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terça-feira, 12 de outubro de 2010

SANGUE E AREIA

“Encare como meu tributo a sua bravura.”


Paixão e traição são a tônica desta tragédia clássica com Rudolph Valentino. Aqui ele interpreta Juan Gallardo, um ingênuo aspirante a toureiro, casado com sua amada de infância Carmen (Lila Lee). Logo que ganha fama como matador, cai nas graças e, literalmente, nos braços da vamp Doña Sol (Nita Naldi) – uma devoradora de homens que mantém seu status por conta de amizades com pessoas influentes da sociedade. À medida que se envolve com Sol, Gallardo vê sua carreira declinando, principalmente quando percebe que Sol o usou e também se interessa por outros homens. Com o casamento abalado com Carmen, Gallardo participa de uma tourada final em que a imagem de Sol com outro nas arquibancadas acaba lhe reservando um desfecho trágico.

Nita Naldi, diva do cinema mudo, foi selecionada pessoalmente pelo escritor Vicente Blasco-Ibanez para o papel da sedutora Doña Sol. E de fato, ela “ataca” Valentino que fica desconcertado com seu comportamento e investidas. Valentino sendo seduzido consegue arrancar algumas gargalhadas. Tudo soa artificial e “overacted”. Nita parece menos forçada que o galã, mas também é risível. Esse foi seu principal filme e rendeu outras aparições com Valentino em "A Sainted Devil" (24) e "Cobra" (25).

Apesar de datado, e muito inferior ao remake de 49, dirigido por Rouben Mamoulian e estrelado por Tyrone Power como Gallardo, Rita Hayworth como Doña Sol e Linda Darnell como Carmen, as cenas de arena e das touradas são bem feitas e se constituem no que o filme possui de razoável. Vale, entretanto, assistir, para conhecer essa dupla que mexeu com os fãs do cinema na década de 20.




"Sangue e Areia" (Blood and Sand)
1922 – EUA - 89 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: FRED NIBLO. Roteiro: JUNE MATHIS, baseado no romance de VICENTE BLASCO IBANEZ. Fotografia: ALVIN WYCKOFF. Montagem: DOROTHY ARZNER. Produção: PARAMOUNT PICTURES.

Elenco:
RUDOLPH VALENTINO (Juan Gallardo) NITA NALDI (Doña Sol), LILA LEE (Carmen) CHARLES BELCHER (Don Joselito).




Cenas do Filme:


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O Filho do Sheik

quinta-feira, 16 de julho de 2009

PONYO

“Susuke!!!.”


Ponyo, o mais recente filme de Miyazaki é belo. Seu encantamento ancora-se, sobretudo, na amizade entre a personagem principal e Susuke, seu amiguinho. Apesar de não surpreender do ponto de vista estético, o diretor resgata um pouco do universo de “A Pequena Sereia” (89) e, como sempre, faz uma obra de arte. Em se tratando do diretor, não surpreender não significa demérito algum, já que o mesmo se encontra em um patamar superior a qualquer animador ou estúdio de animação da atualidade. Mesmo singelo, o tratamento visual, sempre artesanal, ruma à perfeição.O filme traz a trajetória de Ponyo, uma peixinha vermelha que vive num reino encantado no fundo do mar. À beira do oceano, mora Susuke, um garoto de cinco anos, com sua madrasta Lisa. O pai, sempre ausente, é um marujo em alto-mar. Certo dia, Ponyo foge de casa e chama a atenção do pequeno Susuke, que a adota, leva-a a escola e passa a fazer parte de seu dia-a-dia. O pai de Ponyo, uma versão oriental de Poseidon, sai das profundezas do oceano, enfurecido, para resgatá-la.

De volta ao oceano, Susuke tenta encontrá-la em vão. Destemida, a peixinha rebela-se, foge, volta à superfície e transforma-se em uma menininha para ficar para sempre ao lado de seu Susuke. Aqui, Miyazake nos mostra, através de sua pequena grande Ponyo, como o idealismo rebelde de uma criança não deve ser uma exceção e sim a regra.

Com forte apelo ecológico - a urgente necessidade de equilíbrio entre o ser humano e a natureza – com a demonstração inequívoca de catástrofes - tsunamis surrealistas, que ameaçam o estado das coisas -, o filme mostra, através da amizade do par central, que o desejo e a força de vontade podem alterar o curso da vida das pessoas.

