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terça-feira, 13 de maio de 2008

SPEED RACER

“Você pensa que pode dirigir um carro e mudar o mundo? Não funciona assim!”


Muitos de nós que crescemos assistindo séries de TV nos anos 60 e 70 nos lembramos de Speed Racer. Aqueles personagens de olhos grandes (Trixie! Speed! Racer X!), com suas bocas sempre estáticas, nunca em sincronismo com os diálogos; aquelas cores brilhantes e backgrounds abstratos. Como tantos outras adaptações caras e tecnologicamente elaboradas da cultura pop, “Speed Racer” surge para honrar e refrescar um entusiamo da juventude do passado. A experiência infantil que os Wachowski evocam não é de um deleite fácil, como que recostar numa cadeira e assistir a um cartoon após o outro, mas sim o tédio incontrolável de ficar sentado no banco traseiro de uma viagem sem fim com a família, tendo as bochechas no assento de vinil quando alguns adultos ensinam você sobre as belezas dos lugares por onde se passa.

Muito do que vemos em “Speed Racer” de fato é bonito (assim como a trilha orquestrada à moda antiga de Michael Giacchino). As cores saltam da tela como se alguém tivesse feito um strike de boliche digital. Só lembrar do par de meias vermelhas que Speed (jovem) estava usando. Você já viu um vestido tão amarelo quanto aquele que Susan Sarandon usava? (ela interpreta a mãe de Speed. John Goodman, seu pai). Que tal a classe de aula super laranja? Esses matizes não acontecem na vida real. E, admitamos, é pouco interessante contemplar as implicações artísticas e filosóficas de ter atores de carne e osso fazendo parte de um ambiente completamente artificial no qual as leis físicas da dinâmica não mais se aplicam.

Você poderia, caso venha a refletir sobre isso, perder um tempo agradável num museu olhando imagens pequenas e estáticas e instalações de vídeo em looping das situações agitadas e confusas que ocorrem durante as cerca de 2 horas e 15 min deste filme. Há uma certa insistencia na forma que os Wachowski abordam o material, que é dar foco ao forte estilo visual, dispensando quase que inteiramente inteligência narrativa. Mas isso seria um caso mais fácil de resolver se o estilo visual não fosse tão incoerente.

As cores são quentes, o design do set é bacana e o chimpanzé é legal, mas as seqüências de ação – a super dinâmica do videogame em que jaz a reputação de virtuosismo dos Wachowski – são meio caóticas e, muitas vezes, sem sentido. Os deslizamentos suaves das corridas de carro (animadas digitalmente) e os saltos, de um lado para o outro, conseguem surpreender pouco mais do que assistir a um grupo de skatistas fazendo manobras num estacionamento. Para ser verdadeiramente sensacional as ações precisariam ter sentido e dar a idéia de tensão e graça de movimentos reais, por mais artificiais que os objetos em movimento possam parecer.

Mas, pelo menos aqueles carros – incluindo o Mach 5 de Speed, replicado dos velhos cartoons – entram em movimento. Quando chega a contar a história, “Speed Racer” não tem nada em comum com seu título. “Speed Racer” é sobre um garoto que gosta de dirigir carros, sujeito que gosta de simplicidade e velocidade. Ao contrário, a primeira meia hora preenche a tela com flashbacks que dão uma idéia do que vai acontecer, gerando uma confusão interminável a respeito de quem esta fazendo o que e porque. Depois que seu querido irmão mais velho – Rex morreu num acidente (ou foi morto?) – Speed (Emile Hirsch) é assediado pelo gângster, dono da companhia Royalton (Roger Allam), e também por Trixie (Christina Ricci).

Há alguma conotação acerca do conceito entre arte e negócio, entre o mítico amor por automobilismo e o impulso mercenário de submeter essa paixão ao lucro. Mas esse dilema seria mais forte caso “Speed Racer” não tentasse tão obviamente os dois caminhos – ser profundamente idealista e, ao mesmo tempo, fortemente comercial -, e falhado em ambos.

