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domingo, 4 de outubro de 2009

BOOGIE NIGHTS

“Você não sabe o que eu posso fazer”


Quando a câmera “corre” literalmente de modo ágil através da boate em San Fernando Valley no início do filme, apresenta todos os principais personagens com muita facilidade. O padrinho do grupo é Jack Horner, um diretor de filmes pornôs. Depois de um tempo fora das telas, Burt Reynolds ressurgiu com uma de suas melhores atuações em anos, com um toque divertido e suavemente irônico. Na boate, as atenções de Jack recaem sobre um rapaz chamado Eddie, que ele diz ser “Um pedaço de ouro com 17 anos”. Eddie trabalha na cozinha da boate e, pelo que parece, já havia aprendido a fazer trabalhos extras a clientes. O olhar clínico de Jack logo percebe que está diante de um futuro astro pornô. O filme é uma leitura livre sobre o astro do cinema pornográfico do final dos anos 70 e nos 80, John Holmes, papel interpretado por Mark Wahlberg, que consegue uma atuação bastante adequada: atrai todos os outros personagens do filme, faz a transição de um rapaz ingênuo para um arrogante ator, comporta-se como se Dirk Diggler (o nome artístico de Eddie) fosse realmente um grande nome. Ele faz tudo isso com uma ingenuidade cativante, sem artificialismos.

Seu quarto – na casa em que inicialmente mora com os pais – é coberta por pôsteres – garotas nuas, carros esportivos, artes marciais; enfim, todos os elementos de seu sonho americano. A primeira hora do filme mostra-o imbuído em atingir esses objetivos, o que ocorre de forma meteórica. O diretor Paul Thomas Anderson diverte-se com o clima mundano dos diretores de filmes pornôs que participam de festas e assistem a orgias como se estivessem assistindo a uma ópera. O único momento em que se alteram é quando vêem o superdotado Dirk em ação.

"Boogie Nights" não apela muito para nudez ou sexo (exceto durante a longa seqüência em que mostra Eddie atuando numa cena de seu primeiro filme); porém, insinua bastante, principalmente mostrando o grupo, observando Eddie quando atua. Entre seus colegas, todos estão atuando bem. Julianne Morre, maravilhosa, como uma alma perdida que Jack transformou em estrela do mundo pornô (sua estudada e propositada má atuação quando interpreta nos filmes em questão é perfeita); Don Cheadle como um aspirante a caubói está muito bem como um astro do circuito; William H. Macy, numa peruca que parece emprestada de algum membro da série “A Família Dó-Ré-Mi” (70), e sempre inconformado com a mulher que insiste em fazer sexo com outros parceiros nas festas em que participam, sempre embaraçando-o; Philip Seymour Hoffman, como o fã ardoroso de Eddie; Robert Ridgely, como o patrocinador financeiro que, assim como Jack, investe em Eddie; Ricky Jay, como um cameraman e John C. Reilly, como o principal amigo de Eddie em sua empreitada.

O filme, que se inicia em 1977 – ano de "Os Embalos de Sábado À Noite" -, vai agregando algumas etapas, tais como o batismo virtual de Dirk Diggler numa banheira o show de fogos de Ano Novo na passagem dos anos 70 para os 80. A partir daí, a decadência, com o cinema sofrendo a concorrência das fitas de vídeo – que mudou o mundo pornográfico -, as drogas, a transformação dos atores e a chegada de novos astros. Essa decadência culmina, pelo menos no filme, com uma tentativa de assalto de Eddie junto com parte do grupo a um usuário de drogas. No filme, montado em seqüências de festas e takes de filmagem, fica claro para o espectador que a "festa" acabou.

Embora o filme insinue que as coisas não vão terminar bem, perto da carreira de um ator como John Holmes, tudo parece pouco importante. O grande mérito do diretor – além dos malabarismos de câmera e das tomadas longas – é a coragem de percorrer um tema como esse, sem cair em banalidades. Anderson mostra ótimo talento para diálogos, especialmente quando em determinado momento Eddie/Dirk se compara a Napoleão “no Império Romano”.

