terça-feira, 20 de maio de 2008

INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO

“Nada me abala. Eu sou um cientista.”


Quando você foi criança, ou ainda, convivia com crianças, entre 7 e 11 anos, deve se lembrar do tipo de jogo no qual cada uma delas se deparava comidas repulsivas, de virar o estômago - olhos de carneiro, suco de vermes, cérebro de morcegos com anchovas e molho de chocolate. As crianças sentem um terrível prazer toda vez que um novo prato é descrito, achando tudo uma diversão, embora os adultos da vizinhança devam passar mal. Esta ainda é a reação quando assistimos o exuberante (para alguns, sem gosto) entretenimento de Spielberg , “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. O filme é uma pré-seqüência de “Os Caçadores da Arca Perdida”, já que explora um período anterior do arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford). O ano é 1935 e o lugar é um clube em Xangai. Logo vemos uma produção do tipo Busby-Berkeley apresentando uma animadora americana, Willie Scott (Kate Capshaw), acompanhada de por um coro em linha de asiáticas, que dançam e cantam – algumas vezes em chinês – “Anything Goes”, de Cole Porter.

Esta é a melhor seqüência do filme, mais engraçada e mais bem dirigida. Não somente apresenta Indiana Jones e Willie, que sentem repugnância mútua à primeira vista (para apaixonarem-se mais tarde), mas também termina com uma grande briga no bar, em que um diamante de valor incalculável se perde num monte de cubos de gelo. Após isso, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” não desce ladeira abaixo, exatamente; porém, segue de forma plana, num tal ritmo que não se tem tempo para questionar as coisas em detalhe.

Há uma vertiginosa perseguição nas ruas tumultuadas de Xangai, com a fuga de Indiana num carro dirigido por um garoto de 12 anos, Short Round (Ke Huy Quan); depois, temos um vôo em direção ao ocidente a bordo de um bom e antigo Ford tri motor, do qual Indiana, Willie e Short Round devem pular, sem a ajuda de um pára-quedas.

A maior parte do filme se passa numa remota província do Himalaia e envolve: (1) um vilarejo onde todas as crianças desapareceram misteriosamente, (2) uma rocha sagrada com poderes mágicos e (3) um culto dos trabalhadores de Kali, cuja prática inclui sacrifício humano.

O roteiro, escrito por Willard Huyck e Gloria Katz (''American Graffiti''), a partir de uma história de George Lucas, é adequada, mas não chega aos pés do engenhoso roteiro de “Caçadores da Arca Perdida”, de Lawrence Kasdan, fazendo com que “Indiana Jones e o Templo da Perdição” quase nunca transcenda o aspecto barato dos filmes B que inspiraram o filme anterior. Embora pareça ter custado uma fortuna, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” não vai a lugar algum, possivelmente porque seja formado por uma sucessão de clímaxes. Poderia terminar a qualquer altura, com quase nada de essencial ser perdido.

Assisti-lo é como passar o dia num parque de diversões, que é o que talvez Spielberg e seus produtores pretendessem. O filme caminha de forma cansativa de uma atração a outra, dando uma parada para um cachorro quente, e então seguindo para as próximas inesperadas atrações.

Nelas incluem-se o equivalente a uma volta numa montanha russa, um passeio através de uma cova cheia de escorpiões e baratas, assim como um banquete de marajá, onde o menu inclui todos os tipos de pratos (cobras-mirins vivas, cérebros de macacos cozidos) que as crianças acham ao mesmo tempo revoltante e engraçado, enquanto o resto das pessoas têm seus estômagos revirados.

Não há duvida sobre isso – o filme, apesar de ser meio nojento, é violento de alguma forma que pode assustar algumas crianças. As crianças indianas seqüestradas, quando finalmente encontradas, são vistas sendo açoitadas quando seguem como escravas para trabalharem nas minas do marajá, embora o acoitamento seja tão exagerado que pareça irreal.

Há uma seqüência viva na qual um homem, sendo oferecido a Kali, é vagarosamente jogado a uma fossa flamejante, não antes de o sacerdote ter removido seu coração com as mãos nuas. Isso, contudo, não é somente uma pegadinha ao fazer o filme, mas uma pegada dentro do filme, algo que crianças mais velhas podem entender mais prontamente do que seus pais. Contudo, é algo a fazer os pais pensarem.

Harrison Ford tornou-se muito bom neste tipo de caracterização para esse tipo de filme. Ele tem uma atuação excepcionalmente habilidosa e cômica, demonstrando o timing que lembra Michael Douglas em seu papel em “Tudo por uma Esmeralda”.

Kate Capshaw está muito atraente e surpreendentemente natural, mesmo embora na maioria das vezes não se espere muito dela - a não ser seus gritos. Em dado momento no filme, Indiana diz a Short Round: “ O maior problema dela é o barulho”, quando ele escolhe ignorar a píton que deslizava até ela. Ke Huy Quan, cujo filme foi o primeiro, é muito engraçado e, nas horas de tensão, muito comuns, parece um pouco com o pato Donald.

