sábado, 27 de setembro de 2008

TRIBUTO A PAUL NEWMAN

Paul Newman foi um dos últimos grandes astros de Hollywood, por mais que isso possa ser considerado um chavão. Se Marlon Brando e James Dean eram tidos como os rebeldes definitivos, Paul Newman era sem dúvida, o contraponto a eles – o bom moço, renegado talvez, selvagem com certeza, mas nunca com o espírito mau dos outros dois – seja como Hud, em “O Indomável”, Cool Hand Luke ou Butch Cassidy.

Ele atuou em mais de 65 filmes por mais de meio século, interpretando diversos papéis com talento, inteligência, refinamento e humor, tendo conseguido o que muitos atores de sua geração achavam impossível: manter o status de grande estrela, ainda na maturidade.

Paul Newman fez seu debut em Hollywood no filme “O Cálice Sagrado” (1954), mas o estrelato chegou um ano e meio depois quando ele pegou o papel anteriormente destinado a James Dean do boxeador Rocky Graziano em “Marcado pela Sarjeta”(1956). James Dean havia morrido no acidente de carro antes do roteiro ter sido finalizado.

Foi uma rápida ascensão para Paul Newman, mas até ser considerado um ator sério não foi tão rápido. Em função basicamente de seu jeito de estrela, sua aparência clássica. “Eu defino meu epitáfio”, ele teria dito uma vez. “Aqui jaz Paul Newman, que cometeu uma falha, porque seus olhos ficaram castanhos”.

A filmografia de Paul Newman foi uma enxurrada de heróis e anti-heróis ao longo de décadas e décadas. Em 1958, ele fez um homem determinado a casar com uma sulista na adaptação de William Faulkner “O Mercador de Almas”. Em 1982, em “O Veredito”, interpretou um advogado alcoólatra que encontra em um caso de negligência médica a chance de se redimir. Em 2002, aos 77 anos, ainda com muito vigor, interpretou o gângster chefe de Tom Hanks em “Estrada para Perdição”. Foi seu último papel de envergadura no cinema. Ele fez a voz do veterano corredor de carros Doc, no desenho animado da Pixar “Carros”, de 2006.

Poucos atores de sua época ousaram interpretar pessoas de caráter duvidoso ou cheio de defeitos. Como Hud Bannon, em “O Indomado” (1963), Paul Newman era um rancheiro no Texas que procurava uma boa vida e queria vender gado doente para conseguir isso. O personagem tinha a intenção de fazer o público sentir repulsa, havia dito Paul Newman numa entrevista. Ao contrário, ele disse, “criamos um herói folclórico”.

Auto-destrutivo em “Rebeldia Indomável” (1967), Paul interpretava um rebelde “detonado” por um brutal sistema prisional. Como Butch Cassidy em “Butch Cassidy” (1969), ele fez o mais amável e engraçado dos assaltantes de bancos, memoravelmente acompanhado de Robert Redford. Em “Desafio “a Corrupção” (1961), ele interpretou Fast Eddie, um papel recriado por ele 25 anos mais tarde, agora como o bem sucedido e maduro vendedor de bebidas em “A Cor do Dinheiro” (1986). Seu desempenho valeu o único Oscar de sua carreira como Melhor Ator pela Academia, após ter sido indicado seis vezes ao prêmio anteriormente (na categoria principal) e uma vez (na categoria de coadjuvante, por “Estrada para Perdição”).

“Quando um papel é bom para ele, ele é inigualável”, escreveu a crítica Pauline Kael, em 1977. “Newman fica mais à vontade num papel quando ele não é escalado para interpretar personagens de forma heróica; mesmo quando interpreta um bastardo, ele não é um grande bastardo – somente um sujeito imaturo, egoísta, como Hud. Ele pode interpretar o que ele não é — um grosseiro tosco. Mas você não acredita quando ele interpreta alguém mau ou corrupto, e quanto mais maduro ele fica, mais você o conhece, e menos você acredita. Sua previsibilidade é contagiante; ninguém, nunca, deveria pedir para não gostar de Paul Newman.”

Mais do que um astro do cinema, e algumas vezes do teatro, Paul Newman, era um showman, um filantropo e, depois de completar 75 anos, um corredor de carros. Em 1995, em seu septuagésimo aniversário, presenteou-se participando de uma corrida em Daytona. Quando venceu a corrida, entrou para o “Guinness Book of Records” como o mais velho vencedor de uma corrida em sua categoria.

