford Odets ), JORDAN CHARNEY (Harold Clurman), BART BURNS (Ernest Farmer), JONATHAN BANKS (Hitchhiker), DONALD CRAIG (Ralph Edwards), DARRELL LARSON (Espião de Louella) e GERALD S. O´LOUGHLIN (Especialista em Lobotomia).



Cenas do filme:


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Céu Azul

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

IMPÉRIO DO SOL

“Não me lembro como são meus pais.”


“Império do Sol” apresenta a junção de dois momentos da filmografia spielberguiana. O primeiro seria este que mostra crianças como fio condutor de uma trama que levará inapelavelmente à revelação; o segundo, demonstra uma preocupação que o diretor tinha em querer fazer filmes para alcançar um público adulto. Tal tendência já havia se revelado anteriormente em “A Cor Púrpura” (85). Em “Império do Sol”, Spielberg se afirma de maneira mais definitiva. Basta dizer que o filme inicia mostrando corpos sem vida boiando no mar. A morte, fim de todas as ilusões, serve assim para ilustrar a cena do filme de um dos reabilitadores do Cinema como espaço do sonho. Talvez por isso, quem assiste a esse filme pela primeira vez e esperava encontrar o diretor de filmes como “Tubarão” (75), “Encurralado” (71), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (77) ou “1941” (79), ficou um tanto quanto surpreso. Superprodução bastante requintada, foi rodada durante quatro meses, empregou mais de 15.000 extras e quase 500 técnicos, divididos entre americanos, ingleses, chineses e espanhóis, trabalhando simultaneamente em três paises: China, Inglaterra e Espanha. Logo no início, impressiona o impacto da cena em que o protagonista Jim dirige-se com os pais para um baile à fantasia. As tomadas feitas de cima da cidade de Xangai revelam a opulência da produção, desde a riqueza de detalhes do figurino, assinado por Bob Ringwood, até a irretocável direção de arte, a cargo de Norman Reynolds. A megalomania chegou ao ponto de levar o diretor a queimar diversos pneus nas regiões de Feng Yang e Jiu Tiang, a fim de obter a fumaça adequada para as cenas de batalha.

Inspirado em romance homônimo de J.G. Ballard, “Império do Sol” conta um pouco do drama vivido pelo próprio Ballard durante a Segunda Guerra Mundial, quando, ainda adolescente, foi mantido, ao lado dos pais, como prisioneiro em Lunghua, Japão. O livro narra a historia do menino Jim Graham, de apenas 11 anos, que passa a viver uma vida de cão depois que as forcas armadas do Império Japonês, o Império do Sol, conquistam, logo após o bombardeio de Pearl Harbor, em 8 de dezembro de 1941, a cidade de Xangai.

Jim é um garoto que acaba sobrevivendo num contexto de mundo e situação de difícil sobrevivência. Entretanto, mais importante do que permanecer vivo numa situação adversa, é que Jim sonha. Para ele, pouco importa a guerra. Na verdade, esse Oliver Twist moderno a observa quase o tempo todo como uma brincadeira de soldados de chumbo. Seu desejo maior é voar, pilotar um dos famosos Zeros japoneses. Em “Império do Sol”, Spielberg filma a tensão de Jim entre a realidade e o sonho. Cinematograficamente, vence o sonho - senão o filme não seria um Spielberg.

As melhores cenas são justamente aquelas que mostram algum encanto, como aquela em que Jim toca pela primeira vez suas minúsculas mãos num avião e em seguida bate continência para três oficiais japoneses. Ou, então, quando o “sonho” acaba e, no reencontro com os pais, o garoto até então fascinado pela fantasia que vive, volta à realidade. Neste despertar, não abre os olhos e sim os fecha pela primeira vez, no porto seguro do abraço materno. Neste rápido instante, Spielberg aparece inteiro, deixando claro que o universo da fantasia é seu verdadeiro império. Pena que se trata de um Spielberg que há muito não é o mesmo.



Império do Sol (Empire of the Sun)
1987– EUA - 153 min. – Colorido – DRAMA
Direção: STEVEN SPIELBERG. Roteiro: TOM STOPPARD, baseado em romance de J.G. BALLARD Fotografia: ALLEN DAVIAU. Montagem: MICHAEL KAHN. Música: JOHN WILIAMS. Produção: STEVEN SPIELBERG, KATHLEEN KENNEDY E FRANK MARSHALL, distribuído pela WARNER BROS.

Elenco:
CHRISTIAN BALE (Jim Graham), JOHN MALKOVICH (Basie), MIRANDA RICHARDSON (Sra. Victor), NIGEL HAVERS (Dr. Rawlins), JOHN PANTOLIANO (Frank Demarest), LESLIE PHILLIPS (Maxton), MASSATÔ IBU(Sargento Nagata), EMILY RICHARD (Mary Graham), RUPERT FRAZER (John Graham) e PETER GALE (Sr. Victor).



Cenas do filme:


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E.T. - O Extraterrestre

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

ALMA TORTURADA

“Você está tentando me amolecer.”


Arrepia só de pensar na carreira que a Paramount tinha em mente para Alan Ladd, depois de assistir a essa que foi sua estréia no cinema como ator no papel principal de “Almas Desesperadas". Obviamente, o estúdio esperava perpetuar seu tipo durão e desajeitado nas telas, como foi o caso de James Cagney. O ator relembra o mesmo arquétipo mostrado por Cagney com seus ímpetos violentos – quem não viu quando esfregou um grapefruit no rosto de Mae Clarke em “Inimigo Público” (31)?. Ladd interpreta Philip Raven, um assassino profissional que gosta do seu ofício. “Como você se sente quando você faz um serviço desses?”, pergunta Laird Cregar. “Sinto-me bem”, responde ele, sem pestanejar. Raven é contratado para matar alguém, é dedurado por este à polícia e feito de bode expiatório para acobertar uma intrincada trama que envolve a venda de gases envenenosos para inimigos norte-americanos.

Sabendo disso, Raven, em busca de seu delator, conhece Ellen Graham (Veronica Lake), uma dançarina de bar noturno – noiva do policial encarregado de capturar Raven. Inicia-se daí uma tensão sexual entre o casal. Na verdade, Ellen atua como colaboradora do Senado norte –americano para investigar Cregar. Juntos, Raven e Ellen seguem em desvendar toda a trama, desmascarar Cregar e o mentor intelectual do assassinato.

