“Quando você vive mais que sua casa e família, acho que viveu demais.”
Trata-se de um filme de extrema sensibilidade, cujo fio condutor é odisséia da pacata Carrie Watts (Geraldine Page) que, no ocaso da vida, decidde retornar a Bountiful, sua cidade natal. “O Regresso para Bountiful” é talvez o mais peculiar road movie dos últimos tempos. Morando com o filho Ludie (John Heard) e anora Jessie Mae (Carlin Glynn, esposa de Masterson) em Houston, Carrie Watts vive invariavelmente angustiada. Sua relação com Jessie Mãe é péssima. Quando juntas, as duas brigam como se fossem crianças. Enquanto Jesse sonha com a ascenção social do marido na cidade grande, Carrie deseja apenas rever Bountiful – cidade onde foi criada e que hoje sequer consta do mapa – antes de morrer. Mais do que uma simples volta à terra natal, a viagem de Carrie a Bountiful significa o encontro doloroso com o tempo perdido. No papel principal, Geraldine Page aumenta a empatia do público com seu personagem ao dar-lhe contornos chaplinianos. Com absoluto controle, lidando com um personagem tão complexo e delicado, Geraldine mostra o porquê foi uma das mais refinadas atrizes do cinema, embora aqui às vezes super represente.
Geraldine Page, por sua atuação, a última de sua carreira, recebeu um justo prêmio da Academia de Hollywood. Lembro-me que, ao anunciá-la vencedora na cerimônia de 86, o ator F. Murray Abraham – o Salieri, de “Amadeus” (1984) - disse sobre a até então recordista de indicações (sem ter sido premiada): “ela é a maior atriz da língua inglesa...”. Talvez não fosse. Contudo, a sua Sra. Watts foi um papel maravilhoso e talvez o melhor da carreira que a atriz fez nas telas, incluindo sua inesquecível Alexandra Del Lago, em “O Doce Pássaro da Juventude” (1967). A direção de Peter Masterson surpreende ao não deixar o filme tornar-se por demais teatral.
O elenco inteiro está muito bem: John Heard, como Ludie; Carlin Glynn como Jessie Mae, cuja paciência parece sempre estar próxima ao fim, mas sempre se renova; Richard Bradford, como o xerife que se torna aliado de Carrie Watts durante seu "vôo", e Kevin Cooney, como funcionário da estação da rodoviária.
Um destaque particular fica por conta de Rebecca De Mornay – mais famosa como a prostituta de “Negócio Arriscado” (1983) – que interpreta a simpática e centrada noiva de um militar que fica amiga de Carrie durante a viagem. Com imenso bom humor, a atriz contribui para o equilíbrio do filme.
Seguindo a trilha dos hinos religiosos entoados por Carrie Watts (“Para casa, para casa, com ternura Jesus está chamando”), “O Regresso para Bountiful” é uma obra marcada pelo o que a religião tem de mais puro: a esperança de uma vida melhor, aqui ou caso exista, no além. Se certos filmes às vezes nos dão a sensação de uma paulada na cara, outros, entrando pelos olhos e ouvidos, chegam ao coração e passam a acompanhar-nos, durante muito tempo, na memória. Este filme é um deles. Bom para ver e rever.
Regresso Para Bountiful (The Trip to Bountiful)
1985 – EUA - 108 min. – Colorido – DRAMA
Direção: PETER MASTERSON. Roteiro: HORTON FOOTE, baseado na peça homônima de HORTON FOOTE. Fotografia: FRED MURPHY. Montagem: JAY FREUND. Música: J. A. C. REDFORD. Produção: STERLING VANWAGENEN E HORTON FOOTE, realizado pela ISLAND PICTURES.
Elenco: GERALDINE PAGE( Carrie Watts), JOHN HEARD (Ludie Watts), CARLIN GLYNN (Jessie Mae), RICHARD BRADFORD (Xerife) , REBECCA De MORNAY (Thelma) e KEVIN COONEY (Roy).
Prêmios:
Oscar de Melhor Atriz Principal (Geraldine Page)/1986.

Cenas do filme:
Assista também:

Doce Pássaro da Juventude






