segunda-feira, 31 de março de 2008

SENHORES DO CRIME

“Ela tinha quatorze anos. Era apenas uma criança .”


A história de "Senhores do Crime" é dura e violenta, situada no submundo da máfia de um grupo de expatriados russos em Londres. Dirigido por David Cronenberg, a partir do roteiro de Steve Knight, recupera um sem número de temas e motivos do gênero: os laços de família e culturais que unem as organizações criminosas; o drama edipiano; a honra entre os chefões. O público embarca na companhia de uma inocente parteira (Naomi Watts), que se encontra fascinada e enojada, mas também em apuros. Embora muito do tema já seja conhecido – incluindo o tom da narrativa e a caracterização dos personagens – muito pouco sobre “Senhores do Crime” parece previsível ou dejà vu. Desde seus primeiros filmes de horror de baixo orçamento à sua atual ascensão como um dos favoritos da crítica internacional, David Cronenberg sempre demonstrou ser um mestre das esquisitices.

Ele e seu diretor de fotografia, Peter Suschitzky, filmam nas escuras e chuvosas ruas londrinas, em tons e cores que deixam a cidade muito emocionante e sinistra. O diretor age deliberadamente, de forma contida – a forma com que prolonga as cenas em mais de uma tomada, como se estudasse a expressão dos atores em busca de pistas – transforma o que poderia ter sido um suspense comum em algo genuinamente perturbador.

Muito dos créditos se deve ao roteiro de Knight, no sentido em que ele pontua não somente os aspectos sociais e éticos, mas também seus problemas e reviravoltas. “Senhores do Crime,” assim como outros filmes recentes, trata fundamentalmente escandalosa escravidão moral, do tráfico de pessoas e da miséria humana que ainda persiste – em segredo e subterrâneos – mesmo em modernas cidades do mundo ocidental. “Senhores do Crime” lida com as conseqüências do comércio sexual, particularmente envolvendo mulheres e adolescentes da ex- União Soviética.

O personagem de Naomi Watts, Anna, é uma parteira de um hospital londrino – filha de um russo e de uma inglesa (Sinead Cusack) — obcecada com o passado de um bebê cuja mãe morreu dando à luz. A mãe era uma adolescente, cujo diário deixado, além de retratar toda a terrível exploração a que foi submetida poderá esclarecer algo sobre a identidade de seus torturadores.

Anna seuge pistas que a levam a um elegante restaurante russo, cujo proprietário, Semyon (Armin Mueller-Stahl), é um monstro de fala mansa. Quando não está decorando bolos de aniversário, para exilados, Semyon encabeça um ramo local da Vory v Zakone, uma espécie de Casa Nostra russa, surgida nos campos de refugiados da era Stalin, e cujos membros são conhecidos – assim como os japoneses da Yakuza – por tatuagens em todo o corpo.

Anna, que não fala russo, nada sabe sobre a máfia, mas seu mau humorado tio (interpretado pelo diretor polonês Jerzy Skolimowski), aconselha-a afastar-se deles. Entretanto, vários fatos acontecempara que ela se encontre envolvida. Além do seu desejo em desvendar a morte da adolescente e proteger o bebê, parece existir um traço de sentimentalismo, de curiosidade que uma segunda geração de imigrantes sente a respeito sua pátria de origem. Também, há Nikolai, o educado e ambicioso ex-condenado que trabalha como braço capataz do problemático e impulsivo filho de Semyon, Kirill (Vincent Cassel).

Nikolai, que se mostra fiel a Semyon, é interpretado com um auto controle impecável, por Viggo Mortensen. Esse ator faz-nos lembrar do grande Kirk Douglas – embora este nunca tenha sido tão contido nos papéis que protagonizou. Em “Senhores do Crime”, Viggo Mortensen encarna sem falhas um cara decente, do tipo comum e pacato, mas também um frio assassino profissional. Nikolai é um personagem ao mesmo tempo ambíguo e dividido, em conflito. É duro, tenso, embora sinais de compaixão surjam em alguns momentos na expressão impassível e fria de seu rosto.

“Senhores do Crime” intriga, com seu misto de nuances e atitudes. Há, como smpre nos filmes de Cronenberg, cenas de grande brutalidade que extraplam a sensação puramente visual, que você quase chega a sentir fisicamente – numa delas, um duelo com facas dentro de uma sauna, com Mortensen vestido somente com suas tatuagens, poderá tornar-se um fetiche para cinéfilos de todos os tipos.