“Indiana Jones e o Templo da Perdição” é muito “quadrado” para ser tão engraçado como “Os Caçadores da Arca Perdida”, e vai além do ponto. Às vezes, exagera.




Indiana Jones e o Templo da Perdição" (Indiana Jones and the Temple of Doom)
1984 – EUA - 118 min. – Colorido – AVENTURA
Direção: STEVEN SPIELBERG. Roteiro: WILLARD HUYCK e GLORIA KATZ, baseado em argumento de GEORGE LUCAS. Fotografia: DOUGLAS SLOCOMBE. Montagem: MICHAEL KAHN. Música: JOHN WILLIAMS. Produção: GEORGE LUCAS e ROBERT WATTS, para LUCASFILMS LTD.


Elenco: HARRISON FORD (Indiana Jones) KATE CAPSHAW (Wilhelmina 'Willie' Scott), KE HUY QUAN (Short Round), AMRISH PURI (Mola Ram), ROSHAN SETH (Chattar Lal), PHILIP STONE (Cap. Phillip Blumburtt), ROY CHIAO (Lao Che), DAVID YIP (Wu Han), RIC YOUNG (Kao Kan) e CHUA KAH JOO (Chen).

Prêmios:
Oscar de Melhores Efeitos Visuais (Dennis Muren, Michael J. McAlister, Lorne Peterson George Gibbs)/1985.

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Indiana Jones e a Última Cruzada

sábado, 17 de maio de 2008

INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA

“Arqueologia é a busca de fatos...não da verdade.”


Como estamos próximo da estréia do mais novo (e talvez o último, de fato) filme de Indiana Jones, "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal", achei por bem fazer meus comentários sobre o último (agora, o penúltimo) da saga, na expectativa de que sejam repetidas todas aquelas aventuras que tornaram a trilogia uma das melhores do cinema. A fórmula mágica dos filmes de ação consta de três elementos: um homem independente e inconformado que enfrenta os perigos do mundo; uma mulher atraente que possui, no início, uma atitude desafiadora, mas que no fim fica submissa e cuja emoção faz com que o herói se envolva constantemente em situações difíceis; e, em terceiro, talvez um órfão ou um amigo cuja vida foi salva pelo herói, que introduz uma variação na trama e acaba sendo seu cúmplice contra sua vontade.

Em "Indiana Jones e a Última Cruzada", a terceira e última parte da trilogia de Indiana Jones, o pai do arqueólogo é quem completa e enriquece a constelação de personagens que povoam os filmes anteriores de "Indy". "Os Caçadores da Arca Perdida" (1981) tratava sobre a recuperação da arca da Aliança, o receptáculo que continha as tábuas dos Dez Mandamentos, que havia caído nas mãos dos nazistas. Mas, agora, estamos em 1938 e Jones (Harrison Ford) sai em busca do Santo Graal, no qual se combinam a pedra filosofal e o cálice de onde escorreram as últimas gotas de sangue de Cristo. O Graal é muito cobiçado porque garantia a vida eterna e o poder absoluto.

De novo, os nazistas são os grandes inimigos de Indiana Jones, mas o filme fica centrado no personagem do Dr. Jones: conhecemos Indy em sua juventude, um garoto aventureiro (River Phoenix) que já lutava por tesouros de valor incalculável; descobrimos a origem de seu chapéu, seu chicote, o medo de cobras e seu nome. E, conhecemos seu pai, Henry (Sean Connery), que também é arqueólogo e que tem dedicado sua vida em busca do Graal, não por querer aventurar-se ou pelo desejo de conseguir fama ou alguma recompensa, mas sim para salvar o Santo Graal da profanação pela cobiça alheia.

O diretor Steven Speilberg, até então o garoto prodígio do cinema norte-americano, resumiu da seguinte maneira o trabalho de sua vida:"Como todos os meus filmes, trata da busca. O protagonista do filme pode ser um garoto normal, sair do ponto A em direção a uma emocionante aventura que se desenvolve no ponto B e, pelo caminho, ir deparando-se com numerosos perigos. Basicamente, todas as aventuras de Indiana Jones pertencem ao mesmo gênero dos autênticos road movies.

Porém, a inclusão de uma história familiar e a evolução do protagonista de escoteiro a aventureiro, dá ao filme uma dimensão inédita em relação aos dois primeiros episódios da saga: a exploração psicológica dos protagonistas. Em sua busca, que os leva a Veneza, Berlim (com breve aparição de Hitler), um castelo mal assombrado próximo a Salzburgo e o esconderijo clandestino do Graal, em um deserto das Arábias, pai e filho seguem caminhos distintos. Algumas vezes, um leva vantagem sobre o outro e vice-versa, mas, à medida que o filme avança, as ações de "Indy" cada vez são mais motivadas por preocupação com seu pai.

Graças a esta relação entre pai e filho, o filme supera sem esforços os anteriores - e as imitações posteriores. Jones pai e Jones filho têm a oportunidade de reeducar-se mutuamente e o fato de que os dois haviam se apaixonado pela mesma mulher (e ambos foram enganados por ela) não é motivo de ciúme e discussões, como se poderia esperar, mas sim de respeito mútuo.