Apesar de seus mais de 150 minutos, "Boogie Nights" é envolvente e prende a atenção. Entretanto, com tal duração, fica-se a sensação de que poderia alçar vôos mais altos do que efetivamente alcança. Mas é apenas uma sensação. Trata-se de um ótimo filme, conduzido por um grande diretor.



Boogie Nights (Boogie Nights)
1997– EUA - 155 min. – Colorido – DRAMA
Direção: PAUL THOMAS ANDERSON. Roteiro: PAUL THOMAS ANDERSON. Fotografia: ROBERT ELSWITT. Montagem: DYLAN TICHENOR. Música: MICHAEL PENN. Produção: LLOYD LEVIN, JOHN LYONS, PAUL THOMAS ANDERSON E JOAN SELLAR, distribuído pela NEW LINE CINEMA.
Elenco: MARK WAHLBERG (Eddie Adams/Dirk Diggler), JULIANNE MOORE (Amber Waves), BURT REYNOLDS (Jack Horner), DON CHEADLE (Buck Swope), JOHN C. REILLY (Reed Rothchild), WILLIAM H. MACY (Little Bill), ROBERT RIDGELY (Coronel), RICKY JAY (Kurt Longjohn), PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (Scotty) e ALFRED MOLINA (Rahad Jackson).



Cenas do filme:


Assista também:



Magnólia

domingo, 10 de maio de 2009

O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS

“Você sabe o que é isso? É fogo de Santelmo”


Na linha dos filmes sobre juventude escolar, “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” fica no meio termo entre “O Reencontro” (83) e “O Clube dos Cinco” (85). No caso, seus personagens já estão suficientemente adultos para grandes demonstrações de idealismo; porém, jovens o bastante para necessitarem de auto-afirmação. No decorrer da estória, logo se deparam com a situação em que devem abrir mão das baladas e encontros noturnos no bar St. Elmo´s (que dá título ao filme), em busca de mais foco e responsabilidade para suas vidas. O filme tem como principal chamariz um elenco de postulantes ao estrelato (à época), que fizeram carreira e tornaram-se famosos posteriormente. Alguns deles, os brat-pack, lançados por Francis F. Coppola, dois anos antes, em “Vidas Sem Rumo” (83). Parece que, por causa disso, o diretor Joel Schumacher teve alguma dificuldade de tornar a participação do elenco proporcional. Em alguns momentos, a edição faz com que os personagens sejam um pouco superficiais, com a sensação de que deveriam ter uma presença maior. O filme fica bem mais interessante quando flerta com o elenco que, de fato, esbanja charme. Quando tenta abordar temas mais sérios dos personagens e seus problemas – drogas, sexualidade, carreira, relacionamento – o filme perde um pouco.

As tentativas, que lembram “O Clube dos Cinco”, de amenizar os assuntos - a euforia dando lugar às lágrimas, confissões, promessas de mudança e de amizade eterna, etc., - são mais bem sucedidas do que abordá-los de forma mais dura e realista. Uma cena embaraçosa é aquela na qual as três amigas – Jules (Demi Moore), Leslie (Ally Sheedy) e Wendy (Mare Winningham) - encontram-se para uma sopa num refeitório popular. Jules, em tom de brincadeira com as demais, declara que vai acabar sem dinheiro, como uma indigente – ao seu lado, uma velha indigente assiste a tudo. Apesar disso, fica uma parábola, na qual a senhora parece mais à vontade na situação do que a problemática Jules.

Há também um tom irônico em certas passagens, resvalando em aspectos políticos, mas que ficam frágeis. É o caso de Alec (Judd Nelson), que decide alterar sua filiação política por razões de salário. “Um senador republicano paga mais do que um senador democrata.", ele diz à namorada. "A gente podia comprar um sofá maior e depois a gente se casava". Em alguns momentos é esse o tipo de preocupação do filme – os yuppies da década de 80.