O rigor da direção de Cronenberg parece estranho, considerando o humanismo do roteiro de Knight; porém, o diretor não deixa que isso descambe para o piegas. Enquanto o roteirista tenta aprofundar-se nas mais fortes emoções, Cronenberg insiste em ocultá-las. O resultado é um filme cujas imagens e enredo são difíceis de esquecer facilmente.



Senhores do Crime (Eastern Promises)
2007 – EUA - 100 min. – Colorido – DRAMA
Direção: DAVID CRONENBERG. Roteiro: STEVE KNIGHT. Fotografia: PETER SUSCHITZKY. Montagem: RONALD SANDERS. Música: HOWARD SHORE. Produção: PAUL WEBSTER e ROBERT LANTOS, distribuído pela FOCUS FEATURES.

Elenco: VIGGO MORTENSEN (Nikolai) NAOMI WATTS (Anna), VINCENT CASSEL (Kirill), ARMIN MUELLER-STAHL (Semyon), SINEAD CUSACK (Helen) e JERZY SKOLIMOWSKI (Stepan).


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Marcas da Violência

quarta-feira, 26 de março de 2008

CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO

“Os fracassados, os dementes, os malditos. Eles são as verdadeiras pessoas desse mundo.”


O melhor que pode ser dito de “Crônica de Um Amor Louco”, de Marco Ferreri é que de mistura confusa de pretensão e pornografia, há um filme sério sobre arte e abandono sexual. O pior, que pode ser dito com certo grau de segurança, é que o filme de Marco Ferreri é arrastado, extremamente solene e cheio de falhas. Baseado nos contos de Charles Bukowski, “Crônica de Um Amor Louco” traz Ben Gazzara como Charles Serking, um tipo de poeta beat, cujo processo de criação artística envolve bebedeira, prosmicuidade e a visão ocasional de gaivotas na praia. Porém, é a prosmicuidade que o mantém ocupado, como no dia em que ele espia uma “presa” nas areias de Venice, Califórnia, seguindo-a até sua casa. No ônibus, Vera (Susan Tyrrell) olha Charles tão lascivamente é uma surpresa o motorista não colidir com um poste. Mas quando Charles chega ao apartamento da moça –forçando a porta, e prendendo sua boca com as mãos – quase de forma a violentá-la – ela pergunta:” Eu o conheço?”.

Logo, Vera está desfilando em trajes negros sumários falando a Charles: “ Eu quero que você seja mau comigo – da próxima vez quero que use o seu cinto”. “Eu não uso cinto”, diz Charles, muito orgulhoso dó controle da situação. “Você ter que emprestar-me um”, completa ele. Aparentemente, Vera não fica satisfeita, porque pouco tempo depois, chama a polícia.

Noutro dia de festa na vida do mulherengo, ele perambula bar adentro e encontra uma prostituta chamada Cass, interpretada por Ornella Muti. “Você realmente acha que sou bonita?”, ela pergunta. Claro que Charles acha. Assim Cass retira um grampo de cerca de 15 cm e fura seu rosto, fazendo o atendente do bar queixar-se, “Cass, eu disse para você não fazer isso aqui – não fica bem”. Enquanto isso, Charles observa, admirado, chegando à conclusão que Cass é a mulher de seus sonhos - embora, cada vez que se encontrem, ela surge com uma nova marca corpo ou machucado.

Esta cena, retirada de um curto conto de Bukowski chamado “A Mulher Mais Bonita da Cidade”, tem uma importância que no filme não fica retratado, O filme, apoiando-se nessas cenas, tende a suprimir o sentido original, tornando-as muitas vezes ridículas. “Crônica de Um Amor Louco” concentra-se somente na parte sensacionalista de Bukowski, exagerando-a de tal forma que tudo o mais fica perdido. O diretor Ferreri desenvolve esse conto com tamanha envergadura – imprópria – que mesmo sua indecência fica sem vida.

Ben Gazzara vacila ao longo do filme com uma nítida, embora desorientada, crença no material, mesmo que a maioria dos intérpretes que contracenam com ele estejam irremediavelmente mal. Ornella Muti é a exceção. Tyrrel gasta energia numa aparição sem fôlego. Apesar de tudo, o filme virou um cult dos anos 80. POr conta disso, vale a pena ser visto.




Crônica de Um Amor Louco (Tales of Ordinary Madness)
1981 – ITÁLIA - 95 min. – Colorido – DRAMA
Direção: MARCO FERRERI. Roteiro: MARCO FERRERI, SERGIO AMIDEI E ANTHONY FOUTZ, baseado no livro ERECTIONS, EJACULATIONS, EXHIBITIONS AND GENERAL TALES OF ORDINARY MADNESS, de CHARLES BUKOWSKI. Fotografia: TONINO DELLI COLLI. Montagem: RUGGERO MASTROIANNI. Música: PHILIPPE SARDE . Produção: JACQUELINE FERRERI, distribuído por FRED BAKER FILMS.