O chamado complexo de Édipo é superado no filme de Spielberg: durante as dificuldades de sua aventura, ambos têm a chance de estabelecer uma relação harmoniosa entre eles. O mesmo pode ser dito do conceito cinematográfico do herói: se o James Bond de Sean Connery representou bem a seriedade e a ironia sobre a própria conduta nas décadas de 60 e 70, Harrison Ford representa a resolução hiper ativa e quase febril dos anos 80. Em "Indiana Jones e a Última Cruzada" são superadas todas as contradições.



Indiana Jones e Última Cruzada" (Indiana Jones and the Last Cruzade)
1988 – EUA - 127 min. – Colorido – AVENTURA
Direção: STEVEN SPIELBERG. Roteiro: JEFFREY BOAM, baseado em argumento de GEORGE LUCAS e MENNO MEYJES. Fotografia: DOUGLAS SLOCOMBE. Montagem: MICHAEL KAHN. Música: JOHN WILLIAMS. Produção: GEORGE LUCAS e ROBERT WATTS, para LUCASFILMS LTD.

Elenco: HARRISON FORD (Indiana Jones) SEAN CONNERY (professor Henry Jones),DENHOLM ELLIOTT (Dr. Marcus Brody), ALISON DOODY (Dr. Elsa Schneider), JOHN RHYS-DAVIES (Sallah), JULIAN GLOVER (Walter Donovan), RIVER PHOENIX (jovem Indiana Jones), MICHAEL BYRNE (Vogel), KEVORK MALIKYAN (Kazim) e ALEXEI SAYLE (Sultan).

Prêmios:
Oscars de Melhores Efeitos Sonoros(Ben Vurtt e Richard Hyms)/1981.

Trailer Original:


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Os Caçadores da Arca Perdida

terça-feira, 13 de maio de 2008

SPEED RACER

“Você pensa que pode dirigir um carro e mudar o mundo? Não funciona assim!”


Muitos de nós que crescemos assistindo séries de TV nos anos 60 e 70 nos lembramos de Speed Racer. Aqueles personagens de olhos grandes (Trixie! Speed! Racer X!), com suas bocas sempre estáticas, nunca em sincronismo com os diálogos; aquelas cores brilhantes e backgrounds abstratos. Como tantos outras adaptações caras e tecnologicamente elaboradas da cultura pop, “Speed Racer” surge para honrar e refrescar um entusiamo da juventude do passado. A experiência infantil que os Wachowski evocam não é de um deleite fácil, como que recostar numa cadeira e assistir a um cartoon após o outro, mas sim o tédio incontrolável de ficar sentado no banco traseiro de uma viagem sem fim com a família, tendo as bochechas no assento de vinil quando alguns adultos ensinam você sobre as belezas dos lugares por onde se passa.

Muito do que vemos em “Speed Racer” de fato é bonito (assim como a trilha orquestrada à moda antiga de Michael Giacchino). As cores saltam da tela como se alguém tivesse feito um strike de boliche digital. Só lembrar do par de meias vermelhas que Speed (jovem) estava usando. Você já viu um vestido tão amarelo quanto aquele que Susan Sarandon usava? (ela interpreta a mãe de Speed. John Goodman, seu pai). Que tal a classe de aula super laranja? Esses matizes não acontecem na vida real. E, admitamos, é pouco interessante contemplar as implicações artísticas e filosóficas de ter atores de carne e osso fazendo parte de um ambiente completamente artificial no qual as leis físicas da dinâmica não mais se aplicam.

Você poderia, caso venha a refletir sobre isso, perder um tempo agradável num museu olhando imagens pequenas e estáticas e instalações de vídeo em looping das situações agitadas e confusas que ocorrem durante as cerca de 2 horas e 15 min deste filme. Há uma certa insistencia na forma que os Wachowski abordam o material, que é dar foco ao forte estilo visual, dispensando quase que inteiramente inteligência narrativa. Mas isso seria um caso mais fácil de resolver se o estilo visual não fosse tão incoerente.

As cores são quentes, o design do set é bacana e o chimpanzé é legal, mas as seqüências de ação – a super dinâmica do videogame em que jaz a reputação de virtuosismo dos Wachowski – são meio caóticas e, muitas vezes, sem sentido. Os deslizamentos suaves das corridas de carro (animadas digitalmente) e os saltos, de um lado para o outro, conseguem surpreender pouco mais do que assistir a um grupo de skatistas fazendo manobras num estacionamento. Para ser verdadeiramente sensacional as ações precisariam ter sentido e dar a idéia de tensão e graça de movimentos reais, por mais artificiais que os objetos em movimento possam parecer.

