quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A MÁSCARA DE SATÃ

“Você nunca ficará livre de minha vingança….”


No século XVII, a bruxa Asa Vajda (Barbara Steele) é morta a mando de seu irmão, o príncipe Vajda. Ele a renega como tal, por prática de bruxaria, ordenando que em seu rosto seja encravada uma máscara (a marca de representação do diabo). Como vingança, lança uma maldição que deverá incomodar toda geração de seus algozes.
Esse é a trama principal de “A Máscara de Satã”, dirigido por Mario Bava, que se baseou num conto de Nikolai Gogol e roteiro de Ennio De Concini para desenhar a vampira secular. Passados 200 anos, uma dupla de médicos em viagem, Dr. Andre Gorobec (John Richardson) e Dr. Thomas Kruvajan (Andrea Checchi), descobre uma cripta e quando um deles se machuca, sangrando, estabelece o mecanismo suficiente para trazer de volta a bruxa à vida. Esta, com a ajuda do também ressuscitado assistente, iniciam uma saga de vingança que terá como a principal vítima a bela Katia Vajda (Barbara Steele em papel duplo) agora apaixonada por Andre, que tentará protegê-la.

Temos todos os ingredientes do clássico terror da década de 60, de baixo orçamento. Isso torna o visual fake; contudo, é difícil não se deixar seduzir pela personagem principal - que mais parece uma manequim de olhos vidrados, visual mundano e uma voz de outro mundo. Barbara Steele está apopriada como a bruxa/vampira – não ao estilo Theda Bara, mas uma versão genuína da bebedora de sangue.

Mario Bava, permite que essa Bela Lugosi de saias sacie sua sede por cerca de quatro vezes antes de queimar na fogueira, gritando, diante do olhar de Andre (John Richardson). Essa história se passa num decadente castelo, com todos os aparatos que se têm direito nos filmes de terror – teias de aranha, portas com passagem secreta, túmulos, etc. Como ambiente fúnebre, faz-nos sentir saudades do tranqüilo e modesto motel Bates, de “Psicose” (1960).



"A Máscara de Satã" (Black Sunday)
1960 – ITÁLIA - 87 min. – Preto e Branco – HORROR
Direção: MARIO BAVA. Roteiro: ENNIO DE CONCINI e MARIO SERANDREI, baseado no conto “The Viy”, de NIKOLAI GOGOL. Fotografia: MARIO BAVA. Montagem: MARIO SERANDREI. Música: ROBERTO NICOLOSI. Produção: GALATEA S. P. A., distribuído pela AMERICAN INTERNATIONAL PICTURES

Elenco:
BARBARA STEELE (Asa/Katia Vajda), JOHN RICHARDSON ( Dr. Andre Gorobec), ANDREA CHECCHI (Dr. Thomas Kruvajan), IVO GARRANI (Príncipe Vajda), ARTURO DOMINICI (Igor Javutich/Javuto), ENRICO OLIVIERI (Príncipe Constantine Vajda), ANTONIO PIERFEDERICI (Padre), TINO BIANCHI (Ivan), CLARA BINDI (Empregada da Estalagem), MARIO PASSANTE (Nikita, o cocheiro) e RENATO TERRA (Boris).


Cenas do Filme:



Do mesmo diretor:




As Três Máscaras do Terror

domingo, 12 de outubro de 2008

MALVADOS E MALVADAS

Pessoal estou iniciando um MEME dos Malvados e Malvadas. Trata-se daqueles 5 caras e 5 mulheres que consideramos nada bonzinhos (as). Claro que é uma lista difícil, ainda mais se considerarmos que há personagens inesquecíveis dentro deste quesito. Porém, a idéia é listar 10 no total, que você considera como os (as) mais mais. Para dificultar a tarefa, exclua da lista os personagens de desenhos animados e ficção científica. Ao final, indiquei também 10 blogs de amigos. Aqui vão os meus (minhas) em ordem alfabética.







