quinta-feira, 30 de outubro de 2008

JANELA INDISCRETA

“Inteligência. Nada causou tanto problema para a humanidade quanto ela.”


Jeff está grudado a uma cadeira de rodas, tendo uma das pernas engessada. Para matar o tempo, passa a observar o que acontece na vizinhaça com a ajuda de uma teleobjetiva. Essa falta de dinamismo obriga-nos a acompanhar esse personagem voyeur – ele, prostrado diante da janela e nós, em frente à tela de TV (ou de cinema). Sua única companhia é Stella (a sempre ótima Thelma Ritter), a enfermeira que aparece para tratá-lo e o recrimina por sua atitude – “As pessoas deviam sair de casa e fazer alguma visita, para variar” - e Lisa (Grace Kelly), uma linda e rica jovem desenhista de moda que quer levá-lo ao altar. Em frente à janela, Jeff assiste a uma série de situações - a Sra. Lonelyheart, que prepara jantares para pretendentes imaginários; a sra. Torso, que recebe pessoas para uma festa; um casal que tem um cachorro que aparece morto e o Sr. Thorwald (Raymond Burr), que tem sua esposa prostrada na cama e não pára de criticá-lo. Num belo dia, a sra. Thorwald some e Jeff suspeita que tenha sido morta.

Todas essas situações acontecem num pátio de frente ao apartamento em que Jeff reside. E isso pode ser uma reflexão de sua própria situação – de alguém que resiste a vínculos. Não é nada despropositado. Todas as situações tratam de motivos amorosos, ou seja, de histórias em torno da solidão ou da vida a dois, da convivência e da indiferença que refletem os temores do personagem.

Se percebermos bem, há algo que une a Sra. Thorwald a Jeff – ela, entrevada na cama; ele, numa cadeira de rodas. Novamente, Hitchcock invoca uma loira, que é mais um enigma ou ameaça do que companheira sentimental. Enquanto Lisa insiste em um amor desesperançado por Jeff, ele a mantém distante demonstrando que o estilo de vida dos dois é incompatível.

É o mesmo caso de seu personagem Scotty, em Um Corpo Que Cai” (1958), que se apaixona por uma mulher que espionou sem nunca ter-lhe dirigido a palavra. Em ambos os casos, ele deseja o que pode espionar à distância, e não o que pode ter nas mãos.

James Stewart está bem no papel, embora ache que esteja um pouco maduro. Kelly está bela como sempre e perfeita no papel. É fria e elegante e realmente encarna a mulher não satisfeita. – ela encomenda refeição, bebe champagne, mimando Jeff de todas as formas possíveis. Na tomada mais bela do filme, Lisa inclina-se para beijá-lo e a câmera acaba sendo seduzida por ela, sendo que o mesmo não ocorre com Jeff. A câmera parece pedir ao público que Jeff deixe de ficar obcecado com o que observa e passe a prestar mais atenção no que deveria desde o começo – em Lisa.

Há também cenas de puro suspense, em que toda a impotência de Jeff é mostrada no momento em que observa Lisa em perigo ao vê-la entrar no apartamento do suposto assassino da esposa de Thornwald. O perigo vai num crescendo que todos (Jeff e nós) ficamos atônitos, observando tudo aquilo sem poder de reação. E essa sensação, nunca ou raramente, ocorre nos filmes de suspense atuais.

Li certa vez que Hitchcock definiu a diferença entre surpresa e suspense. Segundo ele, se alguém sabe que existe uma bomba sob a mesa, que explode repentinamente, isso é surpresa; se alguém conhece a existência da bomba, mas não quando vai explodir, isso é suspense. A maioria dos filmes, ditos de suspense, trazem-nos surpresas - a sensação de breve frio na barriga e tensão. “Janela Indiscreta” nos dá a sensação de uma viagem que nunca vamos esquecer - um suspense com muitos quilates e em grande estilo.




"Janela Indiscreta" (Rear Window)
1954 – EUA - 112 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: ALFRED HITCHCOCK. Roteiro: JOHN MICHAEL HAYES, baseado na obra It Had to be Murder, de CORNELL WOOLRICH. Fotografia: ROBERT BURKS. Montagem: GEORGE TOMASINI. Música: FRANZ WAXMAN. Produção: ALFRED HITCHCOCK, para PATRON INC. e PARAMOUNT PICTURES.