Mas, pelo menos aqueles carros – incluindo o Mach 5 de Speed, replicado dos velhos cartoons – entram em movimento. Quando chega a contar a história, “Speed Racer” não tem nada em comum com seu título. “Speed Racer” é sobre um garoto que gosta de dirigir carros, sujeito que gosta de simplicidade e velocidade. Ao contrário, a primeira meia hora preenche a tela com flashbacks que dão uma idéia do que vai acontecer, gerando uma confusão interminável a respeito de quem esta fazendo o que e porque. Depois que seu querido irmão mais velho – Rex morreu num acidente (ou foi morto?) – Speed (Emile Hirsch) é assediado pelo gângster, dono da companhia Royalton (Roger Allam), e também por Trixie (Christina Ricci).

Há alguma conotação acerca do conceito entre arte e negócio, entre o mítico amor por automobilismo e o impulso mercenário de submeter essa paixão ao lucro. Mas esse dilema seria mais forte caso “Speed Racer” não tentasse tão obviamente os dois caminhos – ser profundamente idealista e, ao mesmo tempo, fortemente comercial -, e falhado em ambos.

Os momentos de sabedoria contidos no diálogo (Racer X: “As corridas nunca vão mudar. O que importa é se permitimos que as corridas nos mudem”) são tolas e soam como frases jogadas. O irmãozinho travesso de Speed (Paulie Litt) e seu chimpanzé de estimação são mais chatos do que ternos. O misterioso Racer X (Matthew Fox) parece cansado e amuado e o carisma do ídolo teen sul coreano Rain (interpretando outro corredor) é um desperdício.

Criminosos, detetives, carros esporte e rivais de competição nada honestos todos desfilam na tela, mas nenhum deles capaz de gerar faíscas de humor, perigo, energia ou nobreza que dariam um pouco de magia. “Speed Racer” vai para algum lugar e seria importante sabermos qual o tempo de duração dessa viagem.



Speed Racer (Speed Racer)
2008 – EUA - 135 min. – Colorido – AVENTURA
Direção: LARRY E ANDY WACHOWSKI. Roteiro: LARRY E ANDY WACHOWSKI. Fotografia: DAVID TATTERSALL. Montagem: ZACH STAENBERG E ROGER BARTON. Música: MICHAEL GIACCHINO. Produção: LARRY E ANDY WACHOWSKI,JOEL SILVER E GRANT HILL, para WARNER BROS.

Elenco: EMILE HIRSCH (Speed Racer), CHRISTINA RICCI (Trixie), JOHN GOODMAN (Pops Racer), SUSAN SARANDON (Mãe de Racer), PAULIE LITT (Spritle), ROGER ALLAM (Royalton), RAIN (Taejo Togokhan) e MATTHEW FOX (Racer X).


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The Matrix

sexta-feira, 9 de maio de 2008

INTERLÚDIO

“Nosso amor é bastante estranho”


O grande amor em letras maiúsculas expressa-se através da renúncia. Assim foi com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, em Casablanca (1942); e assim seria quatro anos depois em "Interlúdio", um suspense psicológico com a marca de Hitchcock, que transformou Ingrid Bergman em um ícone indiscutível. A atriz sueca interpreta Alicia Huberman, uma norte-americana filha de um espião nazista que, por amor a um agente secreto de seu país, Devlin (Cary Grant), decide casar-se com outro. Alicia deixa para trás seu passado de garota despreocupada, para descobrir o que acontece na casa do nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), que fugiu para a América do Sul. Quando Alicia segue a pista de uma enorme quantidade de urânio contrabandeado, a casa se transformará em uma armadilha mortal para ela, já que seu marido irá envenenando-a pouco a pouco com arsênico. No último minuto, Devlin chegará para salvá-la.

“Interlúdio” é um impressionante exemplo da teoria hitchcockiana sobre o MacGuffin (elemento que motiva a história, mas que acaba sendo dispensável). O fato de que o “assunto” da trama seja o urânio - necessário para a construção de armas atômicas -, o fato é absolutamente irrelevante para esse romance. De fato, essa idéia chegou ao acaso até o diretor, em 1944, um ano antes do lançamento da primeira bomba atômica sobre Hiroshima.

Um fator determinante nesta fita é a economia dramática de Hitchcock, que aproveita as coincidências estruturais de seus filmes de espionagem e de romance. Em ambos os casos, a tensão resulta da luta pela confiança, do conflito entre traição e deslealdade, e da necessidade de se guardar alguns segredos, os quais serão revelados no momento adequado. Assim,o diretor leve os espectadores a intuir que Devlin esteja apaixonado por Alicia, mesmo que ela, por sua vez, sofra por causa dos dois homens: por um lado, deve manter-se com Sebastian, que a aborrece com sua confiança sem limites; por outro, deve suportar a frieza com que Devlin a trata, o qual se opõe ao serviço patriótico que ela se impôs, com certo sarcasmo.

Estamos diante do clássico conflito entre o amor e o dever, no qual Ingrid Bergman demostra o sacrifício de Alicia com um fervor extremo (que aparenta fragilidade visto de longe). Em contrapartida, Devlin, o personagem de Cary Grant, apresenta-se quase como um MacGuffin erótico. Sebastian, o nazista, ama realmente Alicia e, portanto, vive a traição como uma experiência trágica que nos parece normal. Trata-se de um extraordinário exemplo de canalha a la Hitchcock, que trata esses personagnes com grande compaixão. Ao contrário do que aconteceu com Bogart, em Casablanca, o ator Caude Rains - bem mais baixo - teve que subir em tábuas de madeira para parecer mais alto na tela junto de Bergman.