Anton Phibes, o médico atormentado pela morte da esposa em “O Abominável Dr. Phibes” (1971), interpretado por Vincent Price














Annie Wilkes, a enfermeira psicopata de “Louca Obsessão” (1990), interpretada por Kathy Bates















Baby Jane Hudson, a velha atriz reclusa que cuida da irmã inválida de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” (1962), interpretada por Bette Davis














Eve Harrington, a ambiciosa e manipuladora aspirante a atriz de “A Malvada” (1950), interpretada por Anne Baxter













Gregory Anton, o pianista que tortura mentalmente sua mulher, em “À Meia Luz” (1944), interpretado por Charles Boyer














Hannibal Lecter, o serial killer de “O Silêncio dos Inocentes” (1990), interpretado por Anthony Hopkins















Joan Crawford, a famosa (e neurótica) estrela de Hollywood em “Mamãezinha Querida” (1981), interpretada por Faye Dunaway
















Max Cady, o estuprador psicótico de “O Cabo do Medo” (1991), interpretado por Robert De Niro
















Norman Bates, o maníaco edipiano de “Psicose” (1960), interpretado por Anthony Perkins














Sra. Trefoile, a fanática religiosa de “Fanatismo Macabro” (1965), interpretada por Tallulah Bankhead










Repasso o desafio aos amigos dos seguintes blogs:

Blog dos Cinéfilos
O Cara da Locadora
Cenas de Cinema
Cinefilando
La Dolce Vita
Mapa do Meu Nada
Moviemento
Século da Luz
Tribo da Leitura
Tudo é Crítica

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

SORTILÉGIO DE AMOR

“Ela usou um gato.”


É comum vermos em filmes lindas garotas enfeitiçando rapazes, seja através de olhares, jeito de falar, de andar, etc. Em “Sortilégio de Amor”, esse feitiço ocorre literalmente, quando Gillian “Gil” Holroyd (Kim Novak), linda como sempre, encanta um homem, Shepherd “Shep” Henderson (James Stewart), fazendo com que ele se apaixone por ela. O tema pode parecer tolo e banal. Porém, o roteirista Daniel Taradash transformou a peça de John van Druten em um conto de fadas urbano. Desde o atelier da heroína, uma espécie de marchand de arte primitiva, até o esfumaçante bar noturno em Greenwich Village, onde os feiticeiros locais e seus aprendizes tocam, tudo é divertido, com visual vÍvido e sugestivo.

Mérito deve ser dado ao diretor de arte Cary Odell, que dá cores especiais devido à própria necessidade imposta pelos próprios cenários do filme; o consultor especial de matizes, Eliot Elisoforn, e o diretor de fotografia, James Wong Howe, juntos, conseguem fazer com que fiquemos hipnotizados.

Para se ter uma idéia, eles sugerem como as coisas acontecem sob a ótica dos olhos do gato de estimação da feiticeira, saturando as imagens na câmera em um tom azul escuro melancólico. E o que conseguem fazer com as tomadas nas ruas de Nova Iorque é mágico. Graças a eles, Kim Novak, como a provocante e sedutora jovem que possui poderes de feiticeira, parece bem mais convincente em sua atuação. James Stewart é o ator de sempre e, envelhecido como par da estonteante Kim, faz o papel do editor que ela fisga.

Jack Lemmon, como um bruxo ou irmão de Gillian, Nick Holroyd, está um pouco afetado. Elsa Lanchester (Queenie Holroyd) e Hermione Gingold (Bianca de Passe) interpretam de forma muito engraçada uma dupla de velhas inescrupulosas, e Ernie Kovacs (Sidney Redlitch) retrata um escritor com ar desajeitado e maltrapilho como se estivesse tentando invocar Maxim Gorky para o filme.

"Sortilégio de Amor” é um feitiço brando, mas chega perto de parecer magia.



"Sortilégio de Amor" (Bell, BooK and Candle)
1958 – EUA - 106 min. – Colorido – COMÉDIA
Direção: RICHARD QUINE. Roteiro: DANIEL TARADASH, baseado na peça homômina de JOHN VAN DRUTEN. Fotografia: JAMES WONG HOWE. Montagem: CHARLES NELSON. Música: GEORGE DUNING. Produção: JULIAN BLAUSTEIN, para a COLUMBIA PICTURES.