Melodrama clássico, porém simples. Entretanto, é acima da média, pois o roteiro é “redondo” e os momentos de tensão exigidos por esse tipo de filme são bons. Frank Tuttle, o diretor, dá o tom certo na ação e consegue mostrar algumas resultantes sociais da marginalidade – Raven é fruto de uma infância problemática e que, aparentemente, tornou-se delinqüente por falta de opção.

Entretanto, apesar deste inexorável caminho rumo à marginalidade, o personagem é intrisecamente uma pessoa que ainda possui resquícios de humanidade – é o que se vê na cena em que esbofeteia a arrumadeira do quarto em que vive ao vê-la maltratando o gatinho que mantém. Ellen percebe isso em Raven e fica atraída por sua latente sensibilidade.

O diretor faz também um bom trabalho com os atores. Veronika Lake está competente e lindíssima, aplicando a dose certa de sensualidade e desdém ao lidar com os homens. Cregar é um misto de canalhice e covardia, conferindo a tudo isso um requinte apurado. Robert Preston não compromete e desempenha aquilo que deveria – um policial à busca de sua presa. Finalmente, Allan Ladd é o diferencial. Um ator especial. Não foi à toa que depois dessa ótima estréia tenha virado um astro.



Alma Desesperada (His Gun For Hire)
1942 – EUA - 80 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: FRANK TUTTLE. Roteiro: ALBERT MALTZ E W.R. BURNETT, baseado no romance de GRAHAM GREENE. Fotografia: JOHN F. SEITZ. Montagem: ARCHIE MARSHEK. Música: DAVID BUTTOLPH. Produção: RICHARD BLUMENTHAL, para a PARAMOUNT.

Elenco: VERONICA LAKE (Ellen Graham), ROBERT PRESTON(Michael Crane), LAIRD CREGAR (Willard Gates), ALAN LADD (Philip Raven), TULLY MARSHALL (Alvin Brewster), MIKHAIL RASUMNY (Sluky), MARC LAWRENCE (Tommy), PAMELA BLAKE (Annie), ROGER IMHOFF (Senador)e VICTOR KILIAN (Secretário de Brewster) .



Cenas do filme:


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Casei-me Com Uma Feiticeita

segunda-feira, 6 de julho de 2009

DESENCANTO

“Ainda há tempo.”


Uma pequena grande jóia cuja história já deve ter sido escrita, lida, filmada e re-filmada diversas vezes. Desta vez, trata-se de uma peça em um ato, escrita e roteirizada por Noel Coward. É um drama intimista que aborda o breve, porém marcante, romance casual entre uma mulher e um homem, ambos casados. A maior parte da ação acontece numa estação de trem de uma pequena cidade inglesa, na qual os passageiros viajam a pequenas distâncias a trabalho ou passeio. Laura Jesson (Celia Johnson) é uma mulher comum, de classe média, dona de casa, mãe de dois filhos e aparentemente feliz, que se encontra casualmente com um médico, Alex (Trevor Howard), durante um dia em que vai às compras. O inocente e casual acontecimento, renovado a cada semana, vai-se transformando paulatinamente em uma forte afeição, que de certa forma choca e toma o casal de surpresa. Durante os breves encontros e as sutis trocas de palavras, colocam em xeque suas convenções e laços emocionais. Depois, cada um parte de volta para casa.

Obviamente há algumas fragilidades na história – a súbita afeição do casal acontece mais rapidamente do que as circunstâncias poderiam justificar. Também, a “cegueira” do marido de Laura, Fred (Cyril Raymond), é de um exagero incomum. Mas o conjunto é apresentado de forma delicada e afetuosa - com tanta naturalidade na caracterização de detalhes – que as discrepâncias acabam sendo permitidas.

Embora a experiência extraconjugal do casal não se consuma plenamente, a restrição a isso não é tão importante quanto aquela existente no campo emocional. Embora possa transparecer algum moralismo, isso não ocorre. Tudo é narrado em flashback, de forma bastante sensível pelo diretor David Lean.

A atriz Celia Johnson tem uma atuação memorável, como a dona de casa em crise existencial e emocionalmente abalada. Seu rosto é fotografado sem glamour, simples, mas ressaltando sua profunda expressividade no olhar, através de closes precisos. Trevor Howard, que sem dúvida não é um astro, está à altura e faz um companheiro crível neste romance. Também excelentes estão os personagens de Joyce Carey, Cyril Raymond, Everley Gregg and Stanley Holloway.




"Desencanto" (Brief Encounter)
1945 – INGLATERRA - 86 min. – Preto e Branco – ROMANCE
Direção: DAVID LEAN. Roteiro: NOEL COWARD, baseado na peça “STILL LIFE”, do autor. Fotografia: ROBERT KRASKER. Montagem: JACK HARRIS. Música: RACHMANINOFF. Produção: NOEL COWARD, distribuído pela PRESTIGE PICTURES, Inc.

Elenco:
CEILA JOHNSON (Laura Jesson) TREVOR HOWARD ( Dr. Alec Harvey), CYRIL RAYMOND (Fred Jesson), JOYCE CAREY (Garçonete), STANLEY HOLLOWAY (Guarda da Estação), VALENTINE DYALL (Stephan Lynn), EVERLEY GREGG (Dolly Messiter), MARGARET BARTON (Beryl) e DANNIS HARKIN (Stanley).



Cenas do Filme:


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Lawrence da Arábia

domingo, 7 de junho de 2009

NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA

“Nunca esqueçamos que nós somos a notícia verdadeira, não eles.”


O filme é apenas uma história bem narrada, com uma edição eficiente – com destaque para a cena em que a subeditora do programa de notícias atravessa o estúdio, correndo, para entregar a tempo uma fita que deve imediatamente entrar no ar – é um trabalho de interpretação bem esculpido pelo diretor. Holly Hunter brilha como a obsessiva e temperamental Jane Craig; William Hurt, embora exagere nos tiques do apresentador de telejornais Tom Grunick, dá um curioso ar blasé ao personagem; finalmente, Albert Brooks mostra-se muito a vontade na pele do correspondente Aaron Altman. Há ainda uma participação especial de Jack Nicholson, no papel de um apresentador do jornal de Nova Iorque, admirado e temido, que intimida todos. O enredo trata, sobretudo, dos bastidores do jornalismo audiovisual e da forma que se comportam os profissionais da área, capazes, como apresenta o próprio filme, de forjarem uma lágrima durante uma entrevista somente com o intuito de causar maior impacto no público e conseqüentemente ascenderem na escala hierárquica do departamento jornalístico.