Elenco:
JAMES STEWART (L.B. Jeffries) GRACE KELLY (Lisa Carol Fremont), WENDELL COREY (Tenente Tom Doyle), THELMA RITTER (Stella), RAYMOND BURR (Lars Thornwald), JUDITH EVELYN (Sra. Lonelyheart), ROSS BAGDASARIAN (Compositor), GEORGINE DARCY (Sra. Torso), IRENE WINSTONS (Sra. Thornwald), SARAH BERNER (Mulher da escada de incêndio) e FRANK CADY (Homem da escada de incêndio).


Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



Psicose

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O SUSPEITO DA RUA ARLINGTON

“Boom.”


“O Suspeito da Rua Arlington” é uma pérola que serve como paradigma para mostrar a qualquer um como há esperança além dos blockbusters. Apesar de ter passado despercebido nas telas do cinema por aqui, essa jóia sempre deve ser revisada como um thriller absolutamente eletrizante. Jeff Bridges é Michael Faraday, um recém viúvo, professor de técnicas anti-terroristas em uma Universidade local. Dirigido por Mark Pellington e escrito por Ehren Kruger (seu primeiro roteiro, na verdade), o filme inicia com uma alucinação. Dirigindo para casa, numa rua calma e deserta, Faraday depara-se com um garoto ferido. Após levá-lo ao hospital, descobre que o menino é seu vizinho de rua - rua Arlington, um nome que deliberadamente ecoa certo ar patriótico dos americanos e de seu cemitério mais famoso. Os pais da criança, Oliver e Cheryl Lang ficam eternamente gratos pela ajuda dada ao mesmo, culpando um experimento pelo ferimento do filho. A partir daí, os Langs, interpretados por Tim Robbins e Joan Cusack, tratam Faraday como um novo amigo. A troca de elogios e agrados, entretanto, soa excessiva e fora do comum. Os "amigos" sempre se visitam e, apesar da aparente bonança, Faraday percebe um comportamento estranho nos vizinhos – coisa de sua cabeça ou realmente procedente?.

Nunca recuperado pela perda da esposa, uma agente do FBI morta num incidente terrorista, Faraday fica obcecado com a ação dessa categoria de criminosos. Inicia, assim, então uma viagem paranóica de desconfiança de seus vizinhos, sem saber exatamente o que procura. Nesta escalada, sente-se tormentado e sozinho, apesar da companhia da namorada Brooke Wolfe, sua ex-aluna (interpretada por Hope Davis, à vontade num filme de estrelas).

O filme é muito bem construído e torna-se uma guerra de nervos entre os personagens. Jeff Bridges evolui de um Faraday sem esperança e rotineiro, para alguém vivo e articulado, com toques investigativos. Tim Robbins trabalha bem a dualidade do personagem, de forma forte, embora blasé. Joan Cusack acompanha Robbins, de modo perfeito, e embora fria, faz o sangue ferver a todo instante.

Mesmo que o tema terrorismo não seja novo, a força do filme está na maneira engenhosa com que o enredo vai se desenrolando, surpreendendo em doses homeopáticas, de forma que você fica entretido, sem saber sobre o desfecho até o final. Quem já viu “A Trama” (1974), de Alan J. Pakula vai achar semelhanças, embora “O Suspeito da Rua Arlington” traga material novo.

Contribuem para ajudar "O Suspeito da Rua Arlington" a trilha assustadora de Angelo Badalamenti e a montagem nervosa de Conrad Buff, responsável por trabalhos com James Cameron e premiado com o Oscar por "Titanic". A fotografia de Bobby Bukowski é correta e clara, embora sinistra. Filmaço.



"O Suspeito da Rua Arlington" (Arlington Road)
1999 – EUA - 117 min. – Colorido – SUSPENSE
Direção: MARK PELLINGTON. Roteiro: EHREN KRUGER. Fotografia: BOBBY BUKOWSKI. Montagem: CONRAD BUFF. Música: ANGELO BADALAMENTI. Produção: PETER SAMUELSON, TOM GORAI E MARC SAMUELSO; distribuído pela SCREEN GEMS.

Elenco:
JEFF BRIDGES (Michael Faraday) TIM ROBBINS (Oliver Lang), JOAN CUSACK (Cheryl Lang), HOPE DAVIS (Brooke Wolf), ROBERT GOSSET (Agente do FBI Whit Carver), MASON GAMBLE (Brady Lang), SPENCER TREAT CLARK (Grant Faraday), STANLEY ANDERSON (Dr. Archer Scobee), VIVIANE VIVES (Enfermeira) e LEE STRINGER (Assistente).

Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:




Indo até o Fim

sábado, 25 de outubro de 2008

A BELA ADORMECIDA

“Mas quando eu a verei novamente?”


Assisti ao novo DVD de A Bela Adormecida e fiquei impressionado. A nova “roupagem” dada ao desenho da Disney enche os olhos. O colorido ganha novos tons e tem-se a impressão de que os mesmos saltam da tela. Foi de fato uma decisão muito apropriada esse relançamento, uma vez que “A Bela Adormecida” foi de fato um produto de tecnologia em alta definição no seu tempo, filmado em Super Technirama, que deram aos 70 mm um aspecto visual mais amplo que o do Cinerama.Também foi, talvez, o ultimo filme da Disney a ser colorizado artesanalmente em células de animação, e não transferidos, através de fotocopias utilizando-se desenhos e gravuras dos animadores. Dali em diante, os elementos artesanais – coloração desbalanceada, linhas quebradas e mesmo a ocasional impressão digital engordurada – desapareceriam do universo da Disney para sempre.

De acordo com os créditos, esta “A Bela Adormecida” foi inspirada na versão do conto de Charles Perrault de 1697, como outros elementos narrativos retirados do balé russo de 1889, musicado por Tchaikovsky. Mas, também, é um filme de seu tempo, com temas de romantismo juvenil e rebeldia inspirados na adolescência emergente do final dos anos 50. O filme nos dá a princesa Aurora – cujo longo loiro – faz-nos lembrar das famosas bonecas de meninas Barbie (que na verdade, pasmem, também foi criada em 1959) ou então a personagem Gidget de Sandra Dee.

Quando Aurora (Mary Costa) encontra o Príncipe Felipe (Bill Shirley) num caramanchão habitado por animaizinhos “humanizados” (que parecem pertencer a um período anterior de animação da Disney), apaixonam-se instanteneamente e, separam-se. O pai de Felipe cede imediatamente ao desejo do rapaz em casar-se com a garota.

Mas, para superar as objeções de Malévola (Eleanor Audley), a feiticeira do mal (que tem a figura maternal) opõe-se mais fortemente. Transforma-se em um dragão – “Agora você terá que lidar comigo, Principe, e com os poderes do mal!” — e inicia uma batalha com Felipe, que atinge o clímax mostrando todo o esplendor de animação do filme.

Sonorizado em 6 canais, “A Bela Adormecida” foi lançado em 1959, como resultado de um trabalho de mais de 8 anos e, orçado em US$ 6 milhões, o filme significou um grande êxito no nível de Pinocchio (1940) e Fantasia (1940). Os animadores haviam afundado nos anos 50 com animações de poucos recursos e pouco ambiciosos, como “Alice no País das Maravilhas” (1951) e “Peter Pan” (1953).

Para o público à época da estréia nas telas, o filme foi considerado demasiadamente imponente e frio. Repreendido pela crítica em função de seus personagens genéricos e relativo falta de calor e humor, “A Bela Adormecida” obteve nas bilheterias metade do que se esperava e antecipou uma nova era de austeridade nos estúdios de seu criador.

A animação da Disney voltou-se para formatos de pequena escala e sitcom, como por exemplo, “101 Dálmatas” (1961). Desta forma, “A Bela Adormecida” ficou sendo o último desenho animado do estúdio baseado em conto de fadas, até a adaptação de “A Pequena Sereia” (1989).

O DvD tem um monte de extras. Para nos cinefilos, há um excelente comentário com John Lasseter, da Pixar; o critico Leonard Maltin e o animador da Disney, Andreas Deja; o making of com cerca de 45 minutos; um especial “The Peter Tchaikovsky Story”, feito especialmente para a TV, em 1959 e o documentário curta-metragem premiado “Grand Canyon”.

Para os pequeninos, há o vídeo com a música “Once Upon a Dream , interpretada por Emily Osment ; também, uma penca de jogos, um tour da Bela Adormecida pela Disneylândia e outras atrações. Se você for fã da Disney em seus tempos áureos, como eu, não perca.