Elenco: BEN GAZZARA (Charles Serking) ORNELLA MUTI (Cass), SUSAN TYRRELL (Vera), TANYA LOPERT (Vicky), ROY BROCKSMITH (Atendente do bar), KATIA BERGER (Garota na praia), HOPE CAMERON (Dona da casa de praia), JUDITH DRAKE (Mulher gorda), PATRICK HUGHES (Vagabundo), WENDY WELLES (Fugitivo) e JAY JULIEN (Editor).

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A Comilança

terça-feira, 25 de março de 2008

MARCAS DA VIOLÊNCIA

“O que você é? Um maluco com várias personalidades?”


O filme trata da história de uma aparentemente tranqüila família norte-americana que vê a sua paz sendo ameaçada por uma catastrófica violência numa cidade do interior do país. David Cronenberg dirige seu filme com tensão. E sua vontade de entreter – essa mistura de frenetismo e prazer – faz de “Marcas da Violência” um filme excelente. O filme é ancorado em um cidadão honrado, hesitante e misterioso, Tom Stall (excepcionalmente interpretado por Viggo Mortensen), que por trás dessas qualidades esconde um passado nada digno de orgulho.

O filme abre com dois homens saindo de um motel. O mais jovem (Greg Bryk) está vestido com camista e jeans; o mais velho (Stephen McHattie), veste uma roupa escura parecendo um agente funerário, com um cavanhaque diabólico. Embora esteja à luz do dia, provavelmente de manhã, ambos estão com mau humor e reclamando das coisas, como se estivessem descontentes com algo. O homem mais velho volta ao motel para fechar a conta e o mais novo tira o carro do lugar. Quando o homem retorna, manda o mais novo buscar água. Estão prestes a pegarem a estrada; porém, há um “serviço” a ser feito.

Há muitos homicídios em “Marcas da Violência”; nenhuma tão cruel quanto o primeiro assassinato, que acontece dentro do motel, transformado logo em sepulcro. Nessa brutalidade, na inauguração do espetáculo, Cronenberg mostra que o filme não é mais uma daquelas viagens sangünolentas que estamos acostumados a assistir aos montes no cinema.

Logo de cara, há algo que foge ao lugar comum em “Marcas da Violência” que, na primeira impressão parece um filme morno, mas vai progressivamente deixando os cabelos de pé. Um mestre conflituoso e da contradição, Cronenberg, que tem um histórico de mudanças de gênero de seus filmes – passando do horror ao suspense policial – faz reviravoltas, utilizando sua inteligência e prática de artesão neste filme de ação.

Os assassinos sempre levam o pior, como quase sempre acontece nos filmes de Hollywood, recebendo a sua lição de um tipo com uma aparentemente impecável integridade: Tom Stall. Com um casamento feliz ao lado de sua sexy e adorável esposa, Edie (Maria Bello), e dois filhos encantadores, o adolescente Jack (Ashton Holmes) e a boneca loirinha Sarah (Heidi Hayes), Tom administra uma lanchonete monótona de uma cidadela no interior. Ali, os moradores cumprimentam-se com sorriso e acenos de mão, e os jovens dividem ice cream soda. Não há um supermercado (talvez um Wal-Mart) ou McDonald´s local – nem lojas, nem tóxicos, nem brigas, nem vagabundos, nem bad boys...

Embora o aviso acima da porta de entrada da lanchonete promete friendly service, os vilões recebem algo mais diferente quando entram para jantar. Numa cena furiosa em que abre um buraco em cada personagem, Cronenberg coreógrafa um tiroteio. O contato deixa ambos os visitantes mortos – o diretor prolonga a câmera no rosto destroçado por desconfortáveis segundos – e Tom é declarado um herói americano. A mídia não desgruda dele, assim como três sujeitos (incluindo Ed Harris), cujos óculos, carro preto (aparentemente um luxuoso Chrysler) e um forte sotaque sugerem que não estamos mais presenciando uma cena em Kansas (ou Hollywood), mas em algum lugar ao norte de “Mullholland Drive”, de David Lynch ou no oeste de “Dogville” de Lars von Trier.