Os jornalistas que são pressionados pela necessidade de trabalhar rapidamente, empurrados pelo sistema de trabalho, correndo de um lado para o outro, deixando de retratar noticias que realmente importam; aqueles que mergulham na rotina e que acabam se acostumando e gostando de viver na ânsia e tensão que resulta em apertar botões e botar imagens no ar, talvez se identifiquem com o filme.

“Nos Bastidores da Notícia” bem que poderia ser uma denúncia – no estilo do infinitamente superior “Rede de Intrigas” (76), de Sidney Lumet – do jornalismo de massa feito na atualidade, que acaba por dar mais ênfase ao espetáculo do que a notícia em si. Poderia também ser uma crítica amarga do clima de competição que diariamente esquenta redações e redatores de telejornais. Ou ainda, o filme de Brooks poderia ainda enveredar por uma discussão sobre o conceito de ética dos profissionais da área de jornalismo.

Infelizmente, “Nos Bastidores da Noticia” fica a meio caminho de todas essas questões. História simples, banal até, sustentada por um frustrante triângulo amoroso, o filme, leve como uma novela das seis, seduz apenas pela técnica e pelo trabalho de atores. Ainda assim, tudo é bastante convencional. Bem ao estilo que a Academia gosta de premiar. Não é à toa que foi indicado para 7 categorias do prêmio, em 1988. Saiu de mãos abanando.




"Nos Bastidores da Notícia" (Broadcast News)
1987 – EUA - 133 min. – Colorido – DRAMA
Direção: JAMES L. BROOKS. Roteiro: JAMES L. BROOKS. Fotografia: MICHAEL BALLHAUS. Montagem: RICHARD MARKS. Música: BILL CONTI. Produção: JAMES L. BROOKS, distribuído pela 20th CENTURY-FOX.

Elenco:
WILLIAM HURT (Tom Grunick) ALBERT BROOKS (Aaron Altman), HOLLY HUNTER (Jane Craig), ROBERT PROSKY (Ernie Merriman), LOIS CHILES (Jennifer Mack), JOAN CUSACK (Blair Litton), PETER HACKES (Paul Moore), CHRISTIAN CLEMENSON (Bobby), JACK NICHOLSON (Bill Rorich), ROBERT KATIMS (Martin Klein), ED WHEELER (George Wein) e STEPHEN MENDILLO (Gerald Grunick).



Cenas do Filme:


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Laços de Ternura

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O REGRESSO PARA BOUNTIFUL

“Quando você vive mais que sua casa e família, acho que viveu demais.”


Trata-se de um filme de extrema sensibilidade, cujo fio condutor é odisséia da pacata Carrie Watts (Geraldine Page) que, no ocaso da vida, decidde retornar a Bountiful, sua cidade natal. “O Regresso para Bountiful” é talvez o mais peculiar road movie dos últimos tempos. Morando com o filho Ludie (John Heard) e anora Jessie Mae (Carlin Glynn, esposa de Masterson) em Houston, Carrie Watts vive invariavelmente angustiada. Sua relação com Jessie Mãe é péssima. Quando juntas, as duas brigam como se fossem crianças. Enquanto Jesse sonha com a ascenção social do marido na cidade grande, Carrie deseja apenas rever Bountiful – cidade onde foi criada e que hoje sequer consta do mapa – antes de morrer. Mais do que uma simples volta à terra natal, a viagem de Carrie a Bountiful significa o encontro doloroso com o tempo perdido. No papel principal, Geraldine Page aumenta a empatia do público com seu personagem ao dar-lhe contornos chaplinianos. Com absoluto controle, lidando com um personagem tão complexo e delicado, Geraldine mostra o porquê foi uma das mais refinadas atrizes do cinema, embora aqui às vezes super represente.

Geraldine Page, por sua atuação, a última de sua carreira, recebeu um justo prêmio da Academia de Hollywood. Lembro-me que, ao anunciá-la vencedora na cerimônia de 86, o ator F. Murray Abraham – o Salieri, de “Amadeus” (1984) - disse sobre a até então recordista de indicações (sem ter sido premiada): “ela é a maior atriz da língua inglesa...”. Talvez não fosse. Contudo, a sua Sra. Watts foi um papel maravilhoso e talvez o melhor da carreira que a atriz fez nas telas, incluindo sua inesquecível Alexandra Del Lago, em “O Doce Pássaro da Juventude” (1967). A direção de Peter Masterson surpreende ao não deixar o filme tornar-se por demais teatral.

O elenco inteiro está muito bem: John Heard, como Ludie; Carlin Glynn como Jessie Mae, cuja paciência parece sempre estar próxima ao fim, mas sempre se renova; Richard Bradford, como o xerife que se torna aliado de Carrie Watts durante seu "vôo", e Kevin Cooney, como funcionário da estação da rodoviária.

Um destaque particular fica por conta de Rebecca De Mornay – mais famosa como a prostituta de “Negócio Arriscado” (1983) – que interpreta a simpática e centrada noiva de um militar que fica amiga de Carrie durante a viagem. Com imenso bom humor, a atriz contribui para o equilíbrio do filme.

Seguindo a trilha dos hinos religiosos entoados por Carrie Watts (“Para casa, para casa, com ternura Jesus está chamando”), “O Regresso para Bountiful” é uma obra marcada pelo o que a religião tem de mais puro: a esperança de uma vida melhor, aqui ou caso exista, no além. Se certos filmes às vezes nos dão a sensação de uma paulada na cara, outros, entrando pelos olhos e ouvidos, chegam ao coração e passam a acompanhar-nos, durante muito tempo, na memória. Este filme é um deles. Bom para ver e rever.