Os momentos de sabedoria contidos no diálogo (Racer X: “As corridas nunca vão mudar. O que importa é se permitimos que as corridas nos mudem”) são tolas e soam como frases jogadas. O irmãozinho travesso de Speed (Paulie Litt) e seu chimpanzé de estimação são mais chatos do que ternos. O misterioso Racer X (Matthew Fox) parece cansado e amuado e o carisma do ídolo teen sul coreano Rain (interpretando outro corredor) é um desperdício.

Criminosos, detetives, carros esporte e rivais de competição nada honestos todos desfilam na tela, mas nenhum deles capaz de gerar faíscas de humor, perigo, energia ou nobreza que dariam um pouco de magia. “Speed Racer” vai para algum lugar e seria importante sabermos qual o tempo de duração dessa viagem.



Speed Racer (Speed Racer)
2008 – EUA - 135 min. – Colorido – AVENTURA
Direção: LARRY E ANDY WACHOWSKI. Roteiro: LARRY E ANDY WACHOWSKI. Fotografia: DAVID TATTERSALL. Montagem: ZACH STAENBERG E ROGER BARTON. Música: MICHAEL GIACCHINO. Produção: LARRY E ANDY WACHOWSKI,JOEL SILVER E GRANT HILL, para WARNER BROS.

Elenco: EMILE HIRSCH (Speed Racer), CHRISTINA RICCI (Trixie), JOHN GOODMAN (Pops Racer), SUSAN SARANDON (Mãe de Racer), PAULIE LITT (Spritle), ROGER ALLAM (Royalton), RAIN (Taejo Togokhan) e MATTHEW FOX (Racer X).


Trailer Original:



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The Matrix

domingo, 4 de maio de 2008

CARRUAGENS DE FOGO

“Acredito que Deus me criou com um objetivo determinado, mas também fez-me rápido.”


Durante a cerimonia de Oscar do ano de 1981, o tema musical composto por Vangelis para o filme “Carruagens de Fogo” tocou quatro vezes: com a entrega do prêmio de melhor filme, melhor roteiro, melhor vestuário e melhor trilha sonora. “Carruagens de Fogo” foi o primeiro longa do diretor Hugh Hudson, com um êxito somente igualável em seu filme posterior, Greystoke, a Lenda de Tarzã (1984). Em termos artísticos, o filme foi também louvável, já que o diretor conseguiu reproduzir em imagens quase míticas a força do espírito de uma competição esportiva clássica, a qual a moderna indústria do esporte parece ter deixado pra trás. A história que conta Hugh Hudson nos remete a 1924, quando dois atletas de nacionalidade britânica conseguiram nos Jogos Olímpicos de Paris as medalhas dos 100 e dos 400 metros.

Harold M. Abrahams (Ben Cross) é um inglês de origem judaica, que estuda Direito em Cambridge, logo após o término da Primeira Grande Guerra Mundial. Eric Liddell (Ian Charleson) é um escocês cristão, que algum dia ocupará a função em uma missão que seu pai conduz na China. Ambos sentem um obsessão por correr, que tem suas origens em razões pessoais. Abrahams quer chegar a ser o melhor porque somente na cabeça do grupo ele se sente plenamente integrado à sociedade inglesa. Como estudante em Cambridge, já pertence à elite, mas como filho de um emigrante judeu da Lituânia, vê-se obrigado a enfrentar muitos preconceitos.

Para o profundamente devoto Liddell, correr é uma espécie de ato religioso, uma forma de agradar a Deus: “Quando estou correndo, sinto que o Senhor se sente satisfeito”. Essa associação entre esporte e religião tem suas raízes na concepção vitoriana de um cristianismo de força física. Entre dois homens tão opostos não há como surgir, no mínimo, uma relação de intensa competitividade – o clássico estereótipo dos filmes que tem o esporte como tema central. Ao contrário, em “Carruagens de Fogo” logo se mostra evidente que o ponto forte não reside na rivalidade entre os dois personagens, mas sim na paixão compartilhada por correr.