"A Bela Adormecida" (The Sleeping Beauty)
1959 – EUA - 75 min. – Colorido – DESENHO ANIMADO
Direção: CLYDE GERONIMI. Roteiro: JOE RINALDI, WINSTON HIBLER, BILL PEET, TED SEARS, RALPH WRIGHT E MILT BANTA, baseada na estória de CHARLES PERRAULT. Efeitos Especiais: DORSE A. LANPHER. Fotografia/Câmera: ROBERT ANDERSON. Animação: HAL AMBRO. Montagem: ROY M. BREWER JR. E DONALD HALLIDAY. Música: GEORGE BRUNS. Produção: WALT DISNEY; distribuído pela WALT DISNEY.

Vozes: MARY COSTA (Aurora) BILL SHIRLEY (Príncipe Felipe), ELEANOR AUDLEY (voz da Malévola), VERNA FELTON (Flora), BARBARA LUDDY (Merryweather), BARBARA JO ALLEN (Fauna), TAYLOR HOLMES (Stefan) e BILL THOMPSON (Hubert).


Cenas do Filme:



Do mesmo diretor:




Branca de Neve e os 7 Anões

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

LA LUNA

“Meu Deus, o que eu fiz a você?”


O filme mostra uma bonita e bem sucedida cantor lírica e sua relação incestuosa com seu filho de 15 anos, um junkie. Quando o marido de Caterina (Jill Clayburgh) morre no inicio do filme, ela se muda com seu filho Joe (Matthew Barry) para Roma, onde possui um contrato profissional, pouco se importando com o impacto dessa mudança abrupta sobre o garoto. Joe, que a admira, é forçado a ficar em segundo plano em seu afeto à medida que a carreira da mãe avança com a providencial alegria de uma viúva liberal. Joe recorre às drogas e, quando sua mãe percebe o que está acontecendo, tenta resgatar o tempo perdido. O tema é sério e forte. Entretanto, há um senão na forma como o diretor lida com a questão. Um dos melhores momentos do filme é a cena em que Joe, sentindo uma necessidade desesperadora pela droga, é confortado pela mãe, de forma ingenuamente sexy (se é que isso seja possível). Enquanto ela o embala, ele começa a sugar seus seios. A reação dela a isso é levá-lo ao orgasmo e assim somos levados a entender essa atitude como uma “droga suavizante”. Será que um drogado tem tanto tesão a ponto de substituir o prazer sexual pela droga, numa crise de abstinência? Não quero ser literal, mas fica a questão.

A dificuldade de lidar com alguns filmes de Bertolucci é justamente o fato de que ele não parece um artista totalmente desprovido de humor, como parece. Por causa disso, pode ser que eu esteja equivocado, mas faço uma leitura de que “La Luna” não seja tão sério quanto pareça. Pode até ser que tenha a pretensão de ser um filme engraçado , quando parece demonstrar o contrario. Entretanto, não acho que seja o caso. Suspeito que Bertolucci quer nos emocionar e também chocar com a situação do “casal”.

Jill Clayburgh como Caterina está esplendida, chia de nuances e contradições. Egoísta, mas generosa; amorosa, mas esquecida; auto-centrada em si mesma, mas verdadeiramente apaixonada pela profissão. Quando a atriz diz a seu filho, cuja passividade a enfurece, “Venho de um mundo onde cantar, criar e sonhar nada significa”, traz a força que somente uma grande atriz, em atuação rara e complexa, poderia realizar. O filme talvez não esteja à mesma altura.

Apesar da espetacular fotografia de Vittorio Storaro e das peças musicadas de "Il Trovatore," "La Traviata," "Rigoletto" e"Un Ballo in Maschera" , “La Luna" deixa-me na dúvida. Neste caso, prefiro encará-lo como uma grande metáfora. Eu o acharia até poético caso Bertolucci não insistisse em tratar Joe como um estudo de caso de uma criança rejeitada e não amada.

“Posso fazer todas as coisas que papai faz para você”, o garoto diz no começo do filme. Mais tarde, ele brada, como num dramalhão, que sua mãe não o ama e nunca amou. Lá na frente, Caterina lamenta: “Meu Deus, o que fiz a você”. Nenhuma dose de Verdi pode transformar esses clichês em algo maior, à medida que o filme vai chegando ao seu final. Se isso causa um embaraço em algum musical da Broadway, o que dizer num filme passado em Roma, tendo óperas como pano de fundo.