Regresso Para Bountiful (The Trip to Bountiful)
1985 – EUA - 108 min. – Colorido – DRAMA

Direção: PETER MASTERSON. Roteiro: HORTON FOOTE, baseado na peça homônima de HORTON FOOTE. Fotografia: FRED MURPHY. Montagem: JAY FREUND. Música: J. A. C. REDFORD. Produção: STERLING VANWAGENEN E HORTON FOOTE, realizado pela ISLAND PICTURES.
Elenco: GERALDINE PAGE( Carrie Watts), JOHN HEARD (Ludie Watts), CARLIN GLYNN (Jessie Mae), RICHARD BRADFORD (Xerife) , REBECCA De MORNAY (Thelma) e KEVIN COONEY (Roy).

Prêmios:
Oscar de Melhor Atriz Principal (Geraldine Page)/1986.



Cenas do filme:


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Doce Pássaro da Juventude

domingo, 17 de maio de 2009

SOBRE ONTEM À NOITE

“Eu peguei o fone e ela já estava na linha”


“Sobre Ontem à Noite” é uma comédia romântica a respeito de um bonito casal de moradores de Chicago – Danny Martin e Debbie Sullivan – que vive nos arredores do Side North sem pertecerem necessariamente à tribo yuppie. Enquanto Debbie é uma diretora de arte numa agência de propaganda, Danny está sem rumo profissional. Ele comercializa produtos para restaurantes, sem pique ou convicção - somente porque tem que cumprir algum ofício. Ambos se vêem pela primeira vez num jogo de softball numa praça. Depois, encontram-se novamente num singles bar. A partir daí, ficam atraídos e, ao invés de engatarem em outro drinque, seguem para casa e transam. Tudo parece um Banco Imobiliário, tendo camas e lençóis, ao invés de casas, hotéis, locadoras de automóveis, etc. Danny e Debbie então continuam nessa “relação” durante um tempo, atravessam o Ano Novo, apaixonam-se, deixam de estar apaixonados, lidam com os defeitos, discutem sobre relacionamento. São fotografados em closes transando (que fica bacana), em tomadas mais abertas, quando estão em crise doméstica (o que é engraçado) e em vista panorâmica, iluminada, sob o céu de Chicago, acompanhados por uma trilha sonora super 80´s (que não pára de tocar).

O filme foi baseado na peça “Sexual Perversity in Chicago”, de David Mamet., sobre Danny Shapiro e Debbie Soloman e como, com a ajuda de um casal de “melhores amigos”, o caso amoroso vai para o brejo. ''Sobre Ontem à Noite'' é um idílio romântico, interpretado com mais charme do que convicção por Rob Lowe e Demi Moore, nos papéis de Danny Martin e Debbie Sullivan, respectivamente. Elizabeth Perkins está muito bem, como a melhor amiga de Debbie (e às vezes, colega de quarto), Joan. Esta é uma professora crianças no jardim de infância, que tende a conversar como se estivesse relacionando sempre com crianças de 5 anos - mesmo nas grosserias com os rapazes do bar que freqüenta.

Não é por acidente que o melhor desempenho do filme fica por conta de James Belushi, como Bernie Litko, o auto-confiante (nem tanto), vulgar e maníaco melhor amigo de Danny. James está engraçado no papel de um sexista, um tipo inconveniente que não tem a minima nossa que quando adentra no bar ponto de encontro para uma “caçada”, mais se parece com um macaco numa loja de cristais.

Essas adaptações de peças de teatro em filmes sempre são difíceis de resultarem na mesma altura. Às vezes a tentativa vai além do esperado; outras, fica aquém da expectativa. Não sei qual foi o caso de “Sobre Ontem à Noite” em relação à peça de David Mamet. Porém, o filme em si é engraçado e trz algumas situações que um casal sempre está acostumado a enfrentar, ainda mais quando não há maturidade suficiente para a rotina da vida a dois e, para tal, recorre-se a palpites de terceiros. Ou a coisa melhora ou degringola de vez. Veja, mas não espere muito.




"Sobre Ontem à Noite" (About Last Night)
1986 – EUA - 113 min. – Colorido – DRAMA
Direção: EDWARD ZWICK. Roteiro: TIM KAZURINSKY E DENISE DeCLUE, baseado na obra “Sexual Perversity in Chicago”, de DAVID MAMET. Fotografia: ANDREW DINTENFASS. Montagem: HARRY KERAMIDAS. Música: MILES GOODMAN. Produção: JASON BRETT E STUART OKEN, distribuído pela TRI STAR PICTURES.

Elenco:
ROB LOWE (Danny) DEMI MOORE (Debbie), JAMES BELUSHI (Bernie), ELIZABETH PERKINS (Joan), GEORGE DiCENZO (Sr. Favio), MICHAEL ALLDREDGE (Mother Malone), ROBIN THOMAS (Steve Carlson), DONNA GIBBONS (Alex), MEGAN MULLALLY (Pat), PATRICIA DUFF (Leslie), ROSANA De SOTO (Sra. Lyons) e SACHI PARKER (Carrie).




Cenas do Filme:


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O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas

quinta-feira, 26 de março de 2009

UM DIA DE CÃO

“Sal, Wyoming não é um país.”



“Um Dia de Cão” é um melodrama (embora cheio de cenas divertidas), baseado em um assalto a banco desastrosamente mal planejado, que acontece no Brooklyn. O filme somente mostra o acontecimento, sem entrar nas razões que originaram o fato. Isso faz com que o impacto emocional do filme fique reduzido – não que isso comprometa o filme, pelo contrário – mas o torna mais sério e fascinante. O incidente no qual o filme é inspirado ocorreu numa agência do Chase Manhattan Bank, em 22 de agosto de 1972. Dois assaltantes – um dos quais buscava dinheiro para uma operação de mudança de sexo de um amigo – falham miseravelmente, após manterem os empregados do banco como reféns por 14 horas. O evento vira um acontecimento ridículo – os assaltantes aparecerem ao vivo na televisão e negociam um avião para fugirem dos pais.

O filme de Sidney Lumet preocupa-se exclusivamente com a tentativa de roubo e o tempo de duração do incidente. Ocasionalmente, presenciamos algumas tomadas da vizinhança do bairro; contudo, a maior parte de projeção tem como cenário o banco. Esse confinamento no espaço e no tempo é respoonsável por muito da intensidade dramática do filme.

