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domingo, 17 de maio de 2009

SOBRE ONTEM À NOITE

“Eu peguei o fone e ela já estava na linha”


“Sobre Ontem à Noite” é uma comédia romântica a respeito de um bonito casal de moradores de Chicago – Danny Martin e Debbie Sullivan – que vive nos arredores do Side North sem pertecerem necessariamente à tribo yuppie. Enquanto Debbie é uma diretora de arte numa agência de propaganda, Danny está sem rumo profissional. Ele comercializa produtos para restaurantes, sem pique ou convicção - somente porque tem que cumprir algum ofício. Ambos se vêem pela primeira vez num jogo de softball numa praça. Depois, encontram-se novamente num singles bar. A partir daí, ficam atraídos e, ao invés de engatarem em outro drinque, seguem para casa e transam. Tudo parece um Banco Imobiliário, tendo camas e lençóis, ao invés de casas, hotéis, locadoras de automóveis, etc. Danny e Debbie então continuam nessa “relação” durante um tempo, atravessam o Ano Novo, apaixonam-se, deixam de estar apaixonados, lidam com os defeitos, discutem sobre relacionamento. São fotografados em closes transando (que fica bacana), em tomadas mais abertas, quando estão em crise doméstica (o que é engraçado) e em vista panorâmica, iluminada, sob o céu de Chicago, acompanhados por uma trilha sonora super 80´s (que não pára de tocar).

O filme foi baseado na peça “Sexual Perversity in Chicago”, de David Mamet., sobre Danny Shapiro e Debbie Soloman e como, com a ajuda de um casal de “melhores amigos”, o caso amoroso vai para o brejo. ''Sobre Ontem à Noite'' é um idílio romântico, interpretado com mais charme do que convicção por Rob Lowe e Demi Moore, nos papéis de Danny Martin e Debbie Sullivan, respectivamente. Elizabeth Perkins está muito bem, como a melhor amiga de Debbie (e às vezes, colega de quarto), Joan. Esta é uma professora crianças no jardim de infância, que tende a conversar como se estivesse relacionando sempre com crianças de 5 anos - mesmo nas grosserias com os rapazes do bar que freqüenta.

Não é por acidente que o melhor desempenho do filme fica por conta de James Belushi, como Bernie Litko, o auto-confiante (nem tanto), vulgar e maníaco melhor amigo de Danny. James está engraçado no papel de um sexista, um tipo inconveniente que não tem a minima nossa que quando adentra no bar ponto de encontro para uma “caçada”, mais se parece com um macaco numa loja de cristais.

Essas adaptações de peças de teatro em filmes sempre são difíceis de resultarem na mesma altura. Às vezes a tentativa vai além do esperado; outras, fica aquém da expectativa. Não sei qual foi o caso de “Sobre Ontem à Noite” em relação à peça de David Mamet. Porém, o filme em si é engraçado e trz algumas situações que um casal sempre está acostumado a enfrentar, ainda mais quando não há maturidade suficiente para a rotina da vida a dois e, para tal, recorre-se a palpites de terceiros. Ou a coisa melhora ou degringola de vez. Veja, mas não espere muito.




"Sobre Ontem à Noite" (About Last Night)
1986 – EUA - 113 min. – Colorido – DRAMA
Direção: EDWARD ZWICK. Roteiro: TIM KAZURINSKY E DENISE DeCLUE, baseado na obra “Sexual Perversity in Chicago”, de DAVID MAMET. Fotografia: ANDREW DINTENFASS. Montagem: HARRY KERAMIDAS. Música: MILES GOODMAN. Produção: JASON BRETT E STUART OKEN, distribuído pela TRI STAR PICTURES.

Elenco:
ROB LOWE (Danny) DEMI MOORE (Debbie), JAMES BELUSHI (Bernie), ELIZABETH PERKINS (Joan), GEORGE DiCENZO (Sr. Favio), MICHAEL ALLDREDGE (Mother Malone), ROBIN THOMAS (Steve Carlson), DONNA GIBBONS (Alex), MEGAN MULLALLY (Pat), PATRICIA DUFF (Leslie), ROSANA De SOTO (Sra. Lyons) e SACHI PARKER (Carrie).




Cenas do Filme:


Assista também:



O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas

domingo, 16 de março de 2008

VOLVER

"Coisas de mulher.”