O diretor requinta o aspecto visual do filme - cenários modernos e moradias que lembram lofts, o que mostra alguns personagens esbanjando recursos esforçando para manter as aparências. Entretanto, a questão principal que o filme colocou é adivinhar daqueles atores/atrizes conseguiriam alçar vôos mais altos, após esse projeto.
Rob Lowe - cujo ar rebelde no enredo tornou-o o principal nome do elenco - virou um ídolo, repetiu outros filmes do gênero e obteve sua maturidade na série de TV “West Wing” (1999-2006). Em "O Primeiro Ano...", desempenha o papel do petulante e irresponsável Billy Hicks. Emilio Estevez, que também teve sua careira ampliada posteriormente, faz o papel de um biruta apaixonado, que às vezes se mete em situações embaraçosamente ridículas - principalmente quando seu objeto de desejo é bela Andie MacDowell.

Judd Nelson, o brigão de "O Clube dos Cinco", não está tão diferente aqui, apesar da gravata - numa demonstração de ser o personagem mais maduro do grupo, embora não o seja. Sua autoconfiança no filme às vezes descamba para o humor. Andrew McCarthy desempenha o personagem masculino menos intransigente do filme – o de um aspirante escritor, amigo de todos e o iconoclasta do grupo.

As personagens femininas são menos desenvolvidas no roteiro. Destaque para linda e drogada Jules (Demi Moore), a enfeitada e “preocupada com todos” Leslie (Ally Sheedy) e a assistente social virgem Wendy (Mare Winningham). Demi Moore é bela e ocupa a tela, embora não faça nada de especial, Maré Winningham faz muito para um personagem discreto e Ally Sheedy procura ser agradável, com senso de humor e inteligência.

"O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas" é um bom filme da década de 80. Mostra um produto para uma geração recém-saída de universidade e o início da vida profissional. Ao estilo Hollywood, diga-se bem.




"O Primeiro Ano do Resto de Nosss Vidas" (St. Elmo´s Fire)
1985 – EUA - 88 min. – Colorido – DRAMA
Direção: JOEL SCHUMACHER. Roteiro: JOEL SCHUMACHER E KARLS KURLANDER. Fotografia: STEPHEN H. BURUM. Montagem: RICHARD MARKS. Música: DAVID FOSTER. Produção: LAUREN SHULER, distribuído pela COLUMBIA.

Elenco:
EMILIO ESTEVEZ (Kirby Keger) ROB LOWE (Billy Hicks), ANDREW McCARTHY (Kevin Dolenz), DEMI MOORE (Jules), JUDD NELSON (Alec Newbary), ALLY SHEEDY (Leslie Hunter), MARE WINNINGHAM (WEndy Beamish), MARTIN BALSAM (Sr. Beamish), ANDIE MacDOWELL (Dale Biberman), JOYCE VAN PATTEN (Sra. Beamish) e JENNIE WRIGHT (Felicia).




Cenas do Filme:


Assista também:



O Clube dos Cinco

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

LA LUNA

“Meu Deus, o que eu fiz a você?”


O filme mostra uma bonita e bem sucedida cantor lírica e sua relação incestuosa com seu filho de 15 anos, um junkie. Quando o marido de Caterina (Jill Clayburgh) morre no inicio do filme, ela se muda com seu filho Joe (Matthew Barry) para Roma, onde possui um contrato profissional, pouco se importando com o impacto dessa mudança abrupta sobre o garoto. Joe, que a admira, é forçado a ficar em segundo plano em seu afeto à medida que a carreira da mãe avança com a providencial alegria de uma viúva liberal. Joe recorre às drogas e, quando sua mãe percebe o que está acontecendo, tenta resgatar o tempo perdido. O tema é sério e forte. Entretanto, há um senão na forma como o diretor lida com a questão. Um dos melhores momentos do filme é a cena em que Joe, sentindo uma necessidade desesperadora pela droga, é confortado pela mãe, de forma ingenuamente sexy (se é que isso seja possível). Enquanto ela o embala, ele começa a sugar seus seios. A reação dela a isso é levá-lo ao orgasmo e assim somos levados a entender essa atitude como uma “droga suavizante”. Será que um drogado tem tanto tesão a ponto de substituir o prazer sexual pela droga, numa crise de abstinência? Não quero ser literal, mas fica a questão.