Contribui para isso as praticamente perfeitas caracterizações do elenco, incluindo Al Pacino, como o mais mentalmente limitado da gangue - um homem corajoso, quando em contato com a multidão do lado externo do banco, porém perturbado em suas relações pessoais.

Ao mesmo tempo em que ele jura amor a sua esposa e filhos, o faz também a seu companheiro – com quem “casou” numa cerimomia alguns meses antes, tendo sua mãe como testemunha. Por outro lado, o companheiro, interpretado num misto de medo, dignidade e de forma doentia por Chris Sarandon, atesta que seu quase protetor tentou matá-lo em diversas ocasiões.

As outras caracterizações que valem ser mencionadas são as de Penny Allen, como uma eficiente caixa que se arrisca, mesmo sob tensão (“Meus ouvidos não são latas de lixo”, ela diz a certa altura), John Cazale como parceiro de crime de Al Pacino – um homem que não fuma porque “o corpo é um templo do Senhor” -, James Broderick e Charles Durning, como representantes da lei. Também estão bem Susan Peretz, como a mulher de Al Pacino, em quem se pode perceber a aflição, raiva, doçura e violência, que é uma das principais questões tratadas em “Um Dia de Cão”. Um Lumet que vale ser sempre revisitado.



Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon)
1975 – EUA - 125 min. – Colorido – DRAMA
Direção: SIDNY LUMET. Roteiro: FRANK PIERSON, baseado no artigo de revista de P.F. KLUGE e THOMAS MOORE. Fotografia: VICTOR J. KEMPLER. Montagem: DEDE ALLEN. Música: JOE HISAISHI. Produção: MARTIN BREGMAN e MARTIN ELFLAND, para a ARTISTS ENTERTAINMENT COMPLEX, INC , distribuído pela WARNER BROS.

Elenco: AL PACINO (Sonny), JOHN CAZALE (Sal), JAMES BRODERICK (Sheldon), CHARLES DURNING (Moretti), PENNY ALLEN (Sylvia), SULLY BOYAR (Mulvaney), BEULAH GARRICK (Margaret), CAROL KANE (Jenny), SANDRA KAZAN (Deborah), MARCIA JEAN KAZAN (Miriam) , AMY LEVITT (Maria) , JOHN MARRIOTT (Howard) e ESTELLE OMENS (Edna)


Prêmios:
Oscar de Melhor Roteiro Original (Frank Pierson)/1976.
BAFTA de Melhor Ator (Al Pacino) e Melhor Montagem (Dede Allen)/1976





Cenas do filme:



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O Veredito

domingo, 21 de dezembro de 2008

CREPÚSCULO

“Há quanto tempo você tem dezessete anos?.”


Amor à primeira vista e não à primeira mordida, "Crepúsculo" - baseado numa série de livros, “The Twilight Saga”, da autora Stephenie Meyer – é um romance juvenil, cheio de sinais, sussurros, instintos incontroláveis e olhares tímidos (e furiosos) entre dois adolescentes que dificilmente deveriam apaixonar-se um pelo outro. O par central é formado por Bella (de Isabella) Swan, interpretada com intensidade hesitante por Kristen Stewart, uma bonita e tímida adolescente do Arizona, filha de pais separados, que se muda para viver com o pai no estado de Washington. Essa mudança traz todas as dificuldades comumente já vistas em dramas juvenis do cinema e da TV norte-americana – relacionamento, conflito cultural, etc. Além disso, surge outra complicação, desta vez incomum: Bella apaixona-se por Edward Cullen (Robert Pattinson), um rapaz solitário, de humor e tez alterada, filho adotivo de vampiros.

Como nas histórias do gênero, “Crepúsculo” trata do desejo reprimido e da fome incontrolável por sangue – principalmente aquela que provém das mordidas na jugular. Entretanto, aquela sedução inicial que transforma inocência – como no caso da personagem virginal Lucy, de “Drácula” – em volúpia e luxúria, não é reproduzida no filme. Ao contrário, a contribuição da escritora – e talvez isso seja um dos pontos que possa agradar a maioria do público - é transformar o aspecto sanguinolento em algo menos ameaçador e mais moralista.

Aqui os vampiros não são monstros sedutores e perigosos, mas seres que para sobreviverem numa sociedade moderna têm que controlar seus instintos e, como parte dessa evolução, aprender a serem vegetarianos. Edward sempre cai em tentação, mas não morde. Leva uma vida monótona e quieta entre os seus (prefere o convívio em família para não se expor), na cidade nublada e chuvosa de Forks. Seu pai adotivo, Carlisle (Peter Facinelli), é um médico que, apesar do visual fantasmagórico, convive mais com os humanos. O resto da família, entretanto, incluindo sua mãe monocromática, irmãos e irmãs, joga baseball sob chuvas e trovões e ocasionalmente caçam animais.

Quando Edward encontra Bella pela primeira vez, olha-a de forma ameaçadora, com punhos cerrados. Ela, iludida, vai descobrindo a real natureza de Edward, que acaba se descrevendo como um monstro, com todos os poderes de um super-herói – corre em alta-velocidade, pula, lê pensamentos... Apesar disso tudo, nada se compara a seu maior dom: consegue manter os caninos sob controle.

Pattinson não compromete, mas poderia estar melhor. Ele é uma versão vampiresca de Brandon Walsh (bom moço) e Dylan (mau moço) de "Barrados no Baile". A diretora, talvez embalada por uma continuação da saga, naõ teve o pulso tão firme, talvez prejudicada por ter que evidenciar outras tramas paralelas ainda a serem desenvolvidas – é o caso de um clã de vampiros sanguinários que ameaçam a família e que aparecem brevemente no filme. De qualquer forma, Catherine Hardwicke mostra sensibilidade para retratar o universo adolescente e sua intimidade.

Embora Edward e Bella alcancem altos vôos em “Crepúsculo”, principalmente nas belas passagens visuais quando escalam e pulam de árvore em árvore, o aspecto moralista os trazem para uma menor altitude. Se a autora realizou uma história de vampiros “segura” para adolescentes e seus pais – a única ameaça real surge do clã de vampiros inimigos – é somente porque na verdade há uma coisa pior do que a morte, especialmente para os adolescentes: o sexo. Ao deparar-se com Bella deitada na cama (louca para ser mordida), Edward recua com um puritanismo vitoriano. Assim como a diretora, o pobre garoto perdeu os caninos e quase que inteiramente o "sangue". Ele perdeu tanto sua vitalidade, que poderia até estar morto. Eita, e ele não está?