Há um numero de momentos isolados que são poderosos e fortemente angustiantes, mas tais efeitos não são tão difíceis de serem atingidos quando são mostradas cenas de um viciado furando o braço com um garfo no lugar de uma seringa. Jill Clayburgh está sempre extraordinária sob quaisquer circunstâncias. Há também boas atuações coadjuvantes como as de Renato Salvatori, Fred Gwynne, Alida Valli e Tomas Milian, mas nenhuma delas é suficiente para colocar o filme num patamar de obra-prima.



"La Luna" (La Luna)
1979 – EUA/ITÁLIA - 142 min. – Colorido – DRAMA
Direção: BERNARDO BERTOLUCCI. Roteiro: GIUSEPPE BERTOLUCCI, CLARE PEPLOE E BERNARDO BERTOLUCCI, baseado na história original de FRANCO ARCALLI, BERNARDO BERTOLUCCI E GIUSEPPE BERTOLUCCI . Fotografia: VITTORIO STORARO. Montagem: GABRIELLA CRISTIANI. Música: GIUSEPPE VERDI, BARRY GIBB, ROBIN GIBB E MAURICE GIBB. Produção: GIOVANNI BERTOLUCCI para a FICTION CINEMATOGRAFICA S.P.A., distribuído pela 20th Century-Fox.

Elenco:
JILL CLAYBURGH (Caterina Silveri), MATTHEW BARRY (Joe), VERONICA LAZAR (Marina), RENATO SALVATORI (Comunista), FRED GWYNNE (Douglas Winter), TOMAS MILIAN (Giuseppe), ALIDA VALLI (Mãe de Giuseppe ), ELISABETTA CAMPETI (Arianna), CLARA BINDI (Empregada da Estalagem), MARIO PASSANTE (Homem no bar) e RENATO TERRA (Decorador).


Cenas do Filme:



Do mesmo diretor:



O Último Tango em Paris

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O FILHO DO SHEIK

“Meu jovem leão”


Os filmes de Rodolfo Valentino não são marcos no cinema. Apenas oferecem algo mais que fantasias exóticas, um simples espetáculo de exibição; contudo, estabeleceu-se um novo tipo de erotismo na maneira de interpretar, freqüentemente com pequenos gestos ( típicos no cinema mudo). Aqui Valentino faz o papel do jovem Ahmed e sua “vitima” é a bela bailarina Yasmin (Vilma Banky), a filha de um ladrão. Sua submissão como escrava sexual é o preço pago por sua traição: depois de um breve romance, Ahmed foi seqüestrado e torturado pelos bandidos do pai da jovem, uma boa ocasião para mostrar o peito cortado diante dos torturadores que chicoteavam e, sobretudo, diante da câmera. Haverá algumas lutas de espada bem coreografadas e uma ou outra dança do ventre para que o equívoco se desfaça e o filho do deserto possa cavalgar com sua noiva ao pôr-do-sol. Para controlar um pouco a agressividade sexual de Valentino, símbolo do orgulho oriental ferido, o sheik, como o chamavam deste há tempo, aparece em um interessante papel duplo.

”O Filho do Sheik” é a continuação de seu primeiro grande êxito, “O Sheik” (1921). Além de interpretar o filho, Valentino (com a barba grisalha) dá vida ao pai de Ahmed. O papel de Diana, sua antiga conquista, e agora mãe, volta a ser interpretado por Agnes Ayres. O sheik trata sua esposa com ternura e enfrenta a ira de seu filho com a indulgência da idade: ambos papéis ficam bem no ator e conseguem satisfazer os gostos mais conservadores. Entretanto, do ponto de vista artístico, é mais interessante a hábil aplicação da cortina partida para criar as imagens com os dois Valentinos.

Além dessas sofisticações, o filme traz alguns personagens divertidos que formam o contraponto cômico do filme: o criado psicótico de Ahmed deleita-se como um neném ao estrangular o inimigo e Ghabah (Montagu Love); o capitão dos ladrões, por outro lado, tem uma espécie de bufão. Assim, o resultado é uma fantasia oriental com decorações modestas, de pouca duração, mostrando como os americanos se passam por árabes. O filme foi rodado no deserto do Arizona, com resultados bem bastante convincentes.

Não vi muitos filmes de Valentino. Na verdade, assiti “O Sheik” e tenho “O Águia” (1925) em VHS – no qual faz o papel de um tenente russo que cai nas graças de Catarina II . Porém, achei este melhor. Falei com pessoas que já haviam assistido a toda a filmografia de Valentino e afirmaram que ”O Filho do Sheik” é considerado o seu melhor trabalho. Não é à toa que sua fama está ligada a esse filme, que se converteu em seu legado. Não deixe de conhecer.