O filme “Volver” é uma história sem flashbacks ou intrincadas tramas, mas é um filme de um grande diretor. Contribui para isso o conjunto de atrizes poderosas e cheias de recursos, em particular da protagonista, Penélope Cruz. Ela interpreta Raimunda, uma trabalhadora “empurrada” para todas as direções por acontecimentos nada fáceis e pelas necessidades das mulheres que estão ao seu redor. Em um ponto no filme, ela atende a porta para seu vizinho, Emílio (Carlos Blanco), um dos tímidos e supérfluos homens que aparecem na tela. Emílio, que claramente tem uma “queda” por Raimunda, percebe uma mancha de sangue em seu pescoço e pergunta se ela está bem. Ela responde: “Coisas de mulher” ou coisa parecida, num tom de piada e verdade.

Realmente há muitos problemas e dores de cabeça. O sangue pertence a seu marido, Paco (Antonio de la Torre), que morreu recentemente num mar vermelho no chão da cozinha, depois de levar uma facada no estômago. Sua morte não é para ser desprezada – e ele recebe um funeral que merece – nem para ser lamentada. Os homens para Raimunda, e seu ciclo de relacionamento, tendem a ser maus, desprezíveis ou simplesmente ausentes: são maridos errantes, aproveitadores, pesos-mortos – causam problemas. Mas “Volver” não trata dos homens.

Trata, sobretudo, do que as feministas norte-americanas do passado chamavam de irmandade, e também sobre as complicadas semelhanças que o diretor mostra durante o crescimento de uma criança em uma sociedade espanhola, tradicional, oprimida e patriarcal. Os problemas de Raimunda podem ser extremos, mas ela livra-se deles com determinada paixão, dando vazão para cada sentimento, nunca resvalando em auto-comiseração.

Há muitos outros que precisam de sua atenção, em especial sua filha adolescente, Paula (Yohana Cobo), que foi objeto da lúxuria de Paco. Raimunda também tem que dar atenção a Sole (a espetacular Lola Dueñas), sua irmã, cujo rosto registra solidão e desapontamento mesmo quando tenta demonstrar estar com muitos problemas ou mesmo bem humorada; também para sua tia Paula (Chus Lampreave); e, finalmente para Agustina (Blanca Portillo), uma vizinha, cujos lamentos são tantos que poderiam ocupar outro filme. Há também um restaurante para ser administrado (cujo dono é Emílio, mas que Raimunda toma conta, durante sua ausência).

Neste papel, Penélope Cruz mostra que realmente é uma atriz de peso, em parte porque ela consegue ser crua, despretensiosa e mesmo vulgar, sem perder um milímetro de seu glamour. Além disso, o diretor foi inspirado ao colocar Carmen Maura como a mãe de Raimunda, que adiciona um toque de gótico (e surrealista) à estória. O humor de Carmen Maura é um elemento crucial na estrutura do filme. – é uma crônica, de tragédia e terror, “envernizada” em cores fortes e brilhantes.

Para relacionar detalhes da narrativa – morte, câncer, traição, abandono familiar, mais morte, etc. – o filme teria que criar uma impressão de melancolia e angústia. Mas isso não ocorre com “Volver”, que trata do tema de forma fácil – sem ser fútil – e densa, sem nunca cair no sentimentalismo. O diretor admite ceticismo – e leva isso a sério – a partir de uma perspectiva fundamentalmente humorada. Muitos poucos diretores conseguiram sorrir tão convincentemente face à miséria e fatalidade – um deles é Jean Renoir. Um amigo, ao assistir ao filme, lembrou-me de outro – Billy Wilder. Mesmo não tendo assistido muito Almodóvar e não saber se ele ainda possui tal calibre, provavelmente ele pode fazer companhia a esses dois grandes mestres do cinema.

“Volver” é fascinante na sua concepção– a direção de fotografia de José Luis Alcaine e a suave e apaixonada trilha sonora de Alberto Iglesias – mas nunca artificial. O filme seduz o espectador, convida-o a permanecer atento e ansioso. Oferece algo mais do que realismo. O mundo real, afinal de contas, é o lugar onde todos temos que viver; para alguns de nós, contudo, o mundo de Almodóvar, parece ser seu lar.



Volver (Volver)
2006 – ESPANHA - 121 min. – Colorido – DRAMA
Direção: PEDRO ALMODÓVAR. Roteiro: PEDRO ALMODÓVAR. Fotografia: ALBERTO IGLESIAS. Montagem: JOSÉ SALCEDO. Música: JOSÉ LUIS ALCAINE. Produção: ESTHER GARCIA, distribuído pela SONY PICTURES CLASSICS.

Elenco: PENÉLOPE CRUZ (Raimunda), CARMEN MAURA (Irene), LOLA DUEÑAS (Sole), BLANCA PORTILLO (Agustina), YOHANA COBO (Paula), CHUS LAMPREAVE (Tia Paula), ANTONIO DE LA TORRE (Paco) e CARLOS BLANCO (Emílio).


Trailer Original:


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