O uso desse tipo de fenômeno natural foi muito feliz, pois são rotineiros e podem acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar. Assim como outras coisas na vida. Mas essa é apenas uma leitura que se pode ter ao assistir a Ponyo. Há outras. Mais complexas ou mais simples. Independentemente de qualquer reflexão que se faça, Ponyo comove pessoas de quaisquer faixas etárias. Sobretudo, porque, apesar de sua aparente complexidade, é um filme simples, dirigido por um adulto genial que com sua alma de criança consegue questionar os rumos da nossa sociedade.



Ponyo(Gake No Ue No Ponyo)
2008 – JAPÃO - 100 min. – Colorido – ANIMAÇÃO
Direção: HAYAO MIYAZAKI. Roteiro: HAYAO MIYAZAKI E MELISSA MATHISON. Fotografia: ATSUSHI OKUI. Montagem: HAYAO MIYAZAKI E TAKESHI SEYAMA. Música: JOE HISAISHI. Produção: HAYAO MIYAZAKI.

Elenco: YURIA NARA( Voz de Ponyo), HIROKI DOI (Voz de Sosuke), JÔJI TOKORU(Voz de Fujimoto), TOMOKO YAMAGUCHI (Voz de Risa), YUKI AMAMI (Voz de Guaranmamare) e KAZUSHIGE NAGASHIMA (Voz de Kôichi) .



Cenas do filme:



Assista também:




Meu Vizinho Totoro

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

ROMEU E JULIETA

“Em seus lábios, expio meus pecados.”


“Romeu e Julieta” é um romance trágico que tem sido filmado à exaustão. Em 1936, foi estrelada uma versão com Norma Shearer e Leslie Howard. Os atores estavam com uma idade excessiva para interpretarem o par central. Outras versões mais modernas foram feitas: “Amor, Sublime Amor” (1961), de Robert Wise, que transpõe para Nova Iorque o romance em meio a uma briga entre gangues; “Inimigos pelo Destino” (1987), de Abel Ferrara, sobre um romance proibido entre uma jovem de Chinatown e um rapaz de Little Italy; também, “Romeu + Julieta” (1996), de Baz Luhrmann, sobre punks californianos em Verona Beach. Porém, é bem provável que por muitos anos a melhor versão para o cinema continue sendo esta de Franco Zefirelli. A começar pela escolha de atores adolescentes para interpretarem os personagens. Na obra de Shakespeare, Julieta deveria ter cerca de 14 anos e Romeu um puco mais. Olivia Hussey, argentina de 16 anos, foi escolhida através de uma pesquisa internacional. Leonard Whiting, inglês, tinha a idade de 17 anos.

Zefirelli foi criticado por haver suprimido parte da retórica predominante na peça; entretanto, foi uma decisão acertada, pois muito do que no palco precisa ser explicitado ou descrito, nas telas pode simplesmente ser mostrado. É o caso de Benvolio, que assiste ao funeral de Julieta e, portanto, não há a necessidade de descrevê-lo para Romeu que se encontrava exilado. O diretor manteve integralmente os elementos principais: a pureza da paixão do casal; a rusticidade da ama de Julieta; a estratégia bem intencionada de frei Lourenço, as diferenças ferrenhas entre os rapazes das duas familais rivais e a cruel ironia da dupla morte.

Olivia Huhssey e Leonard Whiting interpretam o papel de forma excepcional – pela estréia e pela complexidade que seus papeis exigiam. O próprio desconhecimento da riqueza do texto de Shakespeare contribuiiu para que a dupla naõ se intimidasse ao interpretá-los. Contribuem para a harmonia do filme a trilha sonora de Nino Rota e a estupenda fotografia de Pasqualino de Santis, premiada com o Oscar.

As duas cenas principais do filme são a do balcao e da cripta. Segundo o próprio Zefirelli, o sucesso do filme dependia dessas tomadas. E ele estava certo. Por esta razão a película foi um hit à época de seu lançamento. Filmado num período em que o mundo enfrentava diversas crises políticas, a película foi um sucesso entre jovens que estavam cansados de conflitos e guerras. O diretor ousou em mostrar o casal despertando na cama de Julieta (algo que os puristas devem ter torcido o nariz).