Assim como nesses filmes, “Marcas da Violência” explora o mito e o significado da América (ou ao menos um retrato) através de seus sonhos, pesadelos e fanatismos. Mas, enquanto David Lynch envolve a violência com erotismo, misturando batom e sangue, e Lars von Trier seja mais didático para mostrar suas idéias, Cronenberg é frio. Ele sabe que filmes de violência intrigam: o espectador namora e beija o bang-bang. Há algo inegavelmente atraente nas ações heróicas de Tom - primeiro, dando força ao filhho, após o mesmo ter brigado na escola; depois, inspirando uma cena tórrida que deixa sua mulher em brasas. Mas, também, há algo de irreparável e não nobre aqui.

Enquanto retratada numa pequena cidade dos EUA, o aspecto irreal da vila deixa-nos claro que nada acontece aqui e agora, mas num pedaço do mundo – e o espectador não sabe disso – que parece um filme. Cronenberg visa ao vício pelo cinema violento, àquelas sedutoras e heróicas auto-justificativas que são vendidas ao mundo. De forma dura, quanto mais violento o filme fica, mas reais Tom e sua família se tornam.

Isso soa mais cruel ou ao menos duro do que esse inteligente, ágil e cáustico filme mostra. Soberbamente interpretado pelo elenco principal - com destaque para Maria Bello - inclusive William Hurt, que nos devia uma grande atuação, e aparece ao final do filme, “Marcas da Violência” mostra um diretor no auge de sua forma. Imperdível.



Marcas da Violência (A History of Violence)
2005 – EUA - 97 min. – Colorido – DRAMA
Direção: DAVID CRONENBERG. Roteiro: JOSH OLSON, baseado na graphic novel de JOHN WAGNER e VINCE LOCKE. Fotografia: PETER SUSCHITZKY. Montagem: RONALD SANDERS. Música: HOWARD SHORE . Produção: CHRIS BENDER e J.C. SPINK, distribuído pela NEW LINE CINEMA.

Elenco: VIGGO MORTENSEN (Tom Stall) MARIA BELLO (Edie Stall), ED HARRIS (Carl Fogarty), ASHTON HOLMES (Jack Stall), HEIDI HAYES (Sarah Stall), STEPHEN McHATTIE (Leland Jones), GREG BRYK (Billy Orser), PETER MacNEILL (Xerife Sam Carney), SIGRID VON RICHTHOFEN (Srta. Mayr), e GERD VESPERMANN (Bobby).


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Senhores do Crime

domingo, 23 de março de 2008

A FONTE DA DONZELA

É um filme direto e descomplicado de Bergman, que relaciona violência e vingança, brutalidade e compaixão ou – para resumir – o bem e o mal. Entretanto, justamente pela sua simplicidade – e tema não complexo – está longe de parecer um filme fácil de assistir ou elogiar. Por ter criado cenas de brutalidade, o diretor, por puro e cruel realismo, faz-nos ficar perplexos. Mesmo que elas contribuam para a força do tema, elas tendem mais a incomodar do que causar a dramaticidade pretendida. Embora tudo o que é mostrado seja benvindo para facilitar a interpretação do hermetismo dos filmes de Bergman, há um ponto além do qual a sofisticação do artista pode ser reduzida à simplicidade – esse é o caso.

O tema é sobre a violência cometida por dois pastores em uma virgem inocente, da vingança do pai e de sua penitência cristã pelo erro não-cristão que ele comete. Passado na Idade Média, tendo como panorama uma latifúndio feudal (que Bergman tratou visualmente com a mesma força e rusticidade que em “O Sétimo Selo”), o conflito é o que provavelmente teria ocorrido naquela época - entre o ímpeto pagão de vingança e o perdão cristão.

Quando a virgem, que foi incumbida por seu pai a entregar velas numa igreja nos tempos de Páscoa, é abordada na floresta pelos pastores, estuprada e assassinada por eles, comete-se o o ato inicial de violência. É uma brutalidade que Bergman representou com toda hediondez e terror.

A virgem, interpretada por Birgitta Pettersson, é uma figura terna e doce. Os pastores, interpretados por Avel Duberg and Tor Isedal, são brutos. A fascínio deles em relação à criança causa náusea, que é claramente representada pela reação de um garoto, que acompanha os pastores e assiste à cena de violência.

A reação do pai ao ato, quando descobre, é de igual atrocidade. Após preparar-se, chicoteando-se com ramos de folhas ao tomar banho, ele encurrala os pastores na casa – corta a garganta de um com uma faca e atira um outro contra uma fogueira. Na seqüência, pega o garoto, pelo qual nutria simpatia e afeição – o segundo símbolo de inocência do filme – e o mata jogando-o contra uma parede.