Crepúsculo (Twilight)
2008 – EUA - 122 min. – Colorido – DRAMA
Direção: CATHERINE HARDWICKE. Roteiro: MELISSA ROSENBERG, baseado em romance de STEPHEINE MEYER. Fotografia: ELLIOT DAVIS. Montagem: NANCY RICHARDSON. Música: CARTER BURWELL. Produção: GREG MOORADIAN, MARK MORGAN E WYCK GODFREY, distribuído pela SUMMIT ENTERTAINMENT.

Elenco: KRISTEN STEWART( Bella Swan), ROBERT PATTINSON (Edward Cullen), BILLY BURKE (Charlie Swan), ASHLEY GREENE (Alice Cullen), NIKKI REED (Rosalie Cullen), JACKSON RATHBONE (Jasper Cullen), KELLAN LUTZ (Emmett Cullen), PETER FACINELLI (Dr. Carlisle Cullen), CAM GIGANGET (James/Nomad Vampire), TAYLOR LAUTNER (Jacob) , ANNA KENDRICK (Jessica) , MICHAEL WELCH (Mike Newton) e JUSTIN CHON (Eric).



Cenas do filme:


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Os Reis de Dogtown

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O MARTÍRIO DE JOANA D´ARC

“Na França, sou chamada Joana….”


Quando se preparava para dirigir o filme que o tornaria uma lenda, Carl Theodor Dreyer assistiu num teatro parisiense a atriz Renée Maria Falconetti (uma atriz da Comedie Française). Ironicamente, ela atuava em um papel cômico (uma ironia difícil de entender). Talvez Dreyer quisesse lançar um desafio que provavelmente ela não poderia ser capaz de enfrentar, mas que também não poderia deixar de encarar.“La Passion de Jeanne d'Arc” é um daqueles filmes lendários que todo cineasta conhece, mas provavelmente muitos não assistiram. É desafiador, não apenas por causa de sua história dramática (da mártir com vestimentas no formato de cruz), mas por causa da maneira única com que Dreyer abordou esse material difícil – além de filmar o roteiro que recebeu, decidiu realizar um filme baseado nas transcrições históricas do julgamento de Joana.

Assisti aos extras do DVD em que a filha da atriz menciona que Dreyer havia gostado do que viu quando a assistiu, mas não havia ficado inteiramente certo de Falconetti era a Joana esperada. Quando ela surgiu para o teste, completamente desvestida de maquiagem ou artifícios, ele percebeu que ela era seria a escolha perfeita. Provavelmente inspirado pela audição, o diretor optou por filmar o elenco todo sem maquiagem. Também planejou filmar os personagens todos em close up, fazendo com que os detalhes dos rostos de cada um ficassem registrados na tela: um testamento da persistente modéstia do diretor e seu elenco.

A crítica Pauline Kael, talvez a melhor de todas, chamou a atuação de Falconetti como “a maior performance já capturada em um filme”. De fato, sua atuação não somente é maravilhosa, mas inesquecível. Contudo, a experiência de assistir à atriz é muito mais do que presenciar a interação entre uma atriz e o público. Assistir ao trabalho de Falconetti em Joana é participar de um experimento humano. É uma lenta e dolorosa sinfonia de expressões e emoções muito difícil de ser superada. Sua eloqüência física é mostrada através de seu martírio ao longo do filme, que pode também ser o resultado de uma jornada de auto-conhecimento de Falconetti durante os cerca de 18 meses de filmagem.

Em virtude da natureza técnica do filme (close-ups desconcertantes, realçados pelos cenários que Dreyer construiu fora de proporção para cada um), Falconetti é quase sempre exigida para atuar em close.. E que expressão! Capaz de demonstrar cada emoção existente durante a projeção, a atriz vai de um extremo a outro, do medo à profunda dor.

Naturalmente, o julgamento de Joana não é justo. Desde o começo, é obvio que se trata de um tribunal para mera formalidade - e não para justiça. Joana foi rotulada para ser uma traidora, uma herege em relação à Igreja. Sua indumentária masculina é vista puramente como uma transgressão sexual e não como uma necessidade política que de verdade é – uma mulher de longos cabelos loiros, usando vestido, seria capaz de inspirar algum sentimento senão sexual em um exército?).

O diretor cobre Falconetti com branco, a cor da morte. De fato, o filme todo é embebido com uma aura de mortalidade humana, desde túmulos sendo cavados até o desejo de sangue tão evidente no rosto dos juízes. Há momentos de muita tristeza , como aquele em que Joana desmaia e sofre uma sangria em uma tigela, para sanar sua febre. Quando ela é levada para argüição final, vislumbra uma tumba sendo cavada. Sua dor tem extrema força. Ela ama a vida. Daí, decide assinar uma confissão de modo a escapar da morte. Quando medita sobre sua traição à Cristo, reconsidera sua confissão, decidindo honrar Deus com sua sentença de morte.

A morte de Joana é a última conquista de Falconetti – provavelmente a mais forte experiência interpretativa que já vi na tela. Falconetti marcha ao longo de uma multidão de observadores. Está amarrada a um tronco de madeira, tendo seu corpo prestes a ser queimado, mesmo com sua alma heróica sendo imortalizada. Ao preparar-se para morrer, ela olha o povo. Percebe uma mãe amamentando uma criança. Falconetti demonstra a dor de Joana para o futuro das gerações. Seu expressão angelical conta a historia que todos devemos aprender: que deveríamos viver para transcender nossa presença física na Terra.

Joana percebe que sua escolha, a mais dificil que alguém pode fazer, foi acertada. Embora tenha havido alguma evidência que a atriz tenha se queixado ao interpretar Joana, foi a última vez que ela aparece num filme. A experiência fortemente emocional somada ao formalismo e rigor da maneira de filmar de Dreyer (que dirigia e ensaiava cenas em ordem cronológica, repetindo inúmeras tomadas, etc.) devem ter tido uma tremenda carga na frágil, porém poderosa atriz. É uma pena, mas não difícil de entender se Falconetti jogou toda a carga interpretativa de uma vida inteira em uma única atuação.