A dificuldade de lidar com alguns filmes de Bertolucci é justamente o fato de que ele não parece um artista totalmente desprovido de humor, como parece. Por causa disso, pode ser que eu esteja equivocado, mas faço uma leitura de que “La Luna” não seja tão sério quanto pareça. Pode até ser que tenha a pretensão de ser um filme engraçado , quando parece demonstrar o contrario. Entretanto, não acho que seja o caso. Suspeito que Bertolucci quer nos emocionar e também chocar com a situação do “casal”.

Jill Clayburgh como Caterina está esplendida, chia de nuances e contradições. Egoísta, mas generosa; amorosa, mas esquecida; auto-centrada em si mesma, mas verdadeiramente apaixonada pela profissão. Quando a atriz diz a seu filho, cuja passividade a enfurece, “Venho de um mundo onde cantar, criar e sonhar nada significa”, traz a força que somente uma grande atriz, em atuação rara e complexa, poderia realizar. O filme talvez não esteja à mesma altura.

Apesar da espetacular fotografia de Vittorio Storaro e das peças musicadas de "Il Trovatore," "La Traviata," "Rigoletto" e"Un Ballo in Maschera" , “La Luna" deixa-me na dúvida. Neste caso, prefiro encará-lo como uma grande metáfora. Eu o acharia até poético caso Bertolucci não insistisse em tratar Joe como um estudo de caso de uma criança rejeitada e não amada.

“Posso fazer todas as coisas que papai faz para você”, o garoto diz no começo do filme. Mais tarde, ele brada, como num dramalhão, que sua mãe não o ama e nunca amou. Lá na frente, Caterina lamenta: “Meu Deus, o que fiz a você”. Nenhuma dose de Verdi pode transformar esses clichês em algo maior, à medida que o filme vai chegando ao seu final. Se isso causa um embaraço em algum musical da Broadway, o que dizer num filme passado em Roma, tendo óperas como pano de fundo.

Há um numero de momentos isolados que são poderosos e fortemente angustiantes, mas tais efeitos não são tão difíceis de serem atingidos quando são mostradas cenas de um viciado furando o braço com um garfo no lugar de uma seringa. Jill Clayburgh está sempre extraordinária sob quaisquer circunstâncias. Há também boas atuações coadjuvantes como as de Renato Salvatori, Fred Gwynne, Alida Valli e Tomas Milian, mas nenhuma delas é suficiente para colocar o filme num patamar de obra-prima.



"La Luna" (La Luna)
1979 – EUA/ITÁLIA - 142 min. – Colorido – DRAMA
Direção: BERNARDO BERTOLUCCI. Roteiro: GIUSEPPE BERTOLUCCI, CLARE PEPLOE E BERNARDO BERTOLUCCI, baseado na história original de FRANCO ARCALLI, BERNARDO BERTOLUCCI E GIUSEPPE BERTOLUCCI . Fotografia: VITTORIO STORARO. Montagem: GABRIELLA CRISTIANI. Música: GIUSEPPE VERDI, BARRY GIBB, ROBIN GIBB E MAURICE GIBB. Produção: GIOVANNI BERTOLUCCI para a FICTION CINEMATOGRAFICA S.P.A., distribuído pela 20th Century-Fox.

Elenco:
JILL CLAYBURGH (Caterina Silveri), MATTHEW BARRY (Joe), VERONICA LAZAR (Marina), RENATO SALVATORI (Comunista), FRED GWYNNE (Douglas Winter), TOMAS MILIAN (Giuseppe), ALIDA VALLI (Mãe de Giuseppe ), ELISABETTA CAMPETI (Arianna), CLARA BINDI (Empregada da Estalagem), MARIO PASSANTE (Homem no bar) e RENATO TERRA (Decorador).


Cenas do Filme:



Do mesmo diretor:



O Último Tango em Paris