Em toda essa encenação, Bergman alcança uma tremenda comoção mental, primal e de extraordinária força psicológica. O pai, interpretado por Max von Sydow, o cavaleiro feudal de “O Sétimo Selo” é uma figura sombria e inflexível, a imagem de um fanático zeloso e feroz. A mãe, interpretada por Birgitta Valberg, é menos rígida e obtusa, mais passível de compreensão, porém fruto da superstição pagã. Outros personagens, como a garota selvagem com cara assustada, o velho da ponte e a cozinheira – contribuem para dar ao filme um toque de fragilidade humana e ferocidade medieval.

Caso se deseje, é possível descobrir simbolismos no filme. Cada personagem pode ser a representação de algum elemento contemporâneo do mundo atual. Mas, percebe-se que Bergman quis dar ao espectador nada mais do que um testemunho literal, cruel, mas vibrante e tocante, de moral. Quando uma fonte emerge da terra sobre a cabeça da criança morta, após o pai estar arrependido de seu erro, o simples - quase ingênuo –ato resulta em um milagre. Uma obra simples e poderosa.



A Fonte da Donzela (Jungfrukällan)
1959 – SUÉCIA - 124 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: INGMAR BERGMAN. Roteiro: ULLA ISAKSSON, baseado numa lenda do século XIII. Fotografia: SVEN NYKVIST. Montagem: OSCAR ROSANDER. Música: ERIK NORDGREN . Produção: INGMAR BERGMAN E ALLAN EKELUND.

Elenco: MAX VON SYDOW (Töre) BIRGITTA VALBERG (Märeta), GUNNEL LINDBLOM (Ingeri), BIRGITTA PETTERSSON (Karin), AVEL DÜBERG (O pastor magro), TOR ISEDAL (O pastor mudo), ALLAN EDWALL (O pedinte), OVE PORATH (O garoto), AXEL SLAGUS (O velho da ponte), GUDRUN BROST (Frida) e OSCAR LJUNG (Simon).

Prêmios:
Menção Especial no Festival de Cannes/1960
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/1961
Globo de Ouro (Prêmio Samuel Goldwyn) Melhor Filme Estrangeiro/1960.

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O Sétimo Selo

sexta-feira, 21 de março de 2008

CABARET

“Sou a divina decadência.”


Berlim, 1931. A cidade, marcada por uma crise econômica, está aberta ao mundo e aos sentidos. Para esquecer os problemas do dia a dia, as pessoas divertem-se na noite, em lugares como o Kit Kat Club. Toda noite, o apresentador dá as boas vindas ao público, dizendo: Willkommen, Bienvenue, Welcome. Seu rosto, diabolicamente pintado, reflete-se nos bastidores. O filme retrata o clube noturno como se fosse um espelho deformante, apresenta-o como uma caricatura da vida. Life is a cabaret: a canção interpretada por Liza Minelli deve ser entendida no sentido literal.

Como muitos forasteiros, o estudante inglês Brian (Michael York) sente-se atraído pela palpitante metrópole. Conhece em uma pensão Sally Bowles (Liza Minelli), que trabalha como cantora no Kit Kat Club e sonha em ser uma estrela de cinema. Para isso, põe em jogo seu temperamento e seu corpo. Por causa de sua liberdade sexual e sua inclinação ao luxo, Sally é fruto da modernidade hedonista, que trás uma profunda saudade de uma felicidade perdida. Contudo, sobe essa aparente decadência, surge cada vez mais uma personalidade infantil e vulnerável, e Brian, que num primeiro momento resiste às investidas sexuais de Sally, apaixona-se por ela.

A relação é feliz até o momento em que surge na vida de Sally o barão Max von Heune (Helmut Griem), que é rico, jovem e bem apessoado. Seduzida por ele, perde as estribeiras. Brian fica com ciúme e , ao mesmo tempo, eroticamente confuso. O triângulo, simplesmente insinuado no ínício, é explícito ao final – ambos acostumam-se com o barão. Sally fica grávida. Enquanto Sally e Brian vivem um desastre particular, nas ruas de Berlim os nazistas preparam-se para tomar o poder. Com a perspectiva do nazismo crescente, que pretende descartar a modernidade urbana e utiliza em ideologia os valores rurais conservadores, os planos de vida do casal parecem destinados ao fracasso. Brian volta à Inglaterra e Sally tratará de triunfar em Berlim, como atriz.