Elenco:
JAMES STEWART (Shepard Henderson), KIM NOVAK ( Gillian Holroyd), JACK LEMMON (Nicky Holroyd), ERNIE KOVACS (Sidney Redlitch), HERMIONE GINGOLD (Bianca de Passe), ELSA LANCHESTER (Queenie Holroyd), JANICE RULE (Merle Kittridge), PHILLIPE CLAY (cantor francês), BEK NELSON (secretária), HOWARD McNEAR (Andy White) e THE BROTHERS CANDOLL (músicos).


Cenas do Filme:



Do mesmo diretor:



O Mundo de Susie Wong

terça-feira, 7 de outubro de 2008

SUPERMAN - O FILME

“Eu nunca bebo quando voo.”


O tamanho do espetáculo já é anunciado na introdução dos créditos, que mais parece a abertura de uma ópera wagneriana. O prólogo transcorre no planeta Krypton, onde o conselheiro Jor-El (Marlon Brando) anuncia uma catástrofe iminente; como os demais integrantes do grupo acham a previsão um exagero, obrigam-no a jurar que nem ele e sua esposa abandonarão o planeta. Enviam, então, seu filho Kar-El numa cápsula de salvamento em direção à Terra. Portanto, o garoto converte-se no único sobrevivente de seu povo, como havia profetizado seu pai. Destruído Krypton, Kar-El, já na Terra, é acolhido por pais adotivos e converte-se em Clark Kent (Christopher Reeve).O diretor, Richard Donner, concebeu o personagem de Superman como um genuíno mito norte-americano e assim o conduziu na tela, com gravidade, dimensões épicas e numerosas facetas que destacavam o caráter irretocável do garoto extraterreno. Diferentemente de Richard Lester, que dirigiu as seqüências I e II recorrendo mais ao lado cômico, Donner permitiu que seu herói fosse um menino que suportasse os insultos de seus companheiros e renunciasse a seus poderes, porque seu pai e mãe assim o haviam ensinado. Ao longo do filme, como protetor da Terra, ganha o respeito dos terráqueos e gratidão por ter evitado o caos - sem esquecer o amor de Lois Lane, (Margot Kidder), um prêmio merecido por ter salvado o mundo.

A direção de Donner não se limita a projetar na tela os conhecidos motivos da saga de Superman. Tira proveito do dinamismo que o cinema permite frente à estática dos gibis – nos quais os editores têm que recorrer a artifícios gráficos e onomatopéias para representar os movimentos do herói – e joga todo seu conhecimento. Até os maiores aficionados dos quadrinhos desfrutam assistindo ao herói cruzando o céu com Lois Lane nos braços, lançando-se velozmente no espaço ou usando suas habilidades para evitar que uma parte da Califórnia seja separada do continente.

Logo no inicio, Donner começa a dar as cartas. “Ilustra” o filme, enfatizando a diferença do formato convencional para o cinemascope: sinaliza sua força, dá mostras de sua capacidade para a representação de um grande espetáculo e, deslizando pelo espaço à velocidade da luz com a câmara livre de amarras, embarca o público numa viagem que não pode fazer a lugar nenhum, exceto nas telonas. Na realidade, o Superman somente pode voar nos filmes. E verdade seja dita: dificilmente haverá um Superman, como Christopher Reeve, e nem uma Lois Lane, como Margot Kidder. Diversão sempre.



"Superman – O Filme" (Superman: The Movie)
1978 – EUA - 143 min. – Colorido – FICÇÃO CIENTÍFICA
Direção: RICHARD DONNER. Roteiro: MARIO PUZO, DAVID NEWMAN, LESLIE NEWMAN, ROBERT BENTON, TOM MANKIEWICZ E NORMAN ENFIELD, baseado nos quadrinhos de HERRY SIEGEL E JOE SHUSTER. Fotografia: GEOFFREY UNSWORTH. Montagem: SUART BAIRD E MICHAEL ELLIS. Música: JOHN WILLIAMS. Produção: ALEXANDER SALKIN E PIERRE SPENGLER para DOVEMEAD FILMS, ALEXANDER SALKIN, FILM EXPORT A.G. E INTERNATIONAL FILM PRODUCTION.