A complexidade da trama contrasta com a transparência do estilo narrativo. Algumas das situações vistas já fazem parte da história do cinema. Por exemplo, o sugestivo simbolismo dos líqüidos entregues a Alicia: esse elemento parece sempre em relação direta com o sofrimento do personagem, desde sua intoxicação etílica até a intenção em assassiná-la com arsênico. A ressaca que experimenta durante a noite que passou bebendo com Devlin expressa-se mediante um giro de 180 graus sobre o eixo da imagem. Assim, o espectador sabe que Alicia está bêbada e que Devlin é um personagem perturbado.

Mais adiante, Hitchcock chama nossa atenção algumas vezes sobre a chave da adega onde está escondido o urânio. E não podemos esquecer o “beijo cinematográfico mais longo da história” entre Grant e Bergman: três minutos no total. Apesar disso, Hitchcock teve que interromper a seqüência várias vezes na montagem final, uma vez que o Código Hayes somente autorizava três segundos seguidos.

“Interlúdio” é provavelmente o filme mais romântico do diretor britânico. Sem dúvida, a tensão sexual insinuada permite antecipar algumas das peculiaridades que desenvolveria no futuro, presentes por exemplo, no final, em que Alicia e Devlin conseguem fugir. O pobre Sebastian segue um caminho oposto: a morte.



Interlúdio (Notorious)
1946 – EUA - 101 min. – Preto e Branco – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: BEN HECHT. Fotografia: TED TETZLAFF. Montagem: THERON WARTH. Música: ROY WEBB. Produção: ALFRED HITCHCOCK, para RKO.

Elenco: CARY GRANT (T.R. Devlin), INGRID BERGMAN (Alicia Huberman), CLAUDE RAINS (Alexander Sebastian), LOUIS CALHERN (Paul Prescott), LEOPOLDINE KONSTANTIN (Anna Sebastian), REINHOLD SCHÜNZEL (Dr. Anderson), MORONI OLSEN (Walter Beardsley), IVAN TRIESAULT (Eric Mathis), ALEX MINOTIS (Joseph) e WALLY BROWN (Sr. Hopkins).


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À Meia Luz

terça-feira, 6 de maio de 2008

HOMEM DE FERRO

“É melhor ser temido ou respeitado? Eu diria é demais pedir ambos?”


"Homem de Ferro", dirigido por Jon Favreau, tem a vantagem de ser um atípico, mas bom filme de super herói. Ou, no mínimo, um filme de super herói que é bom, de uma forma diferente. Possui um roteiro (creditado a Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway) que prefere dar ênfase a diálogos inteligentes ao invés de frases soltas de efeito, bem como de um elenco de estrelas que aceita o convite dos produtores para realmente atuarem ao invés de apenas gritarem e fazerem pose. Mas há muito disso também no filme. O herói tem que se movimentar; o vilão deve arquitetar planos; a garota deve seduzir e jogar charme. E, também, não poderia deixar de existir um amigo do peito. Essas regras do gênero são tão pétreas quanto os “artificiais” princípios que explicam tudo (o reator em forma de arco, etc.,), bem como o vilão que é careca. Em “Homem de Ferro”, tudo acontece como esperado, na “tentativa e erro” da confecção armadura de ferro, nas diversas tomadas aéreas, nas perseguições e nas lutas.

Ao invés das histórias tediosas, moralizantes e freudianas, geralmente tão comuns neste tipo de filme – trauma de infância, crise de identidade, necessidade de justiça versus desejo por vingança, etc. – “Homem de Ferro” surge de forma mais verdadeira e natural. Embora saibamos que não estamos num mundo real, mas mais próximo a Gotham City ou Metrópolis, deparamo-nos com Tony Stark (Robert Downey Jr.) no desértico Afeganistão, onde ele degusta um uísque on the rocks na boléia de um veículo militar americano. Tony é uma celebridade da mídia, um ex-estudante brilhante do MIT (Massachusetts Institute of Technology) - a melhor universidade de tecnologia do mundo – e herdeiro de uma família cuja companhia fabrica e comercializa armas de última geração. Ele é também um bon vivant e um playboy incorrigível.

Na teoria, o personagem é ridículo, mas uma vez protagonizado por Robert Downey Jr., ele torna-se mais autêntico e familiar - tão engraçado, tão atrapalhado – como um amigo ou velho colega de faculdade. O amigo de Tony é Rhodey, um oficial da Força Aérea americana, interpretado de forma bem humorada por Terrence Howard. A garota é Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, também bem no papel), a apaixonada e competente assistente de Tony. Seu sócio e uma espécie de mentor na Stark Enterprises é Obadiah Stane, protagonizado por Jeff Bridges com habilidade, exuberância e, acreditem, com cabeça raspada.