Apesar de “Chicago” (2002), “Cabaret” é sem dúvida um dos últimos grandes musicais do cinema. A diferença da maioria destes filmes - que incluem “Sinfonia em Paris” (1951) ou “Cantando na Chuva” (1952) - é que são atemporais ainda nos dias de hoje. No caso de “Cabaret”, a explicação talvez esteja, por um lado, no extraordinário sucesso que suas canções tenham produzido e, por outro, em Liza Minelli, que à época tinha vinte e cinco anos e cuja identificação com “Cabaret” não se repetiu com nenhuma outra atriz em relação a um filme.

Além disso, há a peculiar estrutura do filme. Em relação ao que ocorre nos demais filmes do gênero, em “Cabaret” há uma separação clara entre os números musicais e a ação. Nenhum personagem começa a cantar diretamente; antes de fazê-lo, as entradas colocadas em cena pelo diretor e coreógrafo Bob Fosse pontuam a história. O apresentador, que não está envolvido na trama, faz as intervenções de forma ácida. Os elementos da ação e os números musicais se desenvolvem de forma paralela. É o caso da dança típica da Bavária que tem cortes rápidos, intercalando imagens dos nazistas golpeando brutalmente o diretor do clube noturno - a cena de violência real parece fazer parte da dança e vice-versa.

Por suas cenas escuras – que nos remete à influência expressionista -, por sua música - inspirada em Kurt Weill -, e pela coreografia única de Bob Fosse, “Cabaret” vem a ser um resquício dos anos vinte, ainda que não faltem referências à década de 70, época de realização do filme. O resultado final do filme deve-se sobretudo nas cenas cantadas e dançadas, que ocorrem em cena. Somente uma exceção: em um Biergarten (cervejaria ao ar livre) um adolescente loiro canta uma canção popular. A príncipio, aparece seu rosto, mas depois a câmera descobre os braços com a suástica. Um após o outro, todos os clientes da cervejaria vão unindo-se à canção, que muda de ritmo e converte-se em música marcial até que, ao final todos, levantam suas mãos saudando Hitler. Li que na versão passada na Alemanha esta cena foi cortada; somente depois de muitos protestos de críticos, ela foi reintegrada ao filme. Inesquecível.



Cabaret (Cabaret)
1972 – EUA - 124 min. – Colorido – MUSICAL
Direção: BOB FOSSE. Roteiro: JAY PRESSON ALLEN, baseado na peça homônima de JOE MASTEROFF, JOHN KANDER e FRED EBB. Fotografia: GEOFFREY UNSWORTH. Montagem: DAVID BRETHERTON. Música: JOHN KANDER e RALPH BURNS . Produção: CY FEUER, para a ABC CIRCLE FILMS e AMERICAN BROADCASTING COMPANY.

Elenco: LIZA MINELLI (Sally Bowles) MICHAEL YORK (Brian Roberts), HELMUT GRIEM (Maximilian von Heune), JOEL GREY (Apresentador), FRITZ WEPPER (Fritz Wendel), MARISA BERENSON (Natalia Landauer), ELISABETH NEUMAN-VIERTEL (Srta. Schneider), HELEN VITA (Srta. Kost), SIGRID VON RICHTHOFEN (Srta. Mayr), e GERD VESPERMANN (Bobby).

Prêmios:
Oscars de Melhor Direção (Bob Fosse); Melhor Atriz (Liza Minelli); Melhor Ator Coadjuvante (Joel Grey); Melhor Fotografia (Geoffrey Unsworth); Melhor Trilha Musical (Ralph Burns); Melhor Montagem (David Bretherton); Melhor Direção de Arte (Rolf Zehetbauer, Hans Jürgen Keibach e Herbert Strabel) e Melhor Som (Robert Knudson) /1972.

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O Show Deve Continuar

segunda-feira, 17 de março de 2008

ANNA KARENINA

“Isso não pode continuar. Tenho marido e um filho. Isso tem que acabar.”

Neblina na tela. O trem de São Petersburgo acaba de chegar a Moscou. Quando o rosto de Greta Garbo surge daquela neblina, o oficial Vronsky (Fredric March) está perdido. Fica à mercê desta mulher. Igual ao espectador, que somente queria assitir a uma coisa – Greta Garbo – não importando se o filme era mudo ou falado (“Garbo fala!”), interpretando “Anna Karenina” ou “Rainha Cristina” (1933). Essa veneração exagerada trará conseqüências fatais para Ana Karenina. A relação extraconjugal com Vronsky lhe fará perder o marido e, muito pior, seu filho. Ao final de sua tragédia, atira-se ao mesmo trem que lhe arrebata o amante. Greta Garbo morre.