Na verdade, Zefirelli nada mais fez do que tornar explicito algo que estava nas entrelinhas da obra original. Porque não faria sentido os jovens consumarem o seu romance, estando casados, e antes que Romeu fosse enviado ao exílio?
Além da trilha sonora e da fotografia, vale destacar o figurino de Danilo Donati, também premiado com o Oscar, que introduz sensualidade e voluptuosidade aos personagens. “Romeu e Julieta” continua sendo o apogeu na carreira de Zefirelli, que acabou ficando caracterizado como um diretor romântico.

Assistir ao filme é entrar em sintonia com esse clima amoroso. É muito interessante o fato de que esse filme resgata todo o vigor de um romance puro, porém intenso, ao passo que a versão de 1996resgata um clima mais violento. Talvez, o tempo tenha mudado e deixado o público muito céptico em relação às relações amorosas e, conseqüentemente, mais ávido por ação e conflitos.

Apesar disso tudo, duvido que atualmente alguém seria capaz de caçoar da explicita natureza romântica e da pureza do casal de amantes. Isso, por uma razão: o próprio Shakespeare ao apresentar a sua peça pela primeira vez , não se supreendeu com a reação do público ao assistir à encenação de Romeu e Julieta. O público era formado por pessoas de diversas classes, culturas e gostos. E, como tal, além, de toda a grandeza do texto do autor, as pessoas perceberam que o casal ali representado não era formado por personalidades inatingíveis, daquelas tão comuns de serem encenadas –reis, artistas, etc. – mas um jovem casal apaixonado e comum, como todos já haviam visto e sido em algum momento de suas vidas.



"Romeu e Julieta" (Romeo and Juliet)
1968– INGLATERRA/ITÁLIA - 158 min. – Colorido – DRAMA
Direção: FRANCO ZEFIRELLI. Roteiro: FRANCO BUSATI, MASOLINO D´AMICO E FRANCO ZEFIRELLI, baseado na peça de W. SHAKESPEARE. Fotografia: PASQUALINO DE SANTIS. Montagem: REGINALD MILLS. Música: NINO ROTA. Produção: JOHN BRABOURNE E ANTHONY HAVELOCK-ALLAN.


Elenco: LEONARD WHITING (Romeu) OLIVIA HUSSEY(Julieta), JOHN McENERY (Mercúcio), MILO O´SHEA (Frei Lourenço), PAT HEYWOOD (Ama), ROBERT STEPHENS (Príncipe de Verona), MICHAEL YORK (Tebaldo), BRUCE ROBINSON (Benvólio), PAUL HARDWICK (Lorde Capuletto), NATASHA PARRY (Lady Capuletto), ANTONIO PIERFEDERICI (Lorde Montecchio), ESMERALDA RUSPOLI (Lady Montecchio) e ROBERTO BISACCO (Páris).

Prêmios:
Oscar de Melhor Fotografia (Pasqualino de Santis) e Melhor Figurino (Danilo Donati)/1969.

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Irmão Sol, Irmã Lua

domingo, 14 de dezembro de 2008

FEITIÇO DA LUA

“Porque os homens perseguem as mulheres?”


Em "Feitiço da Lua", Ronny Cammareri (Nicholas Cage) ergue Loretta Castorini (Cher) com tamanha empolgação que quase a arremessa por cima do ombro. “Aonde você está me levando?”, grita ela. “Para a cama!”, responde ele. Não para dormir, mas para cama. Há um leve toque de seriedade nessa expressão, o bastante para Loretta deixar a cabeça cair em total entrega. Esse sublime abandono dos protagonistas faz parte da magia da comédia romântica de Norman Jewison, de 1987, mas também depende da verdade explícita em palavras simples. Quando Rose Castorini (Olympia Dukakis), mãe de Loretta, descobre que o marido Cosmo (Vincent Gardênia) a engana, pergunta a Johnny Cammareri (Danny Aiello), noivo da filha, por que os homens agem assim. Ele responde que talvez temam a morte. Tarde da noite, quando Cosmo entra sorrateiro, ela o surpreende na sala: "Eu só queria que você soubesse que independentemente do que faça, ainda vai morrer! Como todo mundo!”. Ele a olha com a expressão de um homem há muito tempo casado com aquela mulher e retruca: "Obrigado, Rose”.