Elenco:
CHRISTOPHER REEVE (Superman/Clark Kent), MARGOT KIDDER (Lois Lane), MARLON BRANDO (Jor-El), GENE HACKMAN (Lex Luthor), NED BEATTY (Otis), JACKIE COOPER (Perry White), GLENN FORD (Pa Kent), TREVOR HOWARD (senador), MARIA SCHELL (Vond-Ah), TERENCE STAMP (general Zodd) e VALERIE PERRINE (Eve Teschmacher).

Prêmios:
Oscar Especial de Efeitos Especiais (Les Bowie, Colin Chilvers, Denys N. Coop, Roy Field, Derek Meddings e Zoran Perisic)/1978.

Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



O Feitiço de Áquila

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

ANÔNIMO VENEZIANO

“Era bom demais para durar”


Enrico (Tony Musante), um músico aspirante a maestro e Valeria (Florinda Bolkan) foram casados por onze anos e estão separados há oito. Após longa ausência, Enrico a chama de Ferrara, onde ela vive com o filho do casal e um amante rico e mais velho, para um reencontro em Veneza. Foi nessa cidade que se conheceram durante os tempos de faculdade – onde a forte paixão entre eles nasceu, acabou e, durante o dia, renasce. Porém, há um problema: Enrico tem uma séria doença. “Anônimo Veneziano” é um drama romântico ítaliano, absolutamente aclimatado e vivido em Veneza – com seu o canal, suas gôndolas, suas “piazzas” e igrejas. Foi dirigido e parcialmente escrito por Enrico Maria Salerno para parecer um filme intimista. Porisso, utiliza-se de diálogos de relacionamento, onde a questão principal é como tentar resolver um casamento no qual a incompatibilidade de gênios é maior que o sentimento que une o casal. Entretanto, não necessariamente esse seja o ponto principal do filme, mas, sobretudo, o esclarecimento de uma relação que não deu certo – e que nunca dará. Não porque o casal não queira, mas porque o curso das coisas assim os levou a uma irreversível separação.

Há alguns momentos em que o diretor inevitavelmente mutila um clichê bacana (se é que se pode chamar um clichê disso), quando Enrico e Valeria voltam a um restaurante típico que costumavam ir quando jovens – “O que você tem?”, Valeria pergunta ao garçom. “Arroz com tinta de lula, sopa de peixe, espaguete, fettucine, lasanha...”, diz ele, de forma direta. Ela responde: “Espaguete...”, como se estivesse num sonho.

Por outro lado, muito dos diálogos são bastante interessantes e gosto particularmente da forma como Enrico resume seu sentimento na relação: “O bovarismo está enraizado na alma feminina, de modo que a mulher chega a trair o amante com o próprio marido” (muito embora Enrico já a tivesse traído antes). É uma tentativa de limpar os pratos sujos de forma sutil.

Tony Musante e Florinda Bolkan fizeram trabalhos sérios em outros filmes, mas aqui fica muito limitada a avaliação interpretativa do casal, uma vez que claramente o cenário e a história sobressaem-se ao par. E, Salerno, ao final, nos deixa com a sensação de que ficou algo a mais para ser dito. É como se fossemos a câmera e nos jogassem nos canais de Veneza, sem rumo definido, ao som da bela trilha sonora de Cipriani (ainda hoje um cult).

Mas, de qualquer forma é sempre bom rever um filme estrelado pela nossa cearense Florinda Bolkan (ex-Bulcão), atriz que já trabalhou com renomados cineastas europeus, como Elio Petri e outros. Li que De Sica teria dito quando a convidou para o filme “Amargo Despertar” (1973): “Escolhi você por que seus olhos são de quem já conheceu a fome". A resposta de Florinda: "Quem nasce no Ceará traz uma carga de verdade muito dura e forte". E é verdade. Ela continua linda, vive na Itália e está na ativa.