Anna Karenina é um dos filmes mais populares da atriz e é tida como a melhor adapração do clássico de Tolstoi para o cinema. Clarence Brown, que dirigiu Garbo em sete filmes, limita-se nesta história da Rússia czarista à trama em torno de Anna e Vronsky. Seu amor fracassa por resistência do marido, Karenin (Basil Rathbone), em dar-lhe o divórcio. O diplomata vive em total sintonia com os princípios da época: tem que salvaguardar a reputação, o bem-estar do filho tem prioridade sobre tudo o mais e o casamento é indissolúvel. Ao infringir esses princípios, Anna provoca sua própria ruína. Ela e Vronsky caem no falatório da sociedade aristocrática da época. Para ver seu filho, tem que entrar às escondidas em sua casa, cujas portas estão trancadas para ela. A mulher das primeiras cenas do filme, deslumbrante com sua beleza inconfundível, regressa como proscrita.

A magnífica direção de arte (a cena espetacular do baile, por exemplo) não serve, entretanto, para desviar o óbvio – o filme pertence a esta grande atriz. No fundo, Greta Garbo interpreta de forma totalmente inexpressiva, com as pálpebras caídas, como uma condenada à morte – tanto no primeiro encontro com Vronsky, como nos últimos momentos antes do suicídio. Anna sabe desde o começo, assim como os espectadores, seu trágico destino. O segredo da atriz consiste em expressar sem emoções uma paixão que o público entende intuitivamente.

Cabe colocar em dúvida se Fredric March no papel de Vronsky seja merecedor dessa paixão. O ator, pelo que dizem, não queria o papel – isso fica nítido durante o filme. Porisso, o amor de Anna pelo oficial parece menos crível que o ódio de seu marido. Basil Rathbone tira o máximo proveito de seu limitado papel, de alguém que já não é amado, mesmo que interprete Karenin como se fosse um inglês ao invés de russo – o jaleco parece mais adequado a filmes de Sherlock Holmes. Em um papel secundário, porém agradável e simpático, Maureen O´Sullivan (que na época já era a Jane de Tarzan) interpreta Kitty, a jovem sobrinha de Anna. Sua relação com Levin (Gyles Isham), o alter ego de Tolstoi – tão importante na obra – tem significância reduzida na transposição para a tela.

Mas isso não é nada, se comparado com o filme anterior a "Anna Karenina", protagonizado também por Greta Garbo. A versão original chamava-se "Love" (1927), por boas razões. O filme mudo havia sido filmado com dois finais diferentes e o público americano pode desfrutar da tragédia de Tolstoi com um final feliz. Greta Garbo que nunca havia se casado, não quis aceitar isso. Deveu-se a sua iniciativa o fato de David O.Selznick ter abandonado a aversão que tinha mostrado durante anos ao projeto. O produtor não queria desgastar sua estrela-mór em filmes de época. Mas, quem podia resistir a Greta Garbo por tanto tempo?



Anna Karenina (Anna Karenina)
1935 – EUA - 95 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: CLARENCE BROWN. Roteiro: CLEMENCE DANE, S.N. BEHRMAN e SALKA VIERTEL, baseado na obra homônima de LEÓN TOLSTOI. Fotografia: WILLIAM H. DANIELS. Montagem: ROBERT KERN. Música: HERBERT STOTHART . Produção: DAVID O. SELZNICK, para a MGM.

Elenco: GRETA GARBO (Anna Karenina) FREDRIC MARCH (Conde Alexei Vronsky), BASIL RATHBONE (Karenin), FREDDIE BARTHOLOMEW (Sergei), REGINALD OWEN (Stiva), MAUREEN O´SULLIVAN (Kitty), GYLES ISHAM (Levin), MAY ROBSON (Condessa Vronsky), PHOEBE FOSTER (Dolly) e JOAN MARSH (Lili).

Prêmios:
Associação dos Críticos de Nova Iorque (NYFCC) de Melhor Atriz (Greta Garbo)/1936.

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Rainha Christina

domingo, 16 de março de 2008

VOLVER

"Coisas de mulher.”


O filme “Volver” é uma história sem flashbacks ou intrincadas tramas, mas é um filme de um grande diretor. Contribui para isso o conjunto de atrizes poderosas e cheias de recursos, em particular da protagonista, Penélope Cruz. Ela interpreta Raimunda, uma trabalhadora “empurrada” para todas as direções por acontecimentos nada fáceis e pelas necessidades das mulheres que estão ao seu redor. Em um ponto no filme, ela atende a porta para seu vizinho, Emílio (Carlos Blanco), um dos tímidos e supérfluos homens que aparecem na tela. Emílio, que claramente tem uma “queda” por Raimunda, percebe uma mancha de sangue em seu pescoço e pergunta se ela está bem. Ela responde: “Coisas de mulher” ou coisa parecida, num tom de piada e verdade.