O filme começa traçando um paralelo entre os dois heróis. Ambos preparam-se intensamente para os Jogos Olímpicos e também decepcionam as pessoas mais próximas a eles: Abrahams descuida de sua noiva Sybil (Alice Krige) e Liddell decepciona sua irmã Jennie (Cheryl Campbell), a quem prometeu ocupar a missão na China (um dever que faz alusão continuamente). Mas surgem mais dificuldades. Abrahams contrata um personal trainer (Ian Holm), que nem sequer é inglês e tem uma séria disputa com as autoridades universitárias. Por outro lado, Liddell, cuja religião lhe proíbe competir aos domingos, já estava a caminho da França quando decide não participar da competição, que ocorrerá naquele dia. O assunto vira contenda até com o Príncipe de Gales. No último momento, um colega da equipe britânica cede seu lugar em uma corrida programada para outro dia, em favor de Liddell.

Para ambos os protagonistas, a vitória nos Jogos Olímpicos é a coroação de uma longa caminhada de amadurecimento pessoal. Abrahams está feliz em poder desfrutar de uma relação convencional e de uma vida discreta e burguesa. Liddell pode aceitar, por fim, a herança de seu pai: a missão na China. Mas como ocorre no primeiro filme de Sylvester Stallone, Rocky (1975), ambos haviam conseguido muito antes suas vitórias mais importantes - Liddell, ao permanecer fiel a suas convicções; Abrahams, ao dar o melhor de si mesmo.

Além de ser uma história excepcionalmente contada, o filme está coberto por uma aura especial na representação das corridas. O nervosismo silencioso antes do início, as inúmeras repetições em câmera lenta, os primeiros planos dos rostos dos atletas e, em grande parte, também, a música eletrônica de Vangelis, fazem com que as cenas de corrida sobressaiam-se do resto da trama e consigam transmitir a tensão interna dos atletas. E, é precisamente essa visão na vida interior dos personagens, que nos conduz a outro nível de consciência: a da idéia de uma Inglaterra como uma grande potência, unida e integradora. Por isso, soa o hino nacional na vitória de Abrahams e o Príncipe de Gales felicita pessoalmente Liddell.

Nenhum dos dois personagens é tipicamente britânico. Abrahams é fruto da segunda geração de uma família de emigrantes judeus e Liddell é um escocês nascido na China. Ambos provêem dos mais remotos continentes do “Império”, mas são aceitos no coração deste, graças a seus triunfos esportivos. Não obstante, ainda que ambos compitam em nome da Inglaterra, nenhum o faz por motivos patrióticos. Tanto para o judeu Abrahams, como para o cristão Liddell, correr é uma crença pessoal e sua motivação provém da própria necessidade de buscar a verdade e o auto-conhecimento. Por essa razão, quem sabe, o filme começa e termina com uma imagem de inocência: jovens vestidos de branco correm sobre as ondas que quebram na praia.



Carruagens de Fogo (Chariots of Fire)
1981 – INGLATERRA - 123 min. – Colorido – DRAMA
Direção: HUGH HUDSON. Roteiro: COLIN WELLAND. Fotografia: DAVID WATKIN. Montagem: TERRY RAWLINGS. Música: VANGELIS. Produção: DAVID PUTTNAM, para ALLIED STARS, WARNER BROS. E ENIGMA PRODUCTIONS.

Elenco: BEN CROSS (Harold Abrahams) IAN CHARLESON (Eric Liddell), NIGEL HAVERS (Lord Andrew Lindsay), NICK FARREL (Aubrey Montague), DANIEL GERROLL (Henry Stallard), CHERYL CAMPBELL (Jennie Liddell), ALICE KRIGE (Sybil Gordon), sir JOHN GIELGUD (diretor do “Trinity”), LINDSAY ANDERSON (diretor do “Caius”) e IAN HOLM (Sam).

Prêmios:
Oscars de Melhor Filme (David Puttnam), Melhor Roteiro (Colin Welland), Melhor Vestuário (Milena Canonero) e Melhor Trilha Musical (Vangelis) /1981.

Trailer Original:


Assista também:




Greystoke