"O Filho do Sheik" (The Son of the Sheik)
1921 – EUA - 68 min. – Preto e Branco – AVENTURA
Direção: GEORGE FITZMAURICE. Roteiro: FRANCES MARION, FRED DE GRESAC e GEORGE MARION JR. Fotografia: GEORGE BARNES. Música: GERARD CARBONARA e ARTUR GUTTMANN. Produção: GEORGE FITZMAURICE E JOHN W. CONSIDINE JR. para a FEATUREPRO INC.

Elenco:
RUDOLPH VALENTINO (Ahmed, o Filho do sheik/sheik Ahmed Ben Hassan), VILMA BANKY (Yasmin), AGNES AYRES (Diana), GEORGE FAWCETT (Andre), MONTAGU LOVE (Ghabah), KARL DANE (Ramadan), BULL MONTANA (Ali), BYNUNSKY HYMAN (Pincher) e WILLIAM DONOVAN (S´rir).


Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:




Mata Hari

sábado, 18 de outubro de 2008

AKIRA

“Eu não sou Akira!”


“Akira”, de Katsuhiro Ôtomo é um trabalho de animação fenomenal com todas as credenciais de um cult clássico. Seu estilo pós-apocalíptico, armadilhas hi-tech, ilustrações sensacionais e uma vasta coleção de personagens bizarros, colocam-no no panteão dos animês da ficção científica. Baseado na saga animê largamente popular Ôtomo, ”Akira” pega seu nome de uma força misteriosa que pode estar em progresso em Neo-Tóquio, onde a ação acontece. Em 2019, 31 anos após a III Guerra Mundial, o mundo tem a possibilidade de voltar ao normal - estudantes de ginásio, gangues de motocicleta, agentes de Governo corruptos e místicos que prevêem o futuro. “Conforme a cultura”, diz alguém, "encontramos a solidão do coração humano”.

O diretor investe neste fúnebre desabrochar da civilização pós-nuclear com uma rara e grande beleza. Os desenhos de Neo-Tóquio à noite são mostrados com tanta minúcia que todas as janelas de cada arranha-céus aparecem em detalhe. E, essas cenas noturnas, brilham em cores claras e vibrantes. Nunca recorrendo a recursos de forma a ostentar um visual poderoso gratuitamente, o diretor utiliza-se de uma grande variedade de tonalidades de forma premeditada e interessante, “animando” seu filme com constante doses de surpresa. Os movimentos e mudanças apresentadas na tela são tremendamente diversificadas e quase sempre imprevisíveis. Por outro lado, “Akira” é hermético e, naturalmente, possui um apelo maior junto ao público interessado em desvendar sua trama complicada e bem desenvolvida.

No epicentro da história está Tetsuo, o membro de uma gangue juvenil , que se torna (contra sua vontade) uma cobaia de experimentos secretos do Governo e Kaneda, que em diferentes ocasiões é o seu melhor amigo – mas também seu arquirrival. No enredo, há o envolvimento das forças do Governo, de militares, de outras gangues e de um pequeno grupo de pálidas crianças paranormais. Mesmo quando fornecem terríveis afirmações, esses personagens falam com tal propriedade que ajudam a dar a esse filme pop o tom austeramente japonês.

O diretor e seu pelotão de habilidosos animadores estão em seu melhor, ao fazerem surgir - como por encanto - turbulentos efeitos especiais, mostrados ao mesmo tempo com grande força e ingenuidade. “Akira” apresenta cores, sombras e traços com inúmeros matizes e quando seus personagens enfrentam-se no espaço, fazem-no com uma energia de tirar o fôlego. No meio das seqüências fortes, está aquela em que são mostrados brinquedinhos na enfermaria, que logo se transformam em monstros enormes e assutadores; em outra, na qual grandes e assutadores mucos de sangue saltam do corpo de uma vitima assustada.

A violência permeia o filme, fazendo deste o habitat natural de Akira. Os personagens mais sensatos advogam pelo sábio uso dos temerosos “novos” poderes da humanidade, dando ao filme como um todo uma sensação de um conto premonitório.