Realmente há muitos problemas e dores de cabeça. O sangue pertence a seu marido, Paco (Antonio de la Torre), que morreu recentemente num mar vermelho no chão da cozinha, depois de levar uma facada no estômago. Sua morte não é para ser desprezada – e ele recebe um funeral que merece – nem para ser lamentada. Os homens para Raimunda, e seu ciclo de relacionamento, tendem a ser maus, desprezíveis ou simplesmente ausentes: são maridos errantes, aproveitadores, pesos-mortos – causam problemas. Mas “Volver” não trata dos homens.

Trata, sobretudo, do que as feministas norte-americanas do passado chamavam de irmandade, e também sobre as complicadas semelhanças que o diretor mostra durante o crescimento de uma criança em uma sociedade espanhola, tradicional, oprimida e patriarcal. Os problemas de Raimunda podem ser extremos, mas ela livra-se deles com determinada paixão, dando vazão para cada sentimento, nunca resvalando em auto-comiseração.

Há muitos outros que precisam de sua atenção, em especial sua filha adolescente, Paula (Yohana Cobo), que foi objeto da lúxuria de Paco. Raimunda também tem que dar atenção a Sole (a espetacular Lola Dueñas), sua irmã, cujo rosto registra solidão e desapontamento mesmo quando tenta demonstrar estar com muitos problemas ou mesmo bem humorada; também para sua tia Paula (Chus Lampreave); e, finalmente para Agustina (Blanca Portillo), uma vizinha, cujos lamentos são tantos que poderiam ocupar outro filme. Há também um restaurante para ser administrado (cujo dono é Emílio, mas que Raimunda toma conta, durante sua ausência).

Neste papel, Penélope Cruz mostra que realmente é uma atriz de peso, em parte porque ela consegue ser crua, despretensiosa e mesmo vulgar, sem perder um milímetro de seu glamour. Além disso, o diretor foi inspirado ao colocar Carmen Maura como a mãe de Raimunda, que adiciona um toque de gótico (e surrealista) à estória. O humor de Carmen Maura é um elemento crucial na estrutura do filme. – é uma crônica, de tragédia e terror, “envernizada” em cores fortes e brilhantes.

Para relacionar detalhes da narrativa – morte, câncer, traição, abandono familiar, mais morte, etc. – o filme teria que criar uma impressão de melancolia e angústia. Mas isso não ocorre com “Volver”, que trata do tema de forma fácil – sem ser fútil – e densa, sem nunca cair no sentimentalismo. O diretor admite ceticismo – e leva isso a sério – a partir de uma perspectiva fundamentalmente humorada. Muitos poucos diretores conseguiram sorrir tão convincentemente face à miséria e fatalidade – um deles é Jean Renoir. Um amigo, ao assistir ao filme, lembrou-me de outro – Billy Wilder. Mesmo não tendo assistido muito Almodóvar e não saber se ele ainda possui tal calibre, provavelmente ele pode fazer companhia a esses dois grandes mestres do cinema.

“Volver” é fascinante na sua concepção– a direção de fotografia de José Luis Alcaine e a suave e apaixonada trilha sonora de Alberto Iglesias – mas nunca artificial. O filme seduz o espectador, convida-o a permanecer atento e ansioso. Oferece algo mais do que realismo. O mundo real, afinal de contas, é o lugar onde todos temos que viver; para alguns de nós, contudo, o mundo de Almodóvar, parece ser seu lar.



Volver (Volver)
2006 – ESPANHA - 121 min. – Colorido – DRAMA
Direção: PEDRO ALMODÓVAR. Roteiro: PEDRO ALMODÓVAR. Fotografia: ALBERTO IGLESIAS. Montagem: JOSÉ SALCEDO. Música: JOSÉ LUIS ALCAINE. Produção: ESTHER GARCIA, distribuído pela SONY PICTURES CLASSICS.

Elenco: PENÉLOPE CRUZ (Raimunda), CARMEN MAURA (Irene), LOLA DUEÑAS (Sole), BLANCA PORTILLO (Agustina), YOHANA COBO (Paula), CHUS LAMPREAVE (Tia Paula), ANTONIO DE LA TORRE (Paco) e CARLOS BLANCO (Emílio).


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