Somente assisti a este filme uma vez, mas com certeza não hesitaria em revê-lo. Não se pode desconsiderar que a direção e orientação de Dreyer foram fundamentais para o resultado final. Mas é o trabalho iluminado e transcendental de Falconetti que eleva o filme a um patamar superior junto aos grandes filmes do cinema. "O Martírio de Joana D´Arc" é hipnótico, uma obra de arte e a atriz é francamente responsável por isso. É uma experiência tocante, perturbadora e marcante.



"O Martírio de Joana D´Arc" (La Passion de Jeanne D´Arc)
1928 – FRANÇA - 95 min. – Colorido – DRAMA
Direção: CARL TH DREYER. Roteiro: CARL TH DREYER E JOSEPH DELTEIL. Fotografia: RUDOLPH MATÉ. Montagem: CARL TH DREYER E MARGUERITE BEAUGÉ. Música:VICTOR ALIX. Produção: SOCIETE GENERALE DES FILMS.

Elenco: MARIA FALCONETTI (Jeanne d´Arc) EUGENE SILVAIN (Bispo Pierre Cauchon), ANDRÉ BERLY (Jean d'Estivet), MAURICE SCHUTZ (Nicolas Loyseleur), ANTONIN ARTAUD (Jean Massieu), MICHEL SIMON (Jean Lemaître), JEAN d´Yd (Guillaume Evrard), LOUIS RAVET (Jean Beaupère), ARMAND LURVILLE (Juiz), JACQUES AMNA (Juiz), ALEXANDRE MIHALESCO (Juiz) e LÉON LARIVE (Juiz).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Gertrud

domingo, 4 de maio de 2008

CARRUAGENS DE FOGO

“Acredito que Deus me criou com um objetivo determinado, mas também fez-me rápido.”


Durante a cerimonia de Oscar do ano de 1981, o tema musical composto por Vangelis para o filme “Carruagens de Fogo” tocou quatro vezes: com a entrega do prêmio de melhor filme, melhor roteiro, melhor vestuário e melhor trilha sonora. “Carruagens de Fogo” foi o primeiro longa do diretor Hugh Hudson, com um êxito somente igualável em seu filme posterior, Greystoke, a Lenda de Tarzã (1984). Em termos artísticos, o filme foi também louvável, já que o diretor conseguiu reproduzir em imagens quase míticas a força do espírito de uma competição esportiva clássica, a qual a moderna indústria do esporte parece ter deixado pra trás. A história que conta Hugh Hudson nos remete a 1924, quando dois atletas de nacionalidade britânica conseguiram nos Jogos Olímpicos de Paris as medalhas dos 100 e dos 400 metros.

Harold M. Abrahams (Ben Cross) é um inglês de origem judaica, que estuda Direito em Cambridge, logo após o término da Primeira Grande Guerra Mundial. Eric Liddell (Ian Charleson) é um escocês cristão, que algum dia ocupará a função em uma missão que seu pai conduz na China. Ambos sentem um obsessão por correr, que tem suas origens em razões pessoais. Abrahams quer chegar a ser o melhor porque somente na cabeça do grupo ele se sente plenamente integrado à sociedade inglesa. Como estudante em Cambridge, já pertence à elite, mas como filho de um emigrante judeu da Lituânia, vê-se obrigado a enfrentar muitos preconceitos.

Para o profundamente devoto Liddell, correr é uma espécie de ato religioso, uma forma de agradar a Deus: “Quando estou correndo, sinto que o Senhor se sente satisfeito”. Essa associação entre esporte e religião tem suas raízes na concepção vitoriana de um cristianismo de força física. Entre dois homens tão opostos não há como surgir, no mínimo, uma relação de intensa competitividade – o clássico estereótipo dos filmes que tem o esporte como tema central. Ao contrário, em “Carruagens de Fogo” logo se mostra evidente que o ponto forte não reside na rivalidade entre os dois personagens, mas sim na paixão compartilhada por correr.

O filme começa traçando um paralelo entre os dois heróis. Ambos preparam-se intensamente para os Jogos Olímpicos e também decepcionam as pessoas mais próximas a eles: Abrahams descuida de sua noiva Sybil (Alice Krige) e Liddell decepciona sua irmã Jennie (Cheryl Campbell), a quem prometeu ocupar a missão na China (um dever que faz alusão continuamente). Mas surgem mais dificuldades. Abrahams contrata um personal trainer (Ian Holm), que nem sequer é inglês e tem uma séria disputa com as autoridades universitárias. Por outro lado, Liddell, cuja religião lhe proíbe competir aos domingos, já estava a caminho da França quando decide não participar da competição, que ocorrerá naquele dia. O assunto vira contenda até com o Príncipe de Gales. No último momento, um colega da equipe britânica cede seu lugar em uma corrida programada para outro dia, em favor de Liddell.

Para ambos os protagonistas, a vitória nos Jogos Olímpicos é a coroação de uma longa caminhada de amadurecimento pessoal. Abrahams está feliz em poder desfrutar de uma relação convencional e de uma vida discreta e burguesa. Liddell pode aceitar, por fim, a herança de seu pai: a missão na China. Mas como ocorre no primeiro filme de Sylvester Stallone, Rocky (1975), ambos haviam conseguido muito antes suas vitórias mais importantes - Liddell, ao permanecer fiel a suas convicções; Abrahams, ao dar o melhor de si mesmo.

Além de ser uma história excepcionalmente contada, o filme está coberto por uma aura especial na representação das corridas. O nervosismo silencioso antes do início, as inúmeras repetições em câmera lenta, os primeiros planos dos rostos dos atletas e, em grande parte, também, a música eletrônica de Vangelis, fazem com que as cenas de corrida sobressaiam-se do resto da trama e consigam transmitir a tensão interna dos atletas. E, é precisamente essa visão na vida interior dos personagens, que nos conduz a outro nível de consciência: a da idéia de uma Inglaterra como uma grande potência, unida e integradora. Por isso, soa o hino nacional na vitória de Abrahams e o Príncipe de Gales felicita pessoalmente Liddell.