Todos estes são atores de primeiro naipe e o jeito palhaço de Robert Downey Jr., com sua imprevisibilidade emocional, ajuda a dar agilidade e força ao filme. Nesta mistura grande e tumultuada de movimentos desta sinfonia pop há uma série de duetos bem feitos que algumas vezes parecem com uma improvisação e espontaneidade musicais: Robert Downey dançando com Gwyneth Paltrow; com Terrence Howard, bebendo saquê no avião; com Shawn Toub, trabalhando nos protótipos dentro caverna; com Jeff Bridges, lutando numa caixa de pizza. Esses momentos são os mais prováveis de serem lembrados.

A trama é razoável, o que vale dizer à serviço dos atores (e dos responsáveis pelos efeitos especiais), que surgem do nada e algumas vezes esquece-se que estão ali – algum rodopio ou cambalhota parece ser arbitrário ou sem motivo. Isso fica muito aparente com a questão geopolítica que surge muito tênue e passa batida, assim como a crise de consciência de Tony ao descobrir que suas armas são usadas - parece mais uma necessidade narrativa do que um tema a ser discutido do ponto de vista moral.

Tudo isso serve para dizer que “Homem de Ferro”, apesar das duras dificuldades que Tony enfrenta ao se transformar no personagem título, tem suas qualidades. A aparelhagem é impressionante, mas a esse custo, deveria ser melhor. Se com centenas de milhões de doláres temos Batman , Spider-Man e o Hulk à mão, melhor seria ter a certeza que os reatores de arco estejam funcionando bem e que a armadura de liga de titânio e ouro reluza como nova e voe como um pássaro.

Embora os efeitos visuais digitais tentem ajudar o filme, a verdade é que para “Homem de Ferro” eles não fazem diferença. Na verdade, “Homem de Ferro” não tem superpoderes; o heroísmo do personagem é todo artesanal, á base de engrenagens e inteligência aplicada. Essa parte contribui para a tentativa de fazer “Homem de Ferro” um filme melhor. Alguém ficou convencido de que um playboy poderia resistir aos encantos de Gwyneth Paltrow?



Homem de Ferro(Iron Man)
2008 – EUA - 123 min. – Colorido – AVENTURA
Direção: JON FAVREAU. Roteiro: MARK FERGUS, HAWK OSTBY, ART MARCUM E MATT HOLLOWAY. Fotografia: MATTHEW LIBATIQUE. Montagem: DAN LEBENTAL. Música: RAMIN DJAWADI. Produção: AVI ARAD E KEVIN FEIGE, para PARAMOUNT PICTURES e MARVEL ENTERTAINMENT.

Elenco: ROBERT DOWNEY JR. (Tony Stark/Iron Man ) TERRENCE HOWARD (Jim Rhodes), GWYNETH PALTROW(Virginia 'Pepper' Potts), JEFF BRIDGES(Obadiah Stane/Iron Monger), LESLIE BIBB (Christine Everhart), SHAUN TOUB(Yinsen), FARAN TAHIR(Raza), SAYED BADREYA (Abu Bakaar), BILL SMITROVICH (General Gabriel) e CLARK GREGG (Agent Phil Coulson).


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Um Duende em Nova Iorque

domingo, 4 de maio de 2008

CARRUAGENS DE FOGO

“Acredito que Deus me criou com um objetivo determinado, mas também fez-me rápido.”


Durante a cerimonia de Oscar do ano de 1981, o tema musical composto por Vangelis para o filme “Carruagens de Fogo” tocou quatro vezes: com a entrega do prêmio de melhor filme, melhor roteiro, melhor vestuário e melhor trilha sonora. “Carruagens de Fogo” foi o primeiro longa do diretor Hugh Hudson, com um êxito somente igualável em seu filme posterior, Greystoke, a Lenda de Tarzã (1984). Em termos artísticos, o filme foi também louvável, já que o diretor conseguiu reproduzir em imagens quase míticas a força do espírito de uma competição esportiva clássica, a qual a moderna indústria do esporte parece ter deixado pra trás. A história que conta Hugh Hudson nos remete a 1924, quando dois atletas de nacionalidade britânica conseguiram nos Jogos Olímpicos de Paris as medalhas dos 100 e dos 400 metros.

Harold M. Abrahams (Ben Cross) é um inglês de origem judaica, que estuda Direito em Cambridge, logo após o término da Primeira Grande Guerra Mundial. Eric Liddell (Ian Charleson) é um escocês cristão, que algum dia ocupará a função em uma missão que seu pai conduz na China. Ambos sentem um obsessão por correr, que tem suas origens em razões pessoais. Abrahams quer chegar a ser o melhor porque somente na cabeça do grupo ele se sente plenamente integrado à sociedade inglesa. Como estudante em Cambridge, já pertence à elite, mas como filho de um emigrante judeu da Lituânia, vê-se obrigado a enfrentar muitos preconceitos.