"Akira" (Akira)
1988 – JAPÃO - 124 min. – Colorido – FICÇÂO CIENTÍFICA
Direção: KATSUHIRO ÔTOMO. Roteiro: KATSUHIRO ÔTOMO e IZÔ HASHIMOTO. Fotografia: KATSUJI MISAWA. Montagem: TAKESHI SEYAMA. Música: SHOJI YAMASHIRO. Produção: RYOHEI SUSUKI E SHUNZO KATO, distribuído pela STREAMLINE PICTURES.

Elenco:
MITSUO IWATA (voz de Shôtarô Kaneda), NOZOMU SASAKI (voz de Tetsuo Shima), MAMI KOYAMI (voz de Kei), TESSHÔ GENDA (voz de Ryûsaku), HIROSHI ÔTAKE (voz de Nezu), KÔICHI KITAMURA (voz de Miyako), MICHIHIRO IKEMIZU (voz do Inspetor), YURIKO FUCHIZAKI (voz de Kaori), MASAHAKI OKURA (voz de Yamagata), TARÔ ARAKAWA (voz de Eiichi Watanabe) e TAKESHI KUSAO (voz de Kai).


Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:




Steamboy

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A MÁSCARA DE SATÃ

“Você nunca ficará livre de minha vingança….”


No século XVII, a bruxa Asa Vajda (Barbara Steele) é morta a mando de seu irmão, o príncipe Vajda. Ele a renega como tal, por prática de bruxaria, ordenando que em seu rosto seja encravada uma máscara (a marca de representação do diabo). Como vingança, lança uma maldição que deverá incomodar toda geração de seus algozes.
Esse é a trama principal de “A Máscara de Satã”, dirigido por Mario Bava, que se baseou num conto de Nikolai Gogol e roteiro de Ennio De Concini para desenhar a vampira secular. Passados 200 anos, uma dupla de médicos em viagem, Dr. Andre Gorobec (John Richardson) e Dr. Thomas Kruvajan (Andrea Checchi), descobre uma cripta e quando um deles se machuca, sangrando, estabelece o mecanismo suficiente para trazer de volta a bruxa à vida. Esta, com a ajuda do também ressuscitado assistente, iniciam uma saga de vingança que terá como a principal vítima a bela Katia Vajda (Barbara Steele em papel duplo) agora apaixonada por Andre, que tentará protegê-la.

Temos todos os ingredientes do clássico terror da década de 60, de baixo orçamento. Isso torna o visual fake; contudo, é difícil não se deixar seduzir pela personagem principal - que mais parece uma manequim de olhos vidrados, visual mundano e uma voz de outro mundo. Barbara Steele está apopriada como a bruxa/vampira – não ao estilo Theda Bara, mas uma versão genuína da bebedora de sangue.

Mario Bava, permite que essa Bela Lugosi de saias sacie sua sede por cerca de quatro vezes antes de queimar na fogueira, gritando, diante do olhar de Andre (John Richardson). Essa história se passa num decadente castelo, com todos os aparatos que se têm direito nos filmes de terror – teias de aranha, portas com passagem secreta, túmulos, etc. Como ambiente fúnebre, faz-nos sentir saudades do tranqüilo e modesto motel Bates, de “Psicose” (1960).



"A Máscara de Satã" (Black Sunday)
1960 – ITÁLIA - 87 min. – Preto e Branco – HORROR
Direção: MARIO BAVA. Roteiro: ENNIO DE CONCINI e MARIO SERANDREI, baseado no conto “The Viy”, de NIKOLAI GOGOL. Fotografia: MARIO BAVA. Montagem: MARIO SERANDREI. Música: ROBERTO NICOLOSI. Produção: GALATEA S. P. A., distribuído pela AMERICAN INTERNATIONAL PICTURES

Elenco:
BARBARA STEELE (Asa/Katia Vajda), JOHN RICHARDSON ( Dr. Andre Gorobec), ANDREA CHECCHI (Dr. Thomas Kruvajan), IVO GARRANI (Príncipe Vajda), ARTURO DOMINICI (Igor Javutich/Javuto), ENRICO OLIVIERI (Príncipe Constantine Vajda), ANTONIO PIERFEDERICI (Padre), TINO BIANCHI (Ivan), CLARA BINDI (Empregada da Estalagem), MARIO PASSANTE (Nikita, o cocheiro) e RENATO TERRA (Boris).


Cenas do Filme:



Do mesmo diretor:




As Três Máscaras do Terror