"Anônimo Veneziano" (Anonimo Veneziano)
1970 – ITÁLIA - 91 min. – Colorido – DRAMA
Direção: ENRICO MARIA SALERNO. Roteiro: ENRICO MARIA SALERNO E GIUSEPPE BERTO. Fotografia: MACELLO GATTI. Música: STELVIO CIPRIANI.Montagem: MARIO MORRA. Produção: TURI VASILE, distribuído pela ALLIED ARTISTS.

Elenco: TONY MUSANTE (Enrico) FLORINDA BOLKAN (Valeria), TOTI DAL MONTE (proprietário da casa), SANDRO GRINFAN (gerente da fábrica), BRIZIO MONTINARO (garçom) e GIUSEPPE BELLA (técnico).

Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



Cari Genitori

domingo, 5 de outubro de 2008

O ENCOURAÇADO POTEMKIN

“Camaradas, chegou a hora de agir!”


Há filmes que, para conseguirem em seu país a atenção que merecem, primeiro têm que dar “uma volta” e comemorar o êxito no exterior. Isso aconteceu com “O Gabinete do Doutor Caligari”, de R. Wiene, que foi muito bem recebido em Paris e somente a partir daquele momento foi reconhecido em Berlim como uma obra que abria novas perspectivas; o mesmo ocorreu com Fassbinder, cuja fama em Paris, Londres e Nova Iorque precedeu seu reconhecimento na Alemanha. Contudo, o paradigma máximo dessa situação foi este filme de Eisenstein, que causou sensação na Alemanha nos anos 20, seguindo triunfalmente por outros países da Europa e, finalmente, pela história do cinema. O filme continua sendo bastante cultuado, aparece na lista dos melhores de todos os tempos e inspirou gerações inteiras de cineastas e estudantes de cinema.

Resgatando um pouco o histórico deste belo filme, ninguém podia imaginar quando a cúpula da ainda embrionária União Soviética confiou a Eisenstein (então com 27 anos) a tarefa de realizar um filme “em memória das revoltas pré-revolucionárias do ano de 1905” (segundo especificado no projeto). A princípio, a história da sublevação no encouraçado deveria ser um episodio; contudo, o tema foi se alongando e, ao final, houve a necessidade de aumentá-lo.

O filme estrutura-se em cinco atos claramente separados: as condições subumanas no interior da embarcação, o motim dos marinheiros contra os oficiais, a confraternização do povo com a tripulação amotinada, a matança dos cossacos russos nas escadarias de Odessa e, finalmente, a salvação a cargo dos barcos da frota do mar Negro, que auxiliam os revoltosos.

O que me faz achar esse filme fascinante não foi tanto a história, mas sim a forma como foi contada. Eisensten foi o primeiro cineasta que radicalizou o recurso estilístico da montagem e desenvolveu a união dinâmica e rítmica das cenas, através de cortes que se intensificam em pontos chaves, em constante trocas de imagens.

Claro que, comparativamente a hoje, com o advento de vídeos musicais, tecnologia digital e estética publicitária, “O Encouraçado Potemkin” não parece tão inovador; porém, considerando-se a época em que foi realizado, causou uma revolução no mundo do cinema. Tal reviravolta fez os círculos mais conservadores acharem que a “inovação” pudesse resultar em revoluções reais. Por isso o filme foi proibido, por exemplo, em diversas regiões da Alemanha, algumas das quais somente puderam conhecer a película após a Segunda Grande Guerra Mundial.

Em 1927, Walter Benjamin defendeu o filme, dizendo que o mesmo estava “ideologicamente construído, calculado detalhadamente como o arco de uma ponte”, o que significava dizer que o engenheiro Eisenstein havia criado uma obra de arte. De fato a estrutura ainda está lá e o filme apesar de antigo não envelhece jamais. Nunca uma cena de filme foi tão copiada como aquela do massacre nas escadarias de Odessa, como carrinho de bebê caindo abaixo – seja em filmes como “Os Intocáveis” (1986), de Brian De Palma ou em Kebab Connection (2004), de Anno Saul. O filme sobrevive, desta forma, tanto de suas projeções, como de suas inúmeras citações e transformações ao longo de mais de oitenta anos.

De fato é um filme muito forte e impressionante. Minha cópia ainda é antiga em VHS. Para se ter idéia, chequei e achei que em 2004 o filme foi apresentado com uma nova trilha sonora dos Pet Shop Boys ao ar livre na Trafalgar Square e, com uma versão restaurada, passou por diversos festivais em 2005. Espero que todas essas mudanças e o tour pelo mundo tenham sido tão somente para remeter sempre ao filme em seu original. Tecnicamente estupendo. Veja ao menos uma vez na vida.



"O Encouraçado Potemkin" (Bronenosets Potiomkin)
1925 – URSS - 75 min. – Preto e Branco – DRAMA
Direção: SERGEI EISENSTEIN. Roteiro: NINA AGADSHANOVA-SCHUTKI E SERGEI EISENSTEIN. Fotografia: EDOUARD TISSÉ. Montagem: SERGEI EISENSTEIN. Produção: GOSKINO.

Elenco: ALEKSANDR ANTONOV (marinheiro Vakulinchuk) VLADIMIR BARSKY (comandante Golikov), GREGORI ALEXANDROV (tenente Giljarovski), ALEXANDER LJOVSCHIN (oficial) e MIJAIL CORNOROV (marinheiro Matiushenko).

Cenas do Filme:


Do mesmo diretor:



Alexander Nevsky

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O MARTÍRIO DE JOANA D´ARC

“Na França, sou chamada Joana….”


Quando se preparava para dirigir o filme que o tornaria uma lenda, Carl Theodor Dreyer assistiu num teatro parisiense a atriz Renée Maria Falconetti (uma atriz da Comedie Française). Ironicamente, ela atuava em um papel cômico (uma ironia difícil de entender). Talvez Dreyer quisesse lançar um desafio que provavelmente ela não poderia ser capaz de enfrentar, mas que também não poderia deixar de encarar.“La Passion de Jeanne d'Arc” é um daqueles filmes lendários que todo cineasta conhece, mas provavelmente muitos não assistiram. É desafiador, não apenas por causa de sua história dramática (da mártir com vestimentas no formato de cruz), mas por causa da maneira única com que Dreyer abordou esse material difícil – além de filmar o roteiro que recebeu, decidiu realizar um filme baseado nas transcrições históricas do julgamento de Joana.

Assisti aos extras do DVD em que a filha da atriz menciona que Dreyer havia gostado do que viu quando a assistiu, mas não havia ficado inteiramente certo de Falconetti era a Joana esperada. Quando ela surgiu para o teste, completamente desvestida de maquiagem ou artifícios, ele percebeu que ela era seria a escolha perfeita. Provavelmente inspirado pela audição, o diretor optou por filmar o elenco todo sem maquiagem. Também planejou filmar os personagens todos em close up, fazendo com que os detalhes dos rostos de cada um ficassem registrados na tela: um testamento da persistente modéstia do diretor e seu elenco.

A crítica Pauline Kael, talvez a melhor de todas, chamou a atuação de Falconetti como “a maior performance já capturada em um filme”. De fato, sua atuação não somente é maravilhosa, mas inesquecível. Contudo, a experiência de assistir à atriz é muito mais do que presenciar a interação entre uma atriz e o público. Assistir ao trabalho de Falconetti em Joana é participar de um experimento humano. É uma lenta e dolorosa sinfonia de expressões e emoções muito difícil de ser superada. Sua eloqüência física é mostrada através de seu martírio ao longo do filme, que pode também ser o resultado de uma jornada de auto-conhecimento de Falconetti durante os cerca de 18 meses de filmagem.

Em virtude da natureza técnica do filme (close-ups desconcertantes, realçados pelos cenários que Dreyer construiu fora de proporção para cada um), Falconetti é quase sempre exigida para atuar em close.. E que expressão! Capaz de demonstrar cada emoção existente durante a projeção, a atriz vai de um extremo a outro, do medo à profunda dor.

Naturalmente, o julgamento de Joana não é justo. Desde o começo, é obvio que se trata de um tribunal para mera formalidade - e não para justiça. Joana foi rotulada para ser uma traidora, uma herege em relação à Igreja. Sua indumentária masculina é vista puramente como uma transgressão sexual e não como uma necessidade política que de verdade é – uma mulher de longos cabelos loiros, usando vestido, seria capaz de inspirar algum sentimento senão sexual em um exército?).

O diretor cobre Falconetti com branco, a cor da morte. De fato, o filme todo é embebido com uma aura de mortalidade humana, desde túmulos sendo cavados até o desejo de sangue tão evidente no rosto dos juízes. Há momentos de muita tristeza , como aquele em que Joana desmaia e sofre uma sangria em uma tigela, para sanar sua febre. Quando ela é levada para argüição final, vislumbra uma tumba sendo cavada. Sua dor tem extrema força. Ela ama a vida. Daí, decide assinar uma confissão de modo a escapar da morte. Quando medita sobre sua traição à Cristo, reconsidera sua confissão, decidindo honrar Deus com sua sentença de morte.

A morte de Joana é a última conquista de Falconetti – provavelmente a mais forte experiência interpretativa que já vi na tela. Falconetti marcha ao longo de uma multidão de observadores. Está amarrada a um tronco de madeira, tendo seu corpo prestes a ser queimado, mesmo com sua alma heróica sendo imortalizada. Ao preparar-se para morrer, ela olha o povo. Percebe uma mãe amamentando uma criança. Falconetti demonstra a dor de Joana para o futuro das gerações. Seu expressão angelical conta a historia que todos devemos aprender: que deveríamos viver para transcender nossa presença física na Terra.

Joana percebe que sua escolha, a mais dificil que alguém pode fazer, foi acertada. Embora tenha havido alguma evidência que a atriz tenha se queixado ao interpretar Joana, foi a última vez que ela aparece num filme. A experiência fortemente emocional somada ao formalismo e rigor da maneira de filmar de Dreyer (que dirigia e ensaiava cenas em ordem cronológica, repetindo inúmeras tomadas, etc.) devem ter tido uma tremenda carga na frágil, porém poderosa atriz. É uma pena, mas não difícil de entender se Falconetti jogou toda a carga interpretativa de uma vida inteira em uma única atuação.

Somente assisti a este filme uma vez, mas com certeza não hesitaria em revê-lo. Não se pode desconsiderar que a direção e orientação de Dreyer foram fundamentais para o resultado final. Mas é o trabalho iluminado e transcendental de Falconetti que eleva o filme a um patamar superior junto aos grandes filmes do cinema. "O Martírio de Joana D´Arc" é hipnótico, uma obra de arte e a atriz é francamente responsável por isso. É uma experiência tocante, perturbadora e marcante.



"O Martírio de Joana D´Arc" (La Passion de Jeanne D´Arc)
1928 – FRANÇA - 95 min. – Colorido – DRAMA
Direção: CARL TH DREYER. Roteiro: CARL TH DREYER E JOSEPH DELTEIL. Fotografia: RUDOLPH MATÉ. Montagem: CARL TH DREYER E MARGUERITE BEAUGÉ. Música:VICTOR ALIX. Produção: SOCIETE GENERALE DES FILMS.

Elenco: MARIA FALCONETTI (Jeanne d´Arc) EUGENE SILVAIN (Bispo Pierre Cauchon), ANDRÉ BERLY (Jean d'Estivet), MAURICE SCHUTZ (Nicolas Loyseleur), ANTONIN ARTAUD (Jean Massieu), MICHEL SIMON (Jean Lemaître), JEAN d´Yd (Guillaume Evrard), LOUIS RAVET (Jean Beaupère), ARMAND LURVILLE (Juiz), JACQUES AMNA (Juiz), ALEXANDRE MIHALESCO (Juiz) e LÉON LARIVE (Juiz).

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Gertrud