Para o profundamente devoto Liddell, correr é uma espécie de ato religioso, uma forma de agradar a Deus: “Quando estou correndo, sinto que o Senhor se sente satisfeito”. Essa associação entre esporte e religião tem suas raízes na concepção vitoriana de um cristianismo de força física. Entre dois homens tão opostos não há como surgir, no mínimo, uma relação de intensa competitividade – o clássico estereótipo dos filmes que tem o esporte como tema central. Ao contrário, em “Carruagens de Fogo” logo se mostra evidente que o ponto forte não reside na rivalidade entre os dois personagens, mas sim na paixão compartilhada por correr.

O filme começa traçando um paralelo entre os dois heróis. Ambos preparam-se intensamente para os Jogos Olímpicos e também decepcionam as pessoas mais próximas a eles: Abrahams descuida de sua noiva Sybil (Alice Krige) e Liddell decepciona sua irmã Jennie (Cheryl Campbell), a quem prometeu ocupar a missão na China (um dever que faz alusão continuamente). Mas surgem mais dificuldades. Abrahams contrata um personal trainer (Ian Holm), que nem sequer é inglês e tem uma séria disputa com as autoridades universitárias. Por outro lado, Liddell, cuja religião lhe proíbe competir aos domingos, já estava a caminho da França quando decide não participar da competição, que ocorrerá naquele dia. O assunto vira contenda até com o Príncipe de Gales. No último momento, um colega da equipe britânica cede seu lugar em uma corrida programada para outro dia, em favor de Liddell.

Para ambos os protagonistas, a vitória nos Jogos Olímpicos é a coroação de uma longa caminhada de amadurecimento pessoal. Abrahams está feliz em poder desfrutar de uma relação convencional e de uma vida discreta e burguesa. Liddell pode aceitar, por fim, a herança de seu pai: a missão na China. Mas como ocorre no primeiro filme de Sylvester Stallone, Rocky (1975), ambos haviam conseguido muito antes suas vitórias mais importantes - Liddell, ao permanecer fiel a suas convicções; Abrahams, ao dar o melhor de si mesmo.

Além de ser uma história excepcionalmente contada, o filme está coberto por uma aura especial na representação das corridas. O nervosismo silencioso antes do início, as inúmeras repetições em câmera lenta, os primeiros planos dos rostos dos atletas e, em grande parte, também, a música eletrônica de Vangelis, fazem com que as cenas de corrida sobressaiam-se do resto da trama e consigam transmitir a tensão interna dos atletas. E, é precisamente essa visão na vida interior dos personagens, que nos conduz a outro nível de consciência: a da idéia de uma Inglaterra como uma grande potência, unida e integradora. Por isso, soa o hino nacional na vitória de Abrahams e o Príncipe de Gales felicita pessoalmente Liddell.

Nenhum dos dois personagens é tipicamente britânico. Abrahams é fruto da segunda geração de uma família de emigrantes judeus e Liddell é um escocês nascido na China. Ambos provêem dos mais remotos continentes do “Império”, mas são aceitos no coração deste, graças a seus triunfos esportivos. Não obstante, ainda que ambos compitam em nome da Inglaterra, nenhum o faz por motivos patrióticos. Tanto para o judeu Abrahams, como para o cristão Liddell, correr é uma crença pessoal e sua motivação provém da própria necessidade de buscar a verdade e o auto-conhecimento. Por essa razão, quem sabe, o filme começa e termina com uma imagem de inocência: jovens vestidos de branco correm sobre as ondas que quebram na praia.



Carruagens de Fogo (Chariots of Fire)
1981 – INGLATERRA - 123 min. – Colorido – DRAMA
Direção: HUGH HUDSON. Roteiro: COLIN WELLAND. Fotografia: DAVID WATKIN. Montagem: TERRY RAWLINGS. Música: VANGELIS. Produção: DAVID PUTTNAM, para ALLIED STARS, WARNER BROS. E ENIGMA PRODUCTIONS.

Elenco: BEN CROSS (Harold Abrahams) IAN CHARLESON (Eric Liddell), NIGEL HAVERS (Lord Andrew Lindsay), NICK FARREL (Aubrey Montague), DANIEL GERROLL (Henry Stallard), CHERYL CAMPBELL (Jennie Liddell), ALICE KRIGE (Sybil Gordon), sir JOHN GIELGUD (diretor do “Trinity”), LINDSAY ANDERSON (diretor do “Caius”) e IAN HOLM (Sam).

Prêmios:
Oscars de Melhor Filme (David Puttnam), Melhor Roteiro (Colin Welland), Melhor Vestuário (Milena Canonero) e Melhor Trilha Musical (Vangelis) /1981.

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Greystoke

sábado, 3 de maio de 2008

O CASO OSTERMAN

“Mate-me, Max, e finja que está matando seus medos.”