Em 1982, decidiu comercializar um molho de saladas que criou e engarrafou para amigos no Natal. Assim, nascia a própria marca de Newman – “Newman´s Own” - uma companhia iniciada com seu amigo A. E. Hotchner, o escritor.

Mais de 25 anos mais tarde, a marca expandiu-se, diversificando para outras especiarias, incluindo limonadas, pipocas, molhos de macarrão, pretzels, figos orgânicos e vinhos. Sua filha, Nell Newman, administra o braço de alimentos orgânicos da companhia. Todos os lucros, de mais de 200 milhões de dólares, são doados para instituições de caridade, segundo a companhia.

Muito do dinheiro foi usado para criar a “Wall Gang Camps”, o nome dado para a gangue dos fora-da-lei em “Butch Cassidy.” Os campos fornecem recreação grátis no verão para crianças com câncer e outras doenças. Esteve ativamente envolvido no projeto escolhendo chapéus de caubói como instrumento, para que as crianças sem cabelo por causa da quimioterapia pudessem disfarçar suas carecas.

Muitos anos antes da criação da marca “Newman´s Own”, em 28 de Novembro de 1978, Scott Newman, o mais velho de seus 6 filhos – e único homem – morria de overdose de pílulas e álcool. O monumento de Paul para seu filho foi o Scott Newman Center, criado para divulgar os perigos das drogas e álcool. É administrado por Susan Newman, a mais velha das cinco filhas.

As três filhas mais jovens são frutos de seu segundo casamento de mais de 50 anos com a atriz Joanne Woodword. Paul e Joanne fizeram parte do elenco — ela como substituta — na peça da Broadway “Picnic” em 1953, depois interpretados no cinema, na versão “Férias do Amor” (1955), por William Holden e Kim Novak. Iniciando com “O Mercador de Almas” (1958), eles co-estrelaram 10 filmes, incluindo “Paixões Desenfreadas” (1960), baseado no romance de John O’Hara sobre um executivo manipulado e sua esposa infiel; “Meu Pai, Eterno Amigo” (1984), também dirigido, produzido e que Paul ajudou a escrever; e “Cenas de Uma Família” (1990), a versão de James Ivory de uma série de romances de Evan S. Connell, no qual Paul Newman e Joanne interpretam um casal conservador do centro oeste norte-americano lidando com as mudanças da vida.

Quando bons papéis não surgiam para Joanne, Paul produziu e dirigiu “Raquel, Raquel” para ela em 1968. Indicado para o Oscar de Melhor Filme, mostra a sensível história de uma professora solteirona em busca do amor e deu a Joanne sua segunda indicação de um total de quatro para Melhor Atriz – ela venceu em sua primeira indicação, interpretando a esquizofrênica Eve, em “As Três Faces de Eva” (1957) e foi indicada novamente pelo seu papel em “Cenas de Uma Família” e, em 1973, pelo filme “Lembranças”.

Paul Newman também dirigiu sua esposa em “Os Efeitos do Raio Gama nas Margaridas do Campo” (1972), - papel que deu à nossa Nicete Bruno, em 1974, o Prêmio Molière de teatro -, “À Margem da Vida” (1987) e no filme para a televisão “A Caixa de Surpresas” (1980). Como diretor, seu maior desafio foi “Uma Lição Para Não Esquecer” (1971), baseado no romance de Ken Kesey.

Numa indústrias na qual casamentos de longa duração podem ser definidos como aqueles que duram o primeiro ano e a primeira infidelidade, Newman e Woodward superaram essa batalha. Mas admitiram que geralmente houve turbulências. Ela amava opera e ballet. Ele gostava de jogos práticos e corrida de carros. Mas como Paul Newman havia comentado na Playboy magazine, em uma de suas inúmeras entrevistas que era perguntado sobre fidelidade conjugal, “Eu tenho filé em casa; por que vou sair em busca de hamburger?”. Lá se vai um dos grandes do cinema. Pena para a gente.

3 comentários:

Cecilia Barroso disse...

Sempre gostei muito de Paul Newman. Além de excelente ator ele ainda tinha essa aura de bom moço, de quem se preocupa tanto com todas as coisas.
Lembro quando vi pela primeira vez Rebeldia Indomável. Ele me impressionou demais!
Vai deixar saudade...

Beijocas

Sérgio Déda disse...

Jacques... excelente texto...
Prestei uma homenagem a essa grande lenda coma cena final de Butch Cassidy no meu blog...

vlws

Jacques disse...

Cecília, como disse, Paul Newman foi um dos últimos grande ícones de uma Hollywood que nos deixa saudosos. Abcs

Sergio, valeu vou la conferir