Feitiço da lua é uma comédia romântica baseada em abandono e verdade emocional. Não satisfeita com uma história de amor, inclui outras cinco ou seis, dependendo do jeito que se conta, e admitindo-se que alguns personagens se envolvem em mais de uma. O filme se passa num Brooklyn que jamais existiu, onde a lua cheia faz a noite parecer dia e enlouquece as pessoas de amore, quando a seus olhos parece uma grande pizza.

A trilha sonora divide-se igualmente entre La Boheme e Dean Martin, e os sentimentos de Ronny Cammareri, quando conta a Loretta por que odeia o irmão Johnny, se assemelham aos de um herói de ópera, maiores e mais dramáticos que a vida. Ele narra que certo dia Johnny o distraiu na padaria e com isso Ronny prendeu a mão no cortador de pão. Como conseqüência, a namorada o largou. Segurando no ar a mão de madeira e apontando-a dramático, grita: “Quero minha mão! Quero minha noiva! Johnny tem mão! Johnny tem noiva!”.

Na verdade, Loretta, a futura esposa de Johnny, fora à padaria tentar persuadir Ronny a comparecer ao casamento. Mas depois que ele a leva para a cama tudo muda, e Johnny (Danny Aiello), que esta na Sicília junto ao leito de morte da mãe, não sabe o choque que o espera quando regressar ao Brooklyn.

Em uma carreira com personagens tolos, Nicolas Cage transformou seu Ronny Cammareri no personagem de sua carreira. Quem mais conseguiria mostrar tamanho desespero na fala em que declara seu amor?: "O amor não melhora as coisas. Arruína tudo. Parte nosso coração. Faz uma desordem geral. Nós não estamos aqui para fazer tudo perfeito. Os flocos de neve são perfeitos. As estrelas são perfeitas. Nós não. Nós não! Estamos aqui para nos destruir, para partir nossos corações, amar as pessoas erradas e morrer”. E depois que ela ensaia movimentos de resistência, ele conclui: “Agora quero que você suba comigo e vá para a minha cama!”. O desempenho era digno de um Oscar.

Cher conquistou o prêmio de Melhor Atriz da Academia como Loretta. Houve ainda um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Olympia Dukakis, como Rose, e de melhor roteiro para John Patrick Shanley, além de indicações para melhor filme, melhor diretor e para Vincent Gardenia por sua interpretação de Cosmo. Jewison reuniu um grande elenco, impecavelmente escolhido a partir das personalidades dos atores que recebem igualmente cenas e falas criativas, de modo que, no fim, um grande clímax emocional envolve tantas pessoas que precisa ser realizado em volta da mesa da cozinha.

Ronny e Loretta formam um casal de trinta e poucos anos que representa, neste filme, a versão do amor jovem; mas, também, há o amor de dois casais mais velhos. A tia de Loretta, de nome Rita (Julie Bovasso), e seu marido, Raymond (Louis Guss), têm um momento de ternura comovente quando ele se põe diante da janela para admirar a lua cheia e a esposa lhe diz: "Você, debaixo dessa luz e com essa expressão no rosto, esta parecendo um rapaz de 25 anos”. E apesar de tudo, Rose e Cosmo também se amam - apesar de Mona (Anita Gillette), a namorada secreta a quem Cosmo relata, orgulhoso, sua conversa fiada de encanador para os clientes: “É cano de cobre, o único que eu uso. Custa dinheiro. Custa dinheiro porque poupa dinheiro”. Ela escuta, encantada: “E depois, o que dizem?”, pergunta.

A partir do roteiro original e inspirado de Shanley, Jewison demonstra total maestria ao narrar histórias paralelas de seu grande elenco. Uma das melhores seqüências ocorre na noite em que Ronny e Loretta vão à ópera - Cosmo e Mona também estão lá. Naquela noite, Rose janta sozinha no restaurante italiano da esquina e vê uma jovem arremessar um copo de água no rosto de um homem em de meia-idade e depois ir embora. Rose convida o homem para jantar a sua mesa. Ele é um professor chamado Perry, interpretado por John Mahoney, num desempenho perfeito de um homem que sabe que é inútil caçar suas jovens alunas, mas não sabe o que mais pode fazer. Conversam sobre a vida e ele leva Rose para casa, ao luar; há uma possibilidade clara de florescer amor entre eles, se não neste universo, talvez em outro. Mas ela diz: “Não posso ir para casa com você, porque sei quem eu sou”. E sabemos o que ela quer dizer: que tem lar, marido, família, identidade e não e carente como ele.

Grande parte do sucesso de Jewison advém do controle do tom. Em nenhum momento o filme é vulgar, mesmo quando ameaça sê-lo, mesmo quando realça o exibicionismo do personagem de Cage. Um suave toque agridoce e uma surpreendente quantidade de diálogos sobre a morte imprimem uma característica pungente às vidas e aos desejos dos personagens mais velhos. O foco emocional do filme concentra-se nos dois casais mais velhos (quatro, se contarmos com Rose e Perry e Cosmo e Mona), que, sob uma luz adequada, ou mesmo sem isso, ainda sentem a paixão que sentiam aos 25 anos.

A direção de fotografia de David Watkin banha freqüentemente os personagens com a luz fria da lua cheia e, por um momento, o sublime os domina; afora isso, Watkin utiliza quentes cores domésticas para criar um ambiente real. O lar dos Castorini - com os imponentes móveis escuros do quarto e as pilhas de mantas, os retratos da família pendurados na parede; a sala de jantar sem uso; a cozinha, palco da família - torna-se tão familiar para nós que há um impacto surpreendente na última cena, quando a câmera simplesmente recua, percorrendo os outros aposentos.

Norman Jewison, canadense nascido em 1926, é um artesão, igualmente à vontade em diversos gêneros, tais como os musicais "Um Violinista no Telhado" (71) e "Jesus Cristo Superstar" (73), comédias e filmes sobre problemas sociais. Todos seus filmes de Jewison obedecem à tendência predominante em Hollywood: ele gosta de trabalhar com estrelas, seus valores de produção são impecáveis e, no entanto, ele raramente parece se inspirar apenas nos resultados de bilheteria. Seu controle de qualidade é extremamente elevado – é o caso também de "Feitiço da Lua".

Ao assistir a esse filme pela segunda vez, ele me surpreendeu com sua sutileza, apesar de todo o barulho e toda a emoção. Surpreendeu-me com a forma de tributo apaixonada que dedica a seus personagens, recusando-se a limitar-lhes as personalidades a simples traços cômicos. O que acontece entre Rose e Perry é mostrado em nuances; eles não se limitam a serem "um velho desprezível e uma dona de casa solitária", mas sim abertos à beleza e ao mistério da vida. O título remete-nos à teoria de que a lua cheia pode tornar as pessoas selvagemente românticas, fazê-las agirem de forma imprevisível, maluca, porém não menos espetacular. O resultado faz-nos rir e também sentir-nos mais disponíveis a impulsos melhores.




"O Feitiço da Lua" (Moonstruck)
1987 – EUA – 102 min. – Colorido – COMÉDIA
Direção: NORMAN JEWISON. Roteiro: JOHN PATRICK SHANLEY . Fotografia: DAVID WATKIN. Montagem: LOU LOMBARDO. Música: DICK HYMAN. Produção: PATRICK PALMER E NORMAN JEWISON, distribuído pela METRO GOLDWYN-MAYER.


Elenco:
CHER (Loretta Castorini) NICOLAS CAGE (Ronny Cammareri), VINCENT GARDENIA (Cosmo Castorini), OLYMPIA DUKAKIS (Rose Castorini), DANNY AIELLO (Johnny Cammareri), JULIE BOVASSO (Rita Cappomaggi), JOHN MAHONEY (Perry), LOUIS GUSS (Raymond Cappomaggi), FEODOR CHALIAPIN JR. (Avô) e ANITA GILLETTE (Mona).



Cenas do Filme:


Assista também:



Um Violinista No Telhado

quarta-feira, 26 de março de 2008

CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO

“Os fracassados, os dementes, os malditos. Eles são as verdadeiras pessoas desse mundo.”


O melhor que pode ser dito de “Crônica de Um Amor Louco”, de Marco Ferreri é que de mistura confusa de pretensão e pornografia, há um filme sério sobre arte e abandono sexual. O pior, que pode ser dito com certo grau de segurança, é que o filme de Marco Ferreri é arrastado, extremamente solene e cheio de falhas. Baseado nos contos de Charles Bukowski, “Crônica de Um Amor Louco” traz Ben Gazzara como Charles Serking, um tipo de poeta beat, cujo processo de criação artística envolve bebedeira, prosmicuidade e a visão ocasional de gaivotas na praia. Porém, é a prosmicuidade que o mantém ocupado, como no dia em que ele espia uma “presa” nas areias de Venice, Califórnia, seguindo-a até sua casa. No ônibus, Vera (Susan Tyrrell) olha Charles tão lascivamente é uma surpresa o motorista não colidir com um poste. Mas quando Charles chega ao apartamento da moça –forçando a porta, e prendendo sua boca com as mãos – quase de forma a violentá-la – ela pergunta:” Eu o conheço?”.

Logo, Vera está desfilando em trajes negros sumários falando a Charles: “ Eu quero que você seja mau comigo – da próxima vez quero que use o seu cinto”. “Eu não uso cinto”, diz Charles, muito orgulhoso dó controle da situação. “Você ter que emprestar-me um”, completa ele. Aparentemente, Vera não fica satisfeita, porque pouco tempo depois, chama a polícia.

Noutro dia de festa na vida do mulherengo, ele perambula bar adentro e encontra uma prostituta chamada Cass, interpretada por Ornella Muti. “Você realmente acha que sou bonita?”, ela pergunta. Claro que Charles acha. Assim Cass retira um grampo de cerca de 15 cm e fura seu rosto, fazendo o atendente do bar queixar-se, “Cass, eu disse para você não fazer isso aqui – não fica bem”. Enquanto isso, Charles observa, admirado, chegando à conclusão que Cass é a mulher de seus sonhos - embora, cada vez que se encontrem, ela surge com uma nova marca corpo ou machucado.

Esta cena, retirada de um curto conto de Bukowski chamado “A Mulher Mais Bonita da Cidade”, tem uma importância que no filme não fica retratado, O filme, apoiando-se nessas cenas, tende a suprimir o sentido original, tornando-as muitas vezes ridículas. “Crônica de Um Amor Louco” concentra-se somente na parte sensacionalista de Bukowski, exagerando-a de tal forma que tudo o mais fica perdido. O diretor Ferreri desenvolve esse conto com tamanha envergadura – imprópria – que mesmo sua indecência fica sem vida.

Ben Gazzara vacila ao longo do filme com uma nítida, embora desorientada, crença no material, mesmo que a maioria dos intérpretes que contracenam com ele estejam irremediavelmente mal. Ornella Muti é a exceção. Tyrrel gasta energia numa aparição sem fôlego. Apesar de tudo, o filme virou um cult dos anos 80. POr conta disso, vale a pena ser visto.




Crônica de Um Amor Louco (Tales of Ordinary Madness)
1981 – ITÁLIA - 95 min. – Colorido – DRAMA
Direção: MARCO FERRERI. Roteiro: MARCO FERRERI, SERGIO AMIDEI E ANTHONY FOUTZ, baseado no livro ERECTIONS, EJACULATIONS, EXHIBITIONS AND GENERAL TALES OF ORDINARY MADNESS, de CHARLES BUKOWSKI. Fotografia: TONINO DELLI COLLI. Montagem: RUGGERO MASTROIANNI. Música: PHILIPPE SARDE . Produção: JACQUELINE FERRERI, distribuído por FRED BAKER FILMS.

Elenco: BEN GAZZARA (Charles Serking) ORNELLA MUTI (Cass), SUSAN TYRRELL (Vera), TANYA LOPERT (Vicky), ROY BROCKSMITH (Atendente do bar), KATIA BERGER (Garota na praia), HOPE CAMERON (Dona da casa de praia), JUDITH DRAKE (Mulher gorda), PATRICK HUGHES (Vagabundo), WENDY WELLES (Fugitivo) e JAY JULIEN (Editor).

Trailer Original:


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A Comilança