Maxwell Danforth (Burt Lancaster) está horrorizado pelo conteúdo da fita de vídeo que acaba de assistir. Tudo acontece dentro de um quarto de hotel. Sobre a cama, há uma mulher nua. De imediato, dois homens a assassinam e desaparecem da tela tão rapidamente quanto apareceram. Mas, a vítima não estava sózinha. O filme mostra um homem saindo do banheiro e descobre o corpo. Totalmente desesperado, rompe-se a chorar junto à mulher. Danforth é o chefe do serviço secreto americano e a fita foi gravada por câmeras de vigilância da CIA. A mulher assassinada era a esposa de Lawrence Fassett (John Hurt), um de seus agentes. A CIA havia vigiado o quarto de Fassett sem que este suspeitasse e “permitido” à KGB que levasse o crime a cabo, para evitar maiores tensões entre os dois países.

Danforth incumbe Fassett da missão de acabar com a organização ÔMEGA – uma unidade especial infiltrada da KGB. Fassett colaborará com ele, junto com Tanner (Rutger Hauer) – o diretor e locutor de um polêmico programa de debate político. O jornalista não sabe que três de seus antigos amigos de faculdade são membros da ÔMEGA. Todos os anos, Tanner reúne-se com eles em sua casa de campo durante um fim de semana. O próximo encontro está prestes a acontecer. Tanner, a princípio, nega-se a acreditar na culpa de sues amigos, até que ele vê um vídeo que os incrimina.

Além disso, a fita não somente prova que são culpados de traição a seu país, mas também insinua que, tanto Tanner como sua família, estão ameaçados por seus supostos amigos. Apesar de tudo, o jornalista coloca como condição para colaborar com o chefe da CIA, que o mesmo participe em seu programa de TV, após o final de semana do encontro. Danforth concorda. Agora, Fassett pode instalar câmeras em todos os cômodos da casa de Tanner.

Sam Peckinpah já havia ganhado reputação em outros filmes como Meu Ódio Será Sua Herança (1969) ou Sob o Domínio do Medo(1971). Com "O Caso Osterman", Peckinpah voltou a um dos temas centrais de sua carreira: o aumento progressivo da violência em determinadas situações. Na casa de Tanner, a tensão entre os quatro amigos aumenta visivelmente. O que a principio pareciam inofensivas disputas de pólo aquático na piscina, mais tarde tornam-se brigas abertas. Suas esposas, que os acompanham no final de semana, fazem o possível para que as coisas fiquem calmas. Mas, também, elas tornam-se cada vez mais agressivas. Ao final, haverá um sério enfrentamento entre Tanner e sua esposa, Ali (Meg Foster).

O agente da CIA, Fassett, não perde o espetáculo e "move seus pauzinhos" à distância, a partir de um furgão de vigilância, de onde acompanha por radio tudo o que acontece na casa. Assim, consegue criar novos motivos de conflito. Somente quando parece que a situação fica insustentável e a tensão entre o grupo está a ponto de explodir, Fassett intervém com uma unidade da CIA, junto aos amigos de Tanner. Quando este e seu melhor amigo, Osterman (Craig T. Nelson), estão a ponto de matar-se, descobrem o terrível complô da CIA no qual estão prestes a cair.

No grande estilo de filmes de espionagem e suspense, característicos da década de 70, como os Três Dias do Condor(1975) e A Trama(1974), ambos realizados no contexto do escândalo Watergate (1972), “O Caso Osterman” mostra como as conspirações governamentais podem infiltrar-se no seio da sociedade, mas também na esfera individual de cada pessoa. A vida privada de Tanner transforma-se assim no cenário de intrigas políticas. Mas o filme de Peckinpah faz também uma dura crítica aos meios de comunicação.

“O Caso Osterman” retrata a televisão como um meio de manipulação, intriga e opressão. Percebemos que o vídeo de Fasset mostrado a Tanner para incriminar seus amigos fora forjado. Assim mesmo, a presença de Danforth no programa de Tanner, por detrás de um sangrento final de semana, revela o chefe da CIA como um homem sem escrúpulos,; alguém com tal ânsia de poder, que está disposto a tudo para realizar sua ambição pessoal de chegar à presidência. Neste que seria seu último filme, Peckinpah faz um profunda reflexão sobre o ilimitado potencial de manipulação que poderia surgir se a classe política e os meios de comunicação utilizassem toda a sua força.



O Caso Osterman (The Osterman Weekend)
1983 – EUA - 102 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: SAM PECKINPAH. Roteiro: ALAN SHARP e IAN MASTERS, baseado na obra homônima de ROBERT LUDLUM. Fotografia: JOHN COQUILLON. Montagem: EDWARD ABROMS e DAVID RAWLINS. Música: LALO SCHIFRIN. Produção: PETER S. DAVIS e WILLIAM N. PANZER, para a 20th CENTURY FOX

Elenco: RUTGER HAUER (John Tanner) BURT LANCASTER (Max Danforth), JOHN HURT (Lawrence Fassett), DENNIS HOPPER (Richard Tremayne), CRAIG T. NELSON (Bernie Osterman), MEG FOSTER (Ali Tanner), SANDY MCPEAK (Stennings), CHRIS SARANDON (Joseph Cardone), HELEN SHAVER (Virginia Tremayne) e CASSIE YATES (Betty Cardone).

Trailer Original:


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Meu Ódio Será Sua Herança