Nenhum dos dois personagens é tipicamente britânico. Abrahams é fruto da segunda geração de uma família de emigrantes judeus e Liddell é um escocês nascido na China. Ambos provêem dos mais remotos continentes do “Império”, mas são aceitos no coração deste, graças a seus triunfos esportivos. Não obstante, ainda que ambos compitam em nome da Inglaterra, nenhum o faz por motivos patrióticos. Tanto para o judeu Abrahams, como para o cristão Liddell, correr é uma crença pessoal e sua motivação provém da própria necessidade de buscar a verdade e o auto-conhecimento. Por essa razão, quem sabe, o filme começa e termina com uma imagem de inocência: jovens vestidos de branco correm sobre as ondas que quebram na praia.



Carruagens de Fogo (Chariots of Fire)
1981 – INGLATERRA - 123 min. – Colorido – DRAMA
Direção: HUGH HUDSON. Roteiro: COLIN WELLAND. Fotografia: DAVID WATKIN. Montagem: TERRY RAWLINGS. Música: VANGELIS. Produção: DAVID PUTTNAM, para ALLIED STARS, WARNER BROS. E ENIGMA PRODUCTIONS.

Elenco: BEN CROSS (Harold Abrahams) IAN CHARLESON (Eric Liddell), NIGEL HAVERS (Lord Andrew Lindsay), NICK FARREL (Aubrey Montague), DANIEL GERROLL (Henry Stallard), CHERYL CAMPBELL (Jennie Liddell), ALICE KRIGE (Sybil Gordon), sir JOHN GIELGUD (diretor do “Trinity”), LINDSAY ANDERSON (diretor do “Caius”) e IAN HOLM (Sam).

Prêmios:
Oscars de Melhor Filme (David Puttnam), Melhor Roteiro (Colin Welland), Melhor Vestuário (Milena Canonero) e Melhor Trilha Musical (Vangelis) /1981.

Trailer Original:


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Greystoke

quarta-feira, 26 de março de 2008

CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO

“Os fracassados, os dementes, os malditos. Eles são as verdadeiras pessoas desse mundo.”


O melhor que pode ser dito de “Crônica de Um Amor Louco”, de Marco Ferreri é que de mistura confusa de pretensão e pornografia, há um filme sério sobre arte e abandono sexual. O pior, que pode ser dito com certo grau de segurança, é que o filme de Marco Ferreri é arrastado, extremamente solene e cheio de falhas. Baseado nos contos de Charles Bukowski, “Crônica de Um Amor Louco” traz Ben Gazzara como Charles Serking, um tipo de poeta beat, cujo processo de criação artística envolve bebedeira, prosmicuidade e a visão ocasional de gaivotas na praia. Porém, é a prosmicuidade que o mantém ocupado, como no dia em que ele espia uma “presa” nas areias de Venice, Califórnia, seguindo-a até sua casa. No ônibus, Vera (Susan Tyrrell) olha Charles tão lascivamente é uma surpresa o motorista não colidir com um poste. Mas quando Charles chega ao apartamento da moça –forçando a porta, e prendendo sua boca com as mãos – quase de forma a violentá-la – ela pergunta:” Eu o conheço?”.

Logo, Vera está desfilando em trajes negros sumários falando a Charles: “ Eu quero que você seja mau comigo – da próxima vez quero que use o seu cinto”. “Eu não uso cinto”, diz Charles, muito orgulhoso dó controle da situação. “Você ter que emprestar-me um”, completa ele. Aparentemente, Vera não fica satisfeita, porque pouco tempo depois, chama a polícia.

Noutro dia de festa na vida do mulherengo, ele perambula bar adentro e encontra uma prostituta chamada Cass, interpretada por Ornella Muti. “Você realmente acha que sou bonita?”, ela pergunta. Claro que Charles acha. Assim Cass retira um grampo de cerca de 15 cm e fura seu rosto, fazendo o atendente do bar queixar-se, “Cass, eu disse para você não fazer isso aqui – não fica bem”. Enquanto isso, Charles observa, admirado, chegando à conclusão que Cass é a mulher de seus sonhos - embora, cada vez que se encontrem, ela surge com uma nova marca corpo ou machucado.

Esta cena, retirada de um curto conto de Bukowski chamado “A Mulher Mais Bonita da Cidade”, tem uma importância que no filme não fica retratado, O filme, apoiando-se nessas cenas, tende a suprimir o sentido original, tornando-as muitas vezes ridículas. “Crônica de Um Amor Louco” concentra-se somente na parte sensacionalista de Bukowski, exagerando-a de tal forma que tudo o mais fica perdido. O diretor Ferreri desenvolve esse conto com tamanha envergadura – imprópria – que mesmo sua indecência fica sem vida.

Ben Gazzara vacila ao longo do filme com uma nítida, embora desorientada, crença no material, mesmo que a maioria dos intérpretes que contracenam com ele estejam irremediavelmente mal. Ornella Muti é a exceção. Tyrrel gasta energia numa aparição sem fôlego. Apesar de tudo, o filme virou um cult dos anos 80. POr conta disso, vale a pena ser visto.




Crônica de Um Amor Louco (Tales of Ordinary Madness)
1981 – ITÁLIA - 95 min. – Colorido – DRAMA
Direção: MARCO FERRERI. Roteiro: MARCO FERRERI, SERGIO AMIDEI E ANTHONY FOUTZ, baseado no livro ERECTIONS, EJACULATIONS, EXHIBITIONS AND GENERAL TALES OF ORDINARY MADNESS, de CHARLES BUKOWSKI. Fotografia: TONINO DELLI COLLI. Montagem: RUGGERO MASTROIANNI. Música: PHILIPPE SARDE . Produção: JACQUELINE FERRERI, distribuído por FRED BAKER FILMS.

Elenco: BEN GAZZARA (Charles Serking) ORNELLA MUTI (Cass), SUSAN TYRRELL (Vera), TANYA LOPERT (Vicky), ROY BROCKSMITH (Atendente do bar), KATIA BERGER (Garota na praia), HOPE CAMERON (Dona da casa de praia), JUDITH DRAKE (Mulher gorda), PATRICK HUGHES (Vagabundo), WENDY WELLES (Fugitivo) e JAY JULIEN (Editor).

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A Comilança