quarta-feira, 9 de julho de 2008

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

“Que tal uma barba?.”


Eu havia visto poucos filmes de Tim Burton. Dentre os que tinha assistido há tempos atrás estão "Batman" (1989) e "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça" (1999). Uma amiga sugeriu-me assistir "Ed Wood" (1994), que ainda não havia visto. A partir de então, percebi que se tratava de um artista ímpar, um grande diretor. Fiquei curioso para ver o seu mais recente trabalho e o resultado de uma junção de dois universos muito diferentes - enquanto Tim Burton faz filmes de fantasia, Stephen Sondheim escreve musicais. Achei difícil imaginar 2 gêneros tão otimistas de pop art ou, de outra forma, 2 artistas pop que tenham, de alguma forma, subvertido o otimismo. Stephen Sondheim sempre gravitou em direção a tonalidades musicais suaves e desenvolveu seus trabalhos com subtextos beirando a ansiedade e a alienação. Tim Burton, por sua vez, envereda mais naturalmente (mas não de forma tão fácil) pela esfera do gótico e do grotesco, transformando temas cômicos e infantis em trabalhos fúnebres e assombrados. E não é surpreendente que “Sweeney Todd”, filme adaptado do musical de Sondheim, seja tão sombrio e aterrorizante. De fato, “Sweeney Todd” é tanto um filme de terror quanto um musical: é cruel nos efeitos e radical na misantropia, expressando um arroubo, uma visão extremamente pessimista da natureza humana. É, também, algo próximo de um grande obra, um trabalho de extrema força, quase genial.

A história é uma tragédia sobre a vingança. Um barbeiro, julgado erroneamente, retorna a Londres e abre uma barbearia, cortando gargantas e cabelos. Os corpo de suas vítimas viram tortas de carne (servidas aos fregueses) nas mãos da Sra. Lovett, sua parceira nos negócios e nos crimes. Canibalismo e assassinato, como alicerces para o espetáculo, formam uma brincadeira perversa e, acreditem, até deliciosa.

O filme de Tim Burton, apesar da participação de Sacha Baron Cohen (como um barbeiro saltimbanco) e Timothy Spall (como um xerife), que super representam em seus papéis, acerta no elenco. A Londres do diretor é escura, nebulosa e suja. A direção de arte de Dante Ferretti é estupenda e tem o poder de fazer a luz do dia parecer sinistra. A inocência, representada por um casal apaixonado (Jayne Wisener e Jamie Campbell Bower), cujo romance é platônico, não possui chances de concretização; é um truque do destino, algo para ser interrompido ou destruído.

A Sra. Lovett, uma cozinheira maquiavélica, é interpretada por Helena Bonham Carter, que a cada dia parece um fotocópia de Tim Burton, como uma bruxa do universo do diretor e mãe de seus filhos. Está bem no papel. Se o diretor possui um alter ego, ou pelo menos um ator que seja capaz de incorporar suas idéias nas telas, ele é representado por Johnny Depp. Como Sweeney, tendo seus cabelos desgrenhados e tingidos de branco e olhos pintados de negro, ele mais parece um avatar de fúria.

Cantando, sua voz é áspera e fina, mas de grande força. Traz o tom visceral de rock and roll para um idioma acostumado a um maior refinamento e, fazendo isso, desperta a violência das letras e canções de Sondheim. Muito próximo de qualquer outro filme de terror – o adolescente rejeitado pelos garotos, o homem decente cujo sofrimento foi desprezado – Sweeney surge como uma figura simpática.

No início, era um feliz marido e pai, até sua amada (Laura Michelle Kelly) tornar-se objeto de desejo de um juiz mau caráter (Alan Rickman), que exilou o pobre barbeiro para a Austrália. Anos depois, ele retorna para descobrir que sua filha, agora adolescente, está sob tutela do juiz.

Procurando suas antigas navalhas – “minhas amigas” – sob as tábuas do chão da antiga barbearia, Sweeney monta uma armadilha para o juiz - um projeto que requer o assassinato de muitos clientes ao longo do caminho. “Nunca sentirão a falta deles”, canta a Sra. Lovett. O olhar de Sweeney é duro, quase de um genocida. “Eles merecem morrer”, ele diz, contemplando a cidade sobre os telhados das casas.

E, o diretor, descreve essas mortes cruelmente. Os jatos de sangue podem parecer artificiais, mas quando os corpos deslizam da cadeira do barbeiro abaixo, em direção ao porão, amontoam-se com realidade doentia – estamos assistindo a pessoas virando alimento.

Pode parecer estranho elogiar um filme de tamanha selvageria. Entretanto, é um filme que não passa despercebido – ouso dizer que dificilmente pode ser esquecido e, mesmo sendo, vai ser relembrado no futuro. A força de “Sweeney Todd” está, sobretudo, na sua recusa em fazer qualquer tipo de concessão sentimental. Desde do desejo do diretor em ressaltar os pontos mais chocantes da história, até seu mais lúgubre final.

“Sweeney Todd” é uma fábula sobre o mundo no qual toda a possibilidade de justiça foi amputada e substituída - de um lado, por um poder fútil e arbitrário e, de outro, por um desejo furioso por justiça que rapidamente se torna loucura.

Pode haver um fio de esperança no final de tudo, mas em nenhum momento consegue-se perceber isso na telona. O que se assiste é tão negro quanto um túmulo. O que se ouve – uma maravilhosa trilha musical –, é igualmente infernal; contudo, o conjunto da obra é celestial.



"Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" (Sweeney Todd - The Demon Barber of Fleet Street)
2007 – EUA - 116 min. – Colorido – DRAMA/MUSICAL
Direção: TIM BURTON. Roteiro: JOHN LOGAN, baseado no musical de STEPHEN SONDHEIM E HUGH WHEELER, com adaptação de CHRISTOPHER BOND. Fotografia: DARIUSZ WOLSKI. Montagem: CHRIS LEBENZON. Música: STEPHEN SONDHEIM. Produção: RICHARD D. ZANUCK, distribuído pela DreamWorks Pictures e Warner Bros. Pictures.

Elenco: JOHNNY DEPP (Sweeney Todd) HELENA BONHAM CARTER(Sra. Lovett), ALAN RICKMAN (Juiz Turpin), TIMOTHY SPALL (Beadle), SACHA BARON COHEN(Pirelli), JAMIE CAMPBELL BOWER (Anthony), LAURA MICHELLE KELLY (Pedinte), JAYNE WISENER (Johana) e ED SANDERS (Toby).

Prêmios:
Oscar de Melhor Direção de Arte (Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo)/2008
Globo de Ouro de Melhor Filme - Musical ou Comédia/2008
Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme Musical ou Comédia (Johnny Depp)/2008
National Board of Review - Melhor Diretor (Tim Burton)/2007

Trailer Original:


Do mesmo diretor:



Ed Wood

17 comentários:

Cah disse...

Eu acho este filme maravilhoso!!!
Como disse em muitos blogs (e até no meu): Tim Burton consegue fazer o macabro e o estranho serem tão legais...
Tah certo que ele é um pouquinho cansativo com todo aquela cantoria, mas o visual vale a pena!!! Um grande filme!!!

Até +

(já que vc não assistiu muitas coisas do Burton, te sugiro "Peixe Grande e suas histórias maravilhosas")

Miguel Andrade disse...

Jacques, sua amiga tem bom gosto! Desse não gostei da cantoria. Muito chata mesmo! Se não fosse ela diria ser uma obra-prima! =)

o cara da locadora disse...

Nada contra o filme ser um musical, mas realmente tem musiquinhas muito chatas, mas não estraga em NADA o filme, excelente, assustador e engraçado... Adorei...

Red Dust disse...

Ainda não vi, mas só de saber que há 'cantorias' fico sem vontade nenhuma em vê-lo...

Deve ser trauma das matinés dos filmes com o Fred Astaire.

Abraço.

Robson Saldanha disse...

Eu não gostei desse filme porque é muscial. No entanto dei três estrelas por Johnny Depp, Helena Boham e também pela fotografia e direção que gostei muito! Tim Burton é genial pra mim!

Pedrita disse...

eu amei esse filme quando vi no cinema. acho que em telona fica deslumbrante. eu adoro o johnny deep, ele é maravilhoso. gosto demais dele em edward mãos de tesoura. beijos, pedrita

Pedro Henrique disse...

Visual plasticamente impecável, direção muito boa e elenco inspirado. Realmente, a música foi exagerada.

Abraço!

Jacques disse...

Cah, de fato o filme é ótimo. Apesar do pessoal reclamar da "cantoria", acho q o filme ficou equilibrado Valeu pela dica de Big Fish, vou assisti-lo. Abcs

Miguel, também acho; ela entende bastante de cinema e sempre me dá dicas interessantes. Como disse, acho o filme equilibrado e ótimo. Abcs.

Robson, o filme é todo bom, pelo menos em minha opinião. Quanto aos musicais, dê uma chance e veja alguns dos anos 50 - época de ouro da MGM, talvez vc mude de idéia sobre eles. Abcs.

Cara, concordo com vc. Excelente mesmo.

Red, quebre o paradigma das matinês e assita. Vai gostar. Abcs.

Pedrita, isso aí. Curti muti tbm. Abcs.

Pedro, como falei, o filme é uma peça refinada e impecável dentre os que estrearam este ano por aqui. Abcs

Sérgio Déda disse...

Não gostei muito deste filme.. não sou muito fã de musicais.. e esse eh musica a cada segundo, que me fez ficar impaciente.. além de ter um roteiro e ateh uma direção (adoro Burton) um pouco confusas.. tudo acontece meio q sem explicação e rápido demais..

vlws

Jacques disse...

Sérgio, este é um gênero de que nem todos gostam. Apesar disso, tem-se que admitir que o filme excelente.

Miriam disse...

Nossa como seu blog está bem organizado!!! Parabéns.
Estou louca para ver este filme, gosto muito deste estilo gótico.
Beijos.

contra-regra disse...

É Burton naquilo que ele conhece de melhor. É, com certeza, um dos melhores de sua geração. Estou sabendo que entre seus projetos há uma adaptação de Alice no país das maravilhas. Fico imaginando! O que surgirá daí?

Discutir a imprensa?
http://robertoqueiroz.wordpress.com

Cecilia Barroso disse...

Adoro Tim Burton como diretor. Seja de filmes ou de animações. Sweeney Todd é um ótimo filme. Uma boa história, visual maravilhoso e uma atuação perfeita do par principal.
Sensacional!

Jacques disse...

Miriam, que bacana que esteja gostando. Veja sim o filme é demais. Abcs

Contra-regra, de Tim Burton vc poderá, com certeza, esperar novidades.Abcs

Cecília, embora a galera tenha reclamado ca "cantoria", concordo com você. Abcs

Tito disse...

Tim Burton é o cara. Ele e Johnny Depp. Sweeney Todd é excelente.
Sugiro que você assista a Peixe Grande. Eu adoro este filme do Tim Burton, embora muita gente diga que sou louco.

Ygor Moretti Fiorante disse...

espetacular esse filme procura em meu blog também postei sobre ele abraço!!!

Gabriel Von Borell disse...

Como eu havia prometido vim aqui conferir seu texto sobre "Sweeney Todd" hehe . Belo texto , ótimas colocações e um grande